Gracias,Cuba!

Correia da Fonseca
Tudo o que sei sobre o assunto soube-o pela televisão, minha grande alimentadora espiritual, e não me lembro de alguma vez ela me ter informado de quantos foram os portugueses que a Cuba foram recuperar uma importante felicidade perdida. De qualquer modo, tenho a ideia de que foram muitos, e também de que todos ou quase todos eles eram velhos ou muito perto de o serem, o que não é sem importância. Aliás, na maior parte dos casos ter-se-á tratado de cirurgias às cataratas, mal que aflige sobretudo nas idades mais avançadas, mas não se pense não ter havido casos diferentes e mais complicados que também em Cuba encontraram solução. E não só solução, acentue-se, também uma recepção e um acompanhamento especialmente carinhosos como seria duvidoso encontrarem em Portugal, não decerto porque os cubanos, sejam ou não profissionais da Saúde, sejam melhores pessoas que os portugueses, longe disso, mas provavelmente porque cada terra tem seu uso, como ensina o rifão. Haverá também os que digam que o excelente tratamento, clínico e outro, dispensado aos portugueses que o buscaram foi o que foi porque se incluiu numa manobra de propaganda política. Em rigor, talvez não tenha sido assim: é duvidoso que Cuba tenha grandes preocupações com a opinião que os portugueses formulem a seu respeito, afinal o nosso país não é propriamente uma grande potência regional. De qualquer modo, porém, parece preferível que um país queira autopropagandear-se praticando o bem a que o faça despejando bombas sobre outro, mesmo alegando que está a defender a civilização ocidental ou os seus próprios «interesses vitais». Acresce que estas não são as primeiras boas referências que cidadãos portugueses fazem a Cuba depois de terem recorridos a eles, muitas vezes em circunstâncias inesperadas, por terem sido colhidos por uma doença quando em Cuba faziam turismo. E em muitos casos tratava-se de um turismo que arrancara apenas da apetência por um clima convidativo e uma bela paisagem, não por simpatias ideológicas e políticas. De resto, é conhecida a reputação de Cuba em matéria de serviços de Saúde e mesmo da «exportação» de apoio médico a países dele carenciados. Quem se lembre disso não ficará decerto surpreendido com o caso dos portugueses que em Cuba recuperaram a vista e a alegria.

Balanço com dois activos

Quem parece não ter apreciado muito essa felicidade, talvez porque foi alheia, foi, tanto quanto a televisão me informou, o senhor bastonário da Ordem dos Médicos, a quem pareceu «uma vergonha» que portugueses tenham ido à procura de cura num «país do Terceiro Mundo». Mesmo aceitando a geografia do senhor bastonário, que suspeito estar inquinada por factores não geográficos, não parece bonito que ele venha a público retribuir o gesto cubano, indiscutivelmente generoso, disparando contra Cuba classificações inadequadas, deselegantes, hostis. É que a feia acção não lhe fica mal apenas a ele: a fealdade transborda da sua estimável pessoa para a Ordem de que é bastonário e mesmo para o país. Noutro tom, menor e mais bem educado, outra gente e outros sectores se sentiram também desconfortados com as curas cubanas de olhos portugueses. E, como se sabe, aconteceu que o ministério da Saúde se empertigou e decretou uma espécie de mobilização geral para intensificar as cirurgias oftálmicas de modo a pelo menos tentar evitar a «vergonha» que tanto incomodara o bastonário. Registe-se que para tão empenhada providência terá contribuído também a TV mediante reportagens (de que a TVI foi pioneira, digamos assim), não só sobre as idas a Cuba de doentes oftálmicos portugueses mas também sobre as graves carências nacionais nessa área e que, essas sim, se revelaram uma vergonha que contudo não consta que o senhor bastonário tenha sentido em tempo mais útil. Apesar de ele próprio ser um sem dúvida ilustre oftalmologista. O importante, porém, é que de tudo isto resulta um balanço final muito positivo: portugueses doentes que foram a Cuba voltaram de lá sarados e bem dispostos; portugueses doentes que não foram a Cuba têm agora a perspectiva de serem operados muito mais cedo do que esperavam. Num e noutro caso, é à iniciativa cubana que devem a melhoria da sua condição. Entender-se-á que, perante este facto, seja irresistível a apetência de lançar para o lado de lá do Atlântico um sentido «- Gracias, Cuba!».


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