Os que já não prestam

Correia da Fonseca
Foi no último fim-de-semana, talvez até já na passada sexta-feira, que a televisão nos trouxe imagens e sons dos serviços de urgência de alguns hospitais públicos sobrelotados pela afluência de utentes, na sua maioria tocados pelo surto de gripe que, ano após ano, nos visita mais ou menos por esta altura. Como vimos e ouvimos, era de facto muita gente, e bem se entende que assim tenha sido: quem se sente mal e é apenas doente, não é médico capaz de avaliar a eventual gravidade da sua própria doença, dirige-se naturalmente a lugar onde está quem saiba esclarecê-lo e tratá-lo. E dirige-se a um serviço público, não a uma clínica privada com área de acolhimento e sector de hotelaria que até podem ser quase faustosos mas serão certamente caros, e onde aliás uma gripe não será encarada como um negócio interessante. Foi, pois, se não estou enganado, na sequência da presença nos hospitais das equipas de reportagem que ali acorreram por causa da sobrelotação das urgências que ouvimos um médico aludir a uma situação concreta que já não tinha a ver com surtos de gripe: o agravamento da falta de camas para internamentos em consequência da sua ocupação por quem já poderia deixar o hospital. São casos clinicamente curados ou que já não justificam internamento, mas a quem os médicos não dão alta porque tais doentes, restabelecidos ou pelo menos em convalescença, não têm para onde ir e nem sequer há quem surja a interessar-se por eles. Porque são velhos, porque o seu internamento hospitalar surgiu às suas famílias como uma oportunidade preciosa para se libertarem de empecilhos. Por isso até por vezes são dadas moradas falsas ou números errados de um possível contacto, assim se apagando possíveis pistas. Dado que esses doentes velhos não tiveram a amabilidade de falecer, ali estão a embaraçar o hospital e os médicos, sem outro futuro plausível que não seja o de morrerem por efeito do retorno da doença que ali os trouxe ou de qualquer outra. Sem nenhuma bagagem significativa, talvez só com a memória de uma família que um dia tiveram e por quem estão a ser rejeitados porque já não prestam. Meses atrás, quando os quatro do Gato Fedorento ainda estavam na fase ascensional da sua carreira que ameaça ser curta, um dos seus melhores e mais certeiramente amargos sketches mostrava o jovem Ricardo Araújo Pereira a despejar um velho num específico contentor de lixo, «o velhão». Os que ficam abandonados nos hospitais confirmam o cruel diagnóstico: são lixo. E o hospital é o contentor que os seus familiares providencialmente encontraram.

A imagem na TV

Porém, o caso dos velhos abandonados nos hospitais talvez apenas constitua um exemplo extremo e especialmente chocante do desprezo generalizado de que os velhos são objecto nesta sociedade supostamente cristã. E, não dizendo que tudo começa na televisão, essa portentosa geradora de modelos de comportamento, pois dizê-lo seria injusto e tolo, direi que a televisão tem no assunto algumas responsabilidades que não são ligeiras. É sabido que quando surgem velhos na televisão há grande probabilidade de que estejam a jogar às cartas, a dançar numa «festa para a terceira idade» ou num banco de jardim à espera de coisa nenhuma ou talvez da coisa final. De há uns tempos para cá surgem também reportagens breves sobre «universidades seniores» onde velhos teimam em estudar, em saber e entender mais, mas sempre essas incursões da TV surgem com o ar de quem visita reservas onde sobrevivem criaturas singulares, estranhamente dotadas ainda de inteligência e curiosidade intelectual e por isso anómalas. Nunca a televisão nos dá decidida conta de que centenas de intelectuais de diversos sectores da cultura e do saber são velhos, e que para além desses há milhares de cidadãos septuagenários ou mais que isso que não se limitam a dançar ou jogar às cartas, que são gente com todas as faculdades em boa forma. Louis Aragon disse um dia que são os jovens imbecis que serão um dia os velhos cretinos. Para lá do excesso da fórmula, aliás proferida «em circunstância», ela radica na denúncia de preconceitos contra a velhice e os velhos que a TV acaba por corroborar. É claro que nem todos os que sentem ou crêem que os velhos estão a mais porque «já tiveram o seu tempo» e já por cá não fazem mais que empatar os outros irão pôr, um dia, os seus velhos numa cama de hospital. Mas não estão tão longe disso quanto seria preciso.


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