Um libelo canadense

Correia da Fonseca
Foi um filme canadiano, isto é, de origem insuspeita, que preencheu o último «Sinal do Tempo». Quando escrevo «último» quero apenas significar que se trata do programa transmitido na sexta-feira passada, mas na verdade julgo haver motivos para recear que tenha sido mesmo o último, o derradeiro, ou pelo menos um dos últimos nesta acepção quase fúnebre. Por um lado, por constar que «Sinal dos Tempos» irá sair da RTP 2, onde tem vindo a morar, e será exportado para parte incerta. Por outro lado, porque esta sua mais recente emissão foi preenchida com o tal documentário canadiano que, francamente, pisou o risco das mais elementares conveniências. Calcule-se que logo na introdução o jornalista que apresenta o programa se saiu com esta: «Poucas áreas escapam à privatização de tudo o que pode ser explorado comercialmente e dar lucro. Mas levanta-se a questão de ver o que foi feito do Bem Comum e quais as consequências de alterar valores que foram o cimento de vastas sociedades humanas durante gerações.» E já em pleno documentário, embora ainda nos seus metros iniciais, ouviu-se o seguinte: «Para o Empresário, este conceito de Bem Comum tornou-se o único obstáculo entre ele e o seu derradeiro objectivo: transformar todo o planeta num negócio e declarar o Mercado Total.»
«Bem Comum» era exactamente o título daquele trabalho, assinado pela jornalista Carole Poliquin e por ela co-produzido, ainda que com diversos apoios, entre os quais os do Television Canadian Fund, da Televisão de Quebec e da Rádio Canadá. Tudo nele, de uma ponta a outra, era um libelo contra as grandes opções de muitos governos, entre os quais o Governo português, em matéria económica e financeira. Aquilo, no contexto actual, até adquiria o sabor de um desafio. Em verdade vos digo que, se depois desta transmissão, o senhor ministro Morais Sarmento não tira um definitivo desforço, género K. O. técnico, nem se mostrará digno do seu currículo pessoal nem nada. Mas, dada a sua ficha de serviços conhecidos, isso não há-se acontecer.

A «invisível mão»

O trabalho de Carol Poliquin não tentou fazer o impossível, que seria um percurso por todos os grandes sectores cuja natural vocação é a utilidade pública, isto é, o Bem Comum, e contudo vão sendo transferidos para o «bem privado», isto é, para o benefício de algumas empresas e alguns empresários. Assim, falou-nos do negócio da privatização da água de rios e lagos e da sua inacreditável colocação no mercado internacional como mercadoria, a par de automóveis e outros produtos. Depois, contou como uma grande empresa, naturalmente norte-americana, vem conseguindo a privatização de facto de espécies vegetais mediante a patenteação de sementes, com isso suscitando a ruína de agricultores que tentam resistir-lhe. A seguir foi a escandalosíssima privatização por uma empresa (USA, pois claro!) de um gene humano: a Myriad Genetics patenteou o conhecimento de um dado genético de importância fundamental para o tratamento de um cancro da mama, o que de facto corresponde, como aliás o documentário referiu, à privatização do próprio «tecido da vida». Este passo consubstancia, como também o telefilme sublinhou, ao uso de «a doença como oportunidade de negócios» e «a doença como fonte de lucro». Garanto que, embora tendo havido alusão aos interesses de seguradoras e indústria farmacêutica, não houve por ali nenhuma referência concreta ao caso português. Houve, contudo, uma interrogação que inevitavelmente nos toca: «Como podemos entregar a Saúde a formas de mercado?»
Nem o espaço permite muitas citações mais, nem elas serão indispensáveis. Quero apenas deixar registado que o documentário canadiano não se esqueceu de denunciar as pressões que os poderes empresariais transnacionais exercem sobre os governos dos diversos países para que eles se submetam à sua vontade e acabem por lhes servir os interesses. Segundo Carole Poliquin, a assinatura de «acordos internacionais que implicam abandono de poderes de soberania permitem o álibi dos governos». E a última imagem do telefilme foi a mais terrível e audaciosa: polícias de choque armados e equipados, o grande plano de um cano apontado ao telespectador. E uma frase «off»: «Naquele dia, a invisível mão do Mercado revelou os seus verdadeiros desígnios».


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