A República Popular...de quê ?
À memoria do meu avô Francisco Garraio Serra (Marvão) que sempre quis que eu fosse sério e honesto. (Que difícil é, às vezes, avô !! e que fácil é ser falso e ladrão.)A azeitona tem o péssimo hábito de só amadurecer no fim do ano, quando faz mais frio e é mais difícil trabalhar. A colheita faz-se com grande sacrifício, com as mãos geladas e o corpo molhado. Depois segue para o lagar onde é moída e de onde sai o azeite. Se a azeitona está sã, dará um azeite com baixa graduação. Se está podre, por ataques de insectos durante o período de maturação, dará alta acidez, que poderá chegar muito acima dos cinco graus.
Lembro-me de ir ao lagar com o meu avô e de reparar como ele se punha levemente nervoso, antes de saber qual era a graduação do seu azeite. Se era inferior ao que ele esperava, alegria. Se era superior, tristeza, como em tantas coisas da vida.
Não se costumava levar grandes comidas para o lagar, mas passava-se lá o dia inteiro, e havia calor, porque os lagares necessitavam de água quente para provocar a separação do azeite dos outros componentes que iam parar ao ribeiro próximo, nessas alturas cheio de água. Então algumas batatas, bacalhau, couves eram colocadas na porta da potente estufa e ali se coziam ou assavam. Também com esta comida se provava o novo azeite, acabado de fazer. O azeite não depende só da acidez mas também do sabor que lhe transmitiu a azeitona.
É curioso e triste, como um país que se orgulha de saber tanto de azeite, sabe tão pouco. Em visitas a diversos supermercados verifiquei que só uma mínima parte das garrafas dizem o tipo de azeitonas utilizadas e nunca a percentagem das mesmas. Quando dizem, falam da galega, cordovil, verdeal (às vezes). Não sabemos se há azeites de arbequina, madural, blanqueta, cobrançosa, lentisca. Não sabemos, mas há.
Todos os vinhos trazem na contra-etiqueta as variedades de uva utilizadas e até notas de prova. Pode estar certo ou não o que lá está escrito, mas pelo menos estão a indicar ao cliente que mais do que dizer «ganda pinga» , devem saber dizer a que sabe um vinho. No azeite é igual. Dizer «este tem 0,4º de acidez: é bom» pode ser um disparate monumental. Ninguém prova azeites num restaurante ou em casa. Muita gente, simplesmente não é capaz de provar azeite dum copo e dizer «sabe a fruta, é picante, tem um toque de amêndoa e frutos secos, etc.». Os pretensiosos gurus da nossa gastronomia chefiada por chefs importados do estrangeiro (como o Benfica, o Porto, o Sporting e outros, importam jogadores), continuam no caminho da cozinha espectáculo em vez da cozinha profunda, quer seja inovadora ou tradicional.
Aqui há uns tempos recebemos uma carta dum organismo do Estado, daqueles que dão subsídios à agricultura. Vimos, eu e a minha mãe, que das 76 oliveiras que temos, os de Bruxelas tinham eliminado quatro. Eram quatro pequeninas, porque o terreno onde estão é mau e o assunto não teria tido maior importância, se a coisa não se tivesse espalhado entre as outras oliveiras. Já se sabe que as árvores são como algumas pessoas e toca de comentários, ditos e dichotes, sempre a gozar com as quatro pobres oliveiras saneadas. Estas começam a definhar, cada dia mais tristes, os ramos mais baixos, aquele prateado da metade inferior das folhas transformou-se em cinzento, cada vez mais escuro, enfim, uma tragédia.
Decidi consultar um psicólogo de árvores e pedir-lhe que me desse uns Xanax, ou até uns Prozac para as oliveiras, a ver se arrebitavam. Nada, não há disso para oliveiras.
Então escrevi para Bruxelas, para o sr. presidente da Comissão, Dr. José Manuel Durão Barroso, e contei-lhe tudo. Como sei como funciona isto do poder, elogiei o trabalho dele e a minha esperança no Tratado de Lisboa e garanti-lhe que o meu voto para o futuro presidente dos Estados Unidos da Europa seria para ele. Sempre.
Qual não foi a minha surpresa quando uma semana depois recebo uma carta destas de correio super-rápido a informar o «querido pequeno agricultor, que o assunto das quatro oliveiras estava resolvido com efeitos retroactivos e a convidar-me para uma magna assembleia a celebrar no Parlamento Europeu num futuro muito breve. Assinado: «Zé Manel». Achei estranho, mas a verdade é que vinha o bilhete de avião e o papel para o hotel. Tudo já pago.
