- Nº 1806 (2008/07/10)
Pavilhão Central acolhe exposição
sobre a vida e obra de Rogério Ribeiro

Uma das figuras maiores da arte portuguesa

Temas
O Pavilhão Central da Festa do Avante! vai homenagear, este ano, com uma exposição, Rogério Ribeiro, artista comunista, que desde sempre ligou a arte à vida, pintando a dureza da luta quotidiana pela sobrevivência e a luta política, cruzando-a com a poética da alegria de viver, de festejar o amor. Ali, o visitante vai poder apreciar algumas das obras mais significativas deste autor multifacetado.

Rogério Fernando da Silva Ribeiro faleceu no passado dia 10 de Março de 2008. Nascido em Estremoz em 1930, destacado professor e artista plástico, Rogério Ribeiro abraçou desde sempre a luta antifascista pela pela liberdade e pela democracia.
Foi uma das figuras maiores da arte portuguesa. Excepcional e multifacetada personalidade criadora, ao legado da sua imensa obra plástica junta-se o do seu incansável trabalho de construtor e dinamizador cultural, o do pedagogo entusiasta, o do combatente político pelas causas da emancipação humana, o de resistente e dirigente comunista.
Sendo uma das mais destacadas e originais personalidades criadoras enraizadas no movimento neo-realista, a sua obra é uma riquíssima e complexa construção e reflexão sobre o devir humano, sobre o seu tempo e sobre uma humanidade em certos aspectos intemporal.
Nas suas memórias visuais ficarão para sempre gravadas as suas ilustrações para o livro «Até amanhã camaradas» de Manuel Tiago.
Num dos seus testemunhos mais importantes e também um dos mais comoventes, Rogério Ribeiro falou da importância da Revolução de Abril na sua obra, não como um momento de viragem, mas como um período em que a urgência histórica requeria toda a atenção criadora. Ao longo de toda a sua vida foi um trabalhador incansável e a partir dos anos 70 a sua obra atingiu uma amplitude e riqueza criadora incomparáveis, atingindo um reconhecimento internacional significativo.
Destacado participante nas lutas do MUD Juvenil e nas lutas estudantis de 1962, Rogério Ribeiro estabeleceu contactos com o PCP desde 1953, tendo a ele aderido em 1975. Preso pela PIDE em 1958 vê-lhe negada a autorização para exercer o cargo de assistente da Escola de Belas Artes de Lisboa.
Membro do Comité Central do PCP desde 1983 até 1992, Rogério Ribeiro deu, durante três décadas, uma elevada contribuição para a concepção e realização da Festa do Avante!, da qual foi membro da sua comissão organizadora e para muitas outras realizações do Partido, das quais se destaca a exposição comemorativa dos 60 anos de vida do PCP.

José Casanova recorda Rogério Ribeiro

«Amizade, admiração e camaradagem»

A amizade pelo homem sempre de braços abertos à solidariedade, à lealdade, à fraternidade; sempre disponível para o gesto solícito a transbordar de ternura; sempre protagonista activo da partilha de valores, de referências, de sonhos, de afectos de que é feita a nossa condição de comunistas, de homens que acreditam, e por isso lutam, por uma sociedade livre, justa, solidária, fraterna, pacífica.

A admiração pelo artista - figura maior da arte e da cultura portuguesas, artista em movimento perpétuo que atravessou a vida a desenhar e a pintar, o que lhe era tão essencial como o bater do coração ou o respirar o vento das lutas que vão construindo o homem, lutas que animavam a sua mão prodigiosa, inventando a realidade de paisagens naturais e humanas que preenchem algumas das páginas mais sublimes da história de arte portuguesa - designadamente enquanto personalidade marcante do movimento neo-realista, a cuja génese o Rogério se referiu nestes termos: «Houve um sentimento profundo que atravessou o homem, um pouco por todo o mundo, um sentimento pleno e sensível onde se reflectiram e convergiram duma forma idêntica os desejos, os sonhos, as lutas, que de todos os continentes se anunciavam numa vontade que conquistou o canto e a voz de milhares e milhares de homens numa determinação de ganhar a paz necessária ao refazer do mundo (...) escritores, poetas, operários, camponeses, estudantes, homens e mulheres, como uma imensa mola disparavam para o futuro, mau grado as condições de repressão arbitrária, mau grado a censura, a violência, e a miséria. É neste barco que viaja uma grande e incontida esperança que os poetas cantam, que os músicos como que a anunciam, que os escritores denunciando-a abrem ao mundo, que os pintores descobrem uma outra natureza em si próprios... que uma grande onda de solidariedade invade o mundo» - esse movimento de que ele foi personalidade destacada.

A camaradagem nascida e crescida ao longo de muitos e muitos anos de lutas, de resistências sempre que elas eram necessárias e fosse qual fosse a situação vivida, de sonhos e anseios comuns, de derrotas e de vitórias, de tristezas e de alegrias, de êxitos e de inêxitos, mas sempre, sempre de convicções inabaláveis no ideal comunista, fonte de força essencial na nossa luta de todos os dias, raiz de capacidades de resistência incomensuráveis, nascente inesgotável de confiança no futuro, na construção de uma sociedade nova, liberta de todas as formas de opressão e de exploração.
Guardaremos para sempre nas nossas memórias, e na história partidária, a militância do Rogério: o seu contributo valiosíssimo para a construção da monumental e fascinante exposição sobre o 60.º aniversário do PCP; a sua intervenção inestimável enquanto construtor dessa enorme obra colectiva que é a Festa do Avante!; a sua intervenção, enquanto militante e dirigente comunista, no debate partidário - caminho certo para a construção das orientações e linhas de acção próprias de um partido como é o nosso Partido Comunista Português.

