Médias salariais escondem salários baixos da maioria
É vulgar, na comunicação social, haver de vez em quando referências ao rendimento do trabalho, através da divulgação de médias salariais.
O INE, por exemplo, no início de Janeiro do corrente ano referiu que, em Outubro de 2006, o ganho médio mensal (remuneração base acrescida de subsídios e trabalho extraordinário) era de 997 euros, enquanto, no ano anterior, a referida média correspondia a 959,60 euros.
Estamos perante valores globais (sectores: público e privado) que escondem as remunerações superiores e as remunerações inferiores.
É preciso, em nome do conhecimento, desagregar as médias no sector público e no sector privado da economia a nível concelhio, sectorial, profissional, dimensão da empresa, separar os rendimentos dos homens e das mulheres e, quanto a estes últimos, ter em atenção a estrutura etária, a antiguidade na empresa e os respectivos graus académicos.
Foi isso que fizemos, em parte, relativamente aos últimos dados desagregados do sector privado da economia e aos respectivos trabalhadores por conta de outrem que, em Outubro de 2005, (1) tinham, de acordo com os Quadros de Pessoal, a fama de usufruir de um ganho médio mensal de 907,24 euros.
Mas quem é que, no continente (não há dados disponíveis sobre as regiões autónomas relativamente a 2005), ganhava aquela média?
Vejamos as respostas:
- em termos globais, incluindo homens e mulheres e os sectores primário, secundário e terciário, os únicos concelhos que mais se aproximavam daquela média eram, respectivamente, Alenquer, com 910,86 euros, e Figueira da Foz, com 904,27 euros. Estamos a falar de dois concelhos que representam apenas 1% (um por cento) da população do continente. (Abrimos aqui um parêntesis para dizer que utilizamos o critério da população, para efeito de correlação, porque os dados do INE não referem a totalidade dos trabalhadores por conta de outrem, mas apenas os trabalhadores dos estabelecimentos sediados no próprio concelho, valor reconhecidamente inferior aos dados constantes nos Quadros de Pessoal).
Se desagregarmos os salários que mais se aproximem da média nacional por homens, mulheres e pelos grandes sectores de actividade económica, os resultados são os constantes do Quadro I.
Como se vê, os 907,24 euros abrangem situações meramente pontuais. Com efeito, dos 278 concelhos do continente apenas 23, com uma população de 2 815 234 habitantes, estavam acima da média, pelo que, no continente, 255 concelhos, com 7 295 017 habitantes, estavam abaixo da média, embora gozassem da fama de usufruírem de um salário que não tinham.
É caso para parafrasear a jornalista Graça Franco que, em 1 de Fevereiro, no jornal Público, escrevia o seguinte:
«As médias são assim. Matreiras. Misturam a fome de uns com a gula dos outros e garantem-nos que não vale a pena preocupar-nos porque andamos todos bem alimentados».
De facto, as médias são matreiras porque escondem a minoria que está acima da média e ignoram a maioria que está abaixo da média.
Aplicado este princípio à parte continental do país, tendo como parâmetros de aferição a sua população e a média salarial concelhia, podemos concluir que, relativamente ao ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem do sector privado da economia, cerca de 28% estão acima da média e 72% estão abaixo da média. Se a análise for feita no interior de cada sector de actividade, as assimetrias, nalguns casos, ainda serão maiores. Por exemplo, na construção civil e obras públicas, em termos oficiais (desconhecemos os pagamentos salariais por fora) no conjunto de 16 profissões, apenas três (engenheiros, encarregados e electricistas) estão acima da média, enquanto 13 estão abaixo da média. Mas voltemos aos dados globais.
Os ganhos médios mais elevados referem-se aos homens dos sectores secundário e terciário.
Os ganhos médios mais baixos referem-se às mulheres dos sectores primário e secundário.
Nos sectores da agricultura, produção animal, silvicultura, exploração florestal, pesca, aquacultura e serviços relacionados, devido à sua pequena dimensão em termos de trabalho assalariado, as médias são, por vezes, muito influenciadas por meia dúzia de salários elevados de outros tantos técnicos, razão pela qual não os inserimos no Quadro II, com o qual se pretende evidenciar as assimetrias salariais entre os máximos e os mínimos dos sectores secundário e terciário da economia.
O mapa acima referido merece uma cuidada reflexão porque, a par dos generalizados baixos salários, extensíveis a todos os sectores e a todos os concelhos, há uma importante questão que tem a ver com o modelo de desenvolvimento imposto ao País e que potencia as assimetrias que, a seguir, se evidenciam.
Médias salariais concelhias mais elevadas
No conjunto dos 20 concelhos com ganhos médios mensais superiores a 1200 euros verifica-se que a maior parte diz respeito ao sector secundário e aos homens. É de salientar que, nas 20 situações referidas, aparecem concelhos como: Sines, Vila Velha de Rodão, Castro Verde, Azambuja (antes do encerramento da Opel), Campo Maior, Setúbal, Palmela, Amadora e Vila Franca de Xira.