Fui ao olivalzinho e no meio de todas li a carta de Bruxelas em voz alta. Todas ficaram contentes. As grandes pediram desculpa às outras quatro e estas agitavam os enfezados ramos e parece-me que vi alguma lágrima a cair dalgumas folhas. Continuaram sem dar azeitonas, mas eram felizes.
Uma rodela de estrelas na lapela
Quando chegou o dia lá fui para Estrasburgo e à hora devida encaminhei-me para o Parlamento. Mostrei o meu convite e levaram-me para a tribuna dos convidados, onde me sentei ao lado de um senhor louro de olhos azuis, que depois vim a saber ser o presidente dum grande banco sueco. Comecei a ver os outros convidados e reconheci os donos ou presidentes dos maiores bancos, companhias, daqueles que aparecem na televisão a dizer que a economia vai bem e ainda irá melhor. Estava o tipo da Siemens, o da AEG,o da Alstom, o da IKEA, o da BMW, o Trichet, o Botin do Santander e o Gonzalez do BBVA, os governadores dos bancos centrais dos diferentes países (andei à procura do Constâncio, mas não o vi. Talvez estivesse distraído com as supervisões). Numa fila traseira do segundo balcão consegui ver o Belmiro.
Também estavam os chefes dos partidos no poder e os que esperavam vir a sê-lo de acordo com a saudável alternativa democrática. Quer dizer estavam os do Partido Popular Europeu e os do Partido Europeu Socialista, sempre dizendo a mesma coisa, mas de forma a que pareça que dizem coisas opostas. O hemiciclo estava cheio, mas a mesa da presidência vazia. Atrás dela um enorme ecrã totalmente branco tapava os símbolos habituais da União Europeia.
De repente vi o que, apesar de olhar tanto, ainda não tinha visto: praticamente todos os presentes, deputados e convidados, vestiam um casaco azul abotoado até ao pescoço e umas calças também azuis, uma espécie de alpargatas e na cabeça um boné mole do mesmo tecido e com uma pequena pala. No peito uma rodela de estrelas douradas, colada ou cosida ao casaco.
O sueco, ao meu lado, estava vestido como os outros. Não me contive e perguntei-lhe o porquê de tudo aquilo. Com uma alegria enorme o banqueiro disse-me que todos os ali presentes eram a guarda avançada da construção de uma Europa democrática e que todos se consideravam como «jovens guardas azuis». Mas isso é como no início da Revolução Cultural chinesa, disse eu. Exactamente, camarada, respondeu-me. Sabemos que o camarada Zé Manel esteve nessa luta em Lisboa com heroísmo e determinação, mas ao ver-se derrotado de momento, iniciou uma grande marcha desde o MRPP até hoje em que o vamos aclamar nosso chefe, nosso guia, nosso timoneiro.
Desculpe, e esse livrinho de capa de plástico azul para que é? Este livro que começa com uma foto do grande líder Zé Manel, protegido por uma folhinha de seda transparente, contém as citações mais importantes da sua obra teórica. Está feito à semelhança doutros de grandes líderes como o de Hitler «A minha luta», o do monsenhor Escrivà de Balaguer (fundador da Opus Dei ) «Caminho» e o do Mao Tse Tong «O livro vermelho». O povo não precisa de grandes teorias, explicações e razões, precisa de citações e palavras de ordem. Os líderes pensam, o povo executa. O povo não pensa.
Sem saber que dizer, balbuciei: mas há ali uns que não estão vestidos como vocês. Sim, respondeu-me, são os sociais-imperialistas do grupo dos comunistas e da esquerda. Não há problema, quando a democracia revolucionária for total, o povo vai encarregar-se de os mandar para uns campos de reeducação no Norte da Lapónia, que já está em obras.
Nesta altura, ao som da música do «Apocalipse Now» o pano branco começou a tingir-se de azul com pintas amarelas e logo a imagem de Zé Manel com uma bandeira azul na mão em posição de ataque, ocupou todo o ecrã. Como ascendido do nada, começou a aparecer a cabeça e depois o corpo inteiro do camarada Zé Manel vestido como os outros, excepto no boné onde também tinha o círculo de estrelas bordadas a ouro. Todos de pé (menos os tais social-imperialistas) agitavam o livrinho e aclamavam o grande timoneiro, que deixava escorrer um leve sorriso, olhando aparentemente para o vazio, mas realmente para os donos dos bancos e empresas gigantescas.
O grande timoneiro, camarada Zé Manel, levantou o braço direito e fez-se o silêncio total. Disse: «Declaro fundada a República Popular da Europa. O único líder serei eu. Serei inflexível na aplicação do meu poder. Sem ordem não há democracia. Toca a trabalhar!» Deu meia volta e desapareceu.