E recordaremos como imagem impressiva e inapagável a sua presença na sessão em que, no Centro de Trabalho Vitória, ao lado do Álvaro, ofereceu ao Partido as ilustrações para o «Até Amanhã, Camaradas»: era o Rogério a contar-nos a forma como aquele romance o havia ajudado a situar-se, após o 25 de Abril, e a entender a maneira como poderia ser mais útil aos seus ideais e dar continuidade à sua participação - a emoção e as lágrimas incontidas tolhendo-lhe a voz e revelando a enorme dimensão humana e revolucionária presente em toda a sua vida e Obra, desde o seu primeiro desenho até a esse hino à mulher e à luta que é o Monumento à Mulher Alentejana.

Até amanhã, camarada Rogério Ribeiro.

Intervenção de José Casanova, da Comissão Política do PCP, no funeral de Rogério Ribeiro

Um artista plástico português

Rogério Ribeiro fez a formação académica em Pintura na ESBAL. Expôs colectivamente desde 1950 e individualmente desde 1954, tendo participado nas Exposições Gerais de Artes Plásticas e em diversas mostras colectivas nacionais e internacionais.
As suas obras fazem parte de acervos de relevantes colecções públicas e privadas, foi sócio fundador da Gravura - Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses (1958) e teve intensa actividade como gravador no início da sua carreira. Em 1961, iniciou a docência na escola António Arroio e, em 1970, na ESBAL.
Em 1983 foi co-autor do projecto da Galeria de Desenho do Museu Municipal de Estremoz e autor do projecto e montagem, em 1885, da Casa Museu Manuel Ribeiro de Pavia, em Mora, e do projecto museológico da Fortaleza de Peniche (1987).
Dirigiu, desde 1988, a Galeria Municipal de Arte de Almada e, a partir de 1993, foi director da Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea (Almada).
No domínio da azulejaria realizou inúmeras obras, onde se destacam a «estação de Metro da Avenida (Lisboa)», o «átrio Norte da estação de Metro dos Anjos (Lisboa)», o «painel “Azulejos para Santiago” para a estação de Metro de Santa Lucia (Santiago do Chile)», o «painel “Mestre Andarilho” para o Fórum Romeu Correia (Almada)», um «painel para a estação de caminhos-de-ferro de Sete Rios (Lisboa)», um «painel para o Arquivo Histórico de Usuqui (Japão)», o «painel “O Lugar da Água”, no Espaço Museológico da Rua do Sembrano (Beja)» e o «Monumento à Mulher Alentejana», inaugurado no dia 8 de Março, no Parque da Cidade de Beja.
Por outro lado, uma das suas obras mais conhecidas foi a da ilustração, em grande formato, do romance de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal «Até Amanhã Camaradas». Fez ainda ilustrações, entre muitos outros, para os livros «Casa da Malta» e «Minas de S. Francisco», de Fernando Namora, e «A vida mágica da sementinha: uma breve história do trigo», de Alves Redol.
Os trabalhos de Rogério Ribeiro estão ainda representados em diversas colecções particulares, instituições privadas e museus. Em 2006, o município de Estremoz atribuiu-lhe a Medalha de Ouro da Cidade de Estremoz.

Jornada de trabalho e fraternidade

Até ao próximo dia 5 de Setembro, já se sabe, sábado e domingo são dias para marcar na agenda como de jornada de trabalho na Quinta da Atalaia. No terreno, as várias organizações regionais e sectoriais do PCP procedem nesta fase à montagem das estruturas, erguendo os «esqueletos» dos pavilhões que daqui a cerca de um mês e meio estarão prontos para acolher milhares de visitantes, mostrando-lhes a actividade do Partido ao nível central e local, a sua luta, projecto e natureza de classe, a sua íntima ligação ao povo e aos trabalhadores.
Sábado e domingo, dias 5 e 6, muitos camaradas provenientes de vários pontos do país contribuíram para que a Festa esteja pronta a abrir portas, montando e alinhando tubo, procedendo à limpeza dos restos de entulho resultante da anterior tarefa de desmatação, distribuindo material para que o trabalho seja mais eficaz ou preparando as refeições que invariavelmente resultam em fraternos convívios recheados de camaradagem.
Nos estaleiros, a azáfama também foi grande. Revêem-se prioridades, concretizam-se projectos, e, pouco a pouco, colectivamente, forja-se à força da vontade militante a nossa Festa do Avante!.
Ao final da tarde, no bar de apoio da Festa, a hora é de recuperar o fôlego, refrescar a garganta e trocar dois dedos de conversa, preparando, desde logo, nova jornada. É que como disse um camarada na despedida: «para a semana estamos cá outra vez, certo?».