A vida

Francisco Mota
Para Luís Pinto de Figueiredo
Palmela


Querido Luís
Vi-te comer, fatia a fatia, uma enorme bola de Chaves. Vi como naquela parede amarela feita de farinha, gordura e ovos, apareciam filões de chouriço, toucinho e presunto. Tu ias cortando fatias com precisão matemática, com um ar profundamente sério. Fazias intervalos tácticos para beber uns golos de um tinto encorpado de Estremoz, que maridava perfeitamente com a bola transmontana.
Ao ver-te comer, senti que estavas a reviver o teu passado, a tua infância, o sabor repetido todos os anos, mas não só o teu. Sim, estavas a reviver tudo o que sentiu o teu pai, o teu avô e mais para trás, até onde ninguém sabe nem quando nem como.
Tens sorte de ter um passado, uma vida e uns sabores que te enchem a vida.
Temos sorte de te ter como amigo, companheiro e camarada.
Hoje não terás a voz do teu Filipe nem o violoncelo do Toninho Lobo a ler e acompanhar este texto sobre a vida.
Como te disse não é só para ti, mas tu foste o primeiro em recebê-lo.

A vida

Uma criança na barriga da mãe parece um astronauta quando flutua no espaço. Mas onde estava antes de um acto de amor lhe dar a possibilidade de voar?
Esse tempo, o nascimento, dá-lhe os primeiros conhecimentos: comer, andar, falar, ir à escola. Cada dia vai descobrir um mundo novo à sua volta, que cada vez será maior e mais complexo. Na maioria dos casos, há muito para conhecer e poucas obrigações.
Este será o melhor tempo da tua vida.

Depois vem o estudo a sério ou o trabalho duro. Também chegará o primeiro cigarro, o primeiro copo, o primeiro sobressalto no coração, ao ver e rever o olhar daquela pessoa. Haverá mais perturbações cardíacas, sempre in crescendo, mãos que encontram outras mãos, bocas que se procuram, até chegar a primeira luta dos corpos, de que normalmente os dois saem vencedores.
Este será certamente o melhor tempo da tua vida.

Chegará o tempo da responsabilidade: ter um trabalho, fazê-lo bem, ser autónomo, ganhar dinheiro, comprar um carro, viajar, ir de férias, ser promovido, ganhar mais dinheiro. É isto o que se quer, ou pelo menos parte disto. Muitos, além disto, lutam pela justiça no mundo em que lhes tocou viver. O reencontro diário com o companheiro ou a companheira dá força e alegria.
Muitas vezes dessa alegria aparece um filho ou mais. Alegram-se os pais, os avós, os amigos. Se não aparecem, não faz mal, porque o importante são sempre os dois em questão, mesmo que não sejam sempre os mesmos dois. Assim se passarão dezenas de anos.
Este será provavelmente o melhor tempo da tua vida.

Deixar de trabalhar! Já chega! Há esta doença, aquela mazela, este medo. Mas ainda há muita vida para viver. A vida transformou-te em especialista de qualquer coisa alheia ao teu trabalho: carpintaria, música, literatura, electricidade, cozinha, pintura, navegação. Vinho: há muitos especialistas em vinho. A vida ensinou-te a pensar, a medir, a ponderar. Por isso a tua opinião é procurada. Por isso sabes que perdeste alguns prazeres e soubeste encontrar outros. Com tudo isto bem arrumado na cabeça, podes tourear alguma doença, vencê-la ou neutralizá-la. O que é isso para ti? Nada, porque
Será seguramente o melhor tempo da tua vida.

E agora, dirás, vem o fim. Não. Não há fim, só há transformação na vida. Os que tiveram algum deus, que lhe digam que faça o seu trabalho e se ocupe da sua vida posterior. Os que não quiseram ter deuses, sabem que voltarão para o desconhecido onde estavam antes do tal acto de amor que te deu a possibilidade de viver. Nada sabes de ti antes desse momento. Não saberás nada quando voltares ao desconhecido. Só sabes que não sofreste antes e não sofrerás depois. Podes descansar, que de certeza estarás cansado.
Por isso lembra-te sempre do poeta que dizia: «a morte nunca existiu». Essa coisa chamada morte
Será, definitivamente, o melhor tempo da tua vida.