Ao voltar às ruas de Estrasburgo pensei para mim: o que eles fizeram lá dentro é o que vão fazer ou o que gostavam de fazer?
Entrei num restaurante daqueles com as salas todas em madeira e muitas malvas em flor nas janelas e pedi uma choucrute, com o toucinho, a salsicha, o joelho de porco em cima das couves brancas fermentadas e uma enorme caneca de cerveja.
Não se costumava levar grandes comidas para o lagar, mas passava-se lá o dia inteiro, e havia calor, porque os lagares necessitavam de água quente para provocar a separação do azeite dos outros componentes que iam parar ao ribeiro próximo, nessas alturas cheio de água. Então algumas batatas, bacalhau, couves eram colocadas na porta da potente estufa e ali se coziam ou assavam. Também com esta comida se provava o novo azeite, acabado de fazer. O azeite não depende só da acidez mas também do sabor que lhe transmitiu a azeitona.
É curioso e triste, como um país que se orgulha de saber tanto de azeite, sabe tão pouco. Em visitas a diversos supermercados verifiquei que só uma mínima parte das garrafas dizem o tipo de azeitonas utilizadas e nunca a percentagem das mesmas. Quando dizem, falam da galega, cordovil, verdeal (às vezes). Não sabemos se há azeites de arbequina, madural, blanqueta, cobrançosa, lentisca. Não sabemos, mas há.
Todos os vinhos trazem na contra-etiqueta as variedades de uva utilizadas e até notas de prova. Pode estar certo ou não o que lá está escrito, mas pelo menos estão a indicar ao cliente que mais do que dizer «ganda pinga» , devem saber dizer a que sabe um vinho. No azeite é igual. Dizer «este tem 0,4º de acidez: é bom» pode ser um disparate monumental. Ninguém prova azeites num restaurante ou em casa. Muita gente, simplesmente não é capaz de provar azeite dum copo e dizer «sabe a fruta, é picante, tem um toque de amêndoa e frutos secos, etc.». Os pretensiosos gurus da nossa gastronomia chefiada por chefs importados do estrangeiro (como o Benfica, o Porto, o Sporting e outros, importam jogadores), continuam no caminho da cozinha espectáculo em vez da cozinha profunda, quer seja inovadora ou tradicional.
Aqui há uns tempos recebemos uma carta dum organismo do Estado, daqueles que dão subsídios à agricultura. Vimos, eu e a minha mãe, que das 76 oliveiras que temos, os de Bruxelas tinham eliminado quatro. Eram quatro pequeninas, porque o terreno onde estão é mau e o assunto não teria tido maior importância, se a coisa não se tivesse espalhado entre as outras oliveiras. Já se sabe que as árvores são como algumas pessoas e toca de comentários, ditos e dichotes, sempre a gozar com as quatro pobres oliveiras saneadas. Estas começam a definhar, cada dia mais tristes, os ramos mais baixos, aquele prateado da metade inferior das folhas transformou-se em cinzento, cada vez mais escuro, enfim, uma tragédia.
Decidi consultar um psicólogo de árvores e pedir-lhe que me desse uns Xanax, ou até uns Prozac para as oliveiras, a ver se arrebitavam. Nada, não há disso para oliveiras.
Então escrevi para Bruxelas, para o sr. presidente da Comissão, Dr. José Manuel Durão Barroso, e contei-lhe tudo. Como sei como funciona isto do poder, elogiei o trabalho dele e a minha esperança no Tratado de Lisboa e garanti-lhe que o meu voto para o futuro presidente dos Estados Unidos da Europa seria para ele. Sempre.
Qual não foi a minha surpresa quando uma semana depois recebo uma carta destas de correio super-rápido a informar o «querido pequeno agricultor, que o assunto das quatro oliveiras estava resolvido com efeitos retroactivos e a convidar-me para uma magna assembleia a celebrar no Parlamento Europeu num futuro muito breve. Assinado: «Zé Manel». Achei estranho, mas a verdade é que vinha o bilhete de avião e o papel para o hotel. Tudo já pago.
Fui ao olivalzinho e no meio de todas li a carta de Bruxelas em voz alta. Todas ficaram contentes. As grandes pediram desculpa às outras quatro e estas agitavam os enfezados ramos e parece-me que vi alguma lágrima a cair dalgumas folhas. Continuaram sem dar azeitonas, mas eram felizes.
Uma rodela de estrelas na lapela
Quando chegou o dia lá fui para Estrasburgo e à hora devida encaminhei-me para o Parlamento. Mostrei o meu convite e levaram-me para a tribuna dos convidados, onde me sentei ao lado de um senhor louro de olhos azuis, que depois vim a saber ser o presidente dum grande banco sueco. Comecei a ver os outros convidados e reconheci os donos ou presidentes dos maiores bancos, companhias, daqueles que aparecem na televisão a dizer que a economia vai bem e ainda irá melhor. Estava o tipo da Siemens, o da AEG,o da Alstom, o da IKEA, o da BMW, o Trichet, o Botin do Santander e o Gonzalez do BBVA, os governadores dos bancos centrais dos diferentes países (andei à procura do Constâncio, mas não o vi. Talvez estivesse distraído com as supervisões). Numa fila traseira do segundo balcão consegui ver o Belmiro.
Também estavam os chefes dos partidos no poder e os que esperavam vir a sê-lo de acordo com a saudável alternativa democrática. Quer dizer estavam os do Partido Popular Europeu e os do Partido Europeu Socialista, sempre dizendo a mesma coisa, mas de forma a que pareça que dizem coisas opostas. O hemiciclo estava cheio, mas a mesa da presidência vazia. Atrás dela um enorme ecrã totalmente branco tapava os símbolos habituais da União Europeia.
De repente vi o que, apesar de olhar tanto, ainda não tinha visto: praticamente todos os presentes, deputados e convidados, vestiam um casaco azul abotoado até ao pescoço e umas calças também azuis, uma espécie de alpargatas e na cabeça um boné mole do mesmo tecido e com uma pequena pala. No peito uma rodela de estrelas douradas, colada ou cosida ao casaco.
O sueco, ao meu lado, estava vestido como os outros. Não me contive e perguntei-lhe o porquê de tudo aquilo. Com uma alegria enorme o banqueiro disse-me que todos os ali presentes eram a guarda avançada da construção de uma Europa democrática e que todos se consideravam como «jovens guardas azuis». Mas isso é como no início da Revolução Cultural chinesa, disse eu. Exactamente, camarada, respondeu-me. Sabemos que o camarada Zé Manel esteve nessa luta em Lisboa com heroísmo e determinação, mas ao ver-se derrotado de momento, iniciou uma grande marcha desde o MRPP até hoje em que o vamos aclamar nosso chefe, nosso guia, nosso timoneiro.
Desculpe, e esse livrinho de capa de plástico azul para que é? Este livro que começa com uma foto do grande líder Zé Manel, protegido por uma folhinha de seda transparente, contém as citações mais importantes da sua obra teórica. Está feito à semelhança doutros de grandes líderes como o de Hitler «A minha luta», o do monsenhor Escrivà de Balaguer (fundador da Opus Dei ) «Caminho» e o do Mao Tse Tong «O livro vermelho». O povo não precisa de grandes teorias, explicações e razões, precisa de citações e palavras de ordem. Os líderes pensam, o povo executa. O povo não pensa.
Sem saber que dizer, balbuciei: mas há ali uns que não estão vestidos como vocês. Sim, respondeu-me, são os sociais-imperialistas do grupo dos comunistas e da esquerda. Não há problema, quando a democracia revolucionária for total, o povo vai encarregar-se de os mandar para uns campos de reeducação no Norte da Lapónia, que já está em obras.
Nesta altura, ao som da música do «Apocalipse Now» o pano branco começou a tingir-se de azul com pintas amarelas e logo a imagem de Zé Manel com uma bandeira azul na mão em posição de ataque, ocupou todo o ecrã. Como ascendido do nada, começou a aparecer a cabeça e depois o corpo inteiro do camarada Zé Manel vestido como os outros, excepto no boné onde também tinha o círculo de estrelas bordadas a ouro. Todos de pé (menos os tais social-imperialistas) agitavam o livrinho e aclamavam o grande timoneiro, que deixava escorrer um leve sorriso, olhando aparentemente para o vazio, mas realmente para os donos dos bancos e empresas gigantescas.
O grande timoneiro, camarada Zé Manel, levantou o braço direito e fez-se o silêncio total. Disse: «Declaro fundada a República Popular da Europa. O único líder serei eu. Serei inflexível na aplicação do meu poder. Sem ordem não há democracia. Toca a trabalhar!» Deu meia volta e desapareceu.
Ao voltar às ruas de Estrasburgo pensei para mim: o que eles fizeram lá dentro é o que vão fazer ou o que gostavam de fazer?
Entrei num restaurante daqueles com as salas todas em madeira e muitas malvas em flor nas janelas e pedi uma choucrute, com o toucinho, a salsicha, o joelho de porco em cima das couves brancas fermentadas e uma enorme caneca de cerveja.