O que é que caracteriza a actividade económica destes concelhos? É o turismo? O têxtil? O calçado? O vestuário? A cortiça? O mobiliário? O que caracteriza aqueles 20 concelhos não é, infelizmente, a existência de indústrias de muita alta tecnologia, mas indústrias inseridas nas gamas média-alta e média-baixa, em termos de grau tecnológico, bem acima, contudo, dos sectores com reduzida incorporação de tecnologia e que vive à custa dos baixos salários, como as situações – repetimos – verificadas no turismo, no têxtil, no vestuário, no calçado, na cortiça, no mobiliário, entre outros.
A expressão numérica da actividade económica destes últimos sectores e os problemas sociais a eles ligados são uma consequência das erradas políticas do bloco central que, ao mesmo tempo que potenciaram a instalação de actividades com reduzida incorporação de valor acrescentado, desbarataram milhões e milhões de euros provenientes do Fundo Social Europeu em pretensos cursos de formação (muitos deles perfeitamente simulados que contribuíram para o enriquecimento de alguns e para o desafogo financeiro de muitas empresas), quando a referida formação devia ter sido levada a cabo por credenciadas escolas públicas de cariz profissional. Daqui decorre que, se há uma luta a desenvolver no plano unitário pela melhoria das condições de trabalho, há também uma luta política a desenvolver, quer quanto à valorização do ensino público profissional quer quanto à implementação de sectores produtivos, cujos produtos, a serem exportados, sejam devidamente remunerados, o que não acontece quando exportamos, às carradas, a preços unitários baixos, camisas, rolhas, cadeiras e materiais similares. A exportação de 90% daquilo que produzimos na área do calçado é a antítese daquilo que devia ter sido uma industrialização planificada e racional ao serviço do País e do nosso povo. É evidente que nós precisamos de produzir calçado, mas não deixa de ser evidente que não precisamos de um excesso de produção de sapatos quando temos um déficit na área da produção de máquinas, veículos motorizados, produtos químicos e farmacêuticos, aparelhos de precisão, equipamento de computação, rádio, TV, comunicação e instrumentos médicos, entre muitos outros.
Médias salariais concelhias mais baixas
No conjunto dos 20 concelhos com os mais baixos salários os dados são arrasadores. Salvo uma excepção, o ganho médio mensal das mulheres no sector secundário – já com trabalho extraordinário e subsídios incluídos – é inferior a 469 euros, isto num ano em que a estatística oficial dizia que cada trabalhador recebia, em média, 907,24 euros, o que significa, entre um e outro valor, uma diferença superior a 48%!
Se esta diferença é já de si gravosa, ela ainda se torna mais gravosa quando comparamos, a título de exemplo, no sector secundário, as médias salariais das mulheres em Sines (1354,99 euros) e as médias salariais das mulheres de Vimioso (422,49 euros). Esta diferença não se resume apenas a problemas de discriminação, nem muito menos se explica pelos salários praticados em Sines, que obviamente são baixos face à distribuição da riqueza criada pelo factor trabalho e pelo factor capital.
Esta diferença, transversal a todo o território, tem a ver, tornamos a insistir, com o modelo de desenvolvimento económico imposto, pelo que se há, nesta área, como já atrás dissemos, uma luta quotidiana a travar, há também uma luta reivindicativa a desenvolver pela dignificação dos salários e pela exigência de uma política que racionalize os investimentos, a sua natureza e localização, tudo isso subordinado à existência de um Estado unitário (que é o nosso), que não devia alienar socialmente qualquer parte do território e cuja população, sem excepção, tem o direito, nos termos do Artigo 9.º da Constituição, de exigir que tal Estado unitário promova «o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real (o sublinhado é nosso) entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais».
(1) Os últimos dados desagregados a nível concelhio reportam-se a Outubro de 2005
Foi isso que fizemos, em parte, relativamente aos últimos dados desagregados do sector privado da economia e aos respectivos trabalhadores por conta de outrem que, em Outubro de 2005, (1) tinham, de acordo com os Quadros de Pessoal, a fama de usufruir de um ganho médio mensal de 907,24 euros.
Mas quem é que, no continente (não há dados disponíveis sobre as regiões autónomas relativamente a 2005), ganhava aquela média?
Vejamos as respostas:
- em termos globais, incluindo homens e mulheres e os sectores primário, secundário e terciário, os únicos concelhos que mais se aproximavam daquela média eram, respectivamente, Alenquer, com 910,86 euros, e Figueira da Foz, com 904,27 euros. Estamos a falar de dois concelhos que representam apenas 1% (um por cento) da população do continente. (Abrimos aqui um parêntesis para dizer que utilizamos o critério da população, para efeito de correlação, porque os dados do INE não referem a totalidade dos trabalhadores por conta de outrem, mas apenas os trabalhadores dos estabelecimentos sediados no próprio concelho, valor reconhecidamente inferior aos dados constantes nos Quadros de Pessoal).
Se desagregarmos os salários que mais se aproximem da média nacional por homens, mulheres e pelos grandes sectores de actividade económica, os resultados são os constantes do Quadro I.
Como se vê, os 907,24 euros abrangem situações meramente pontuais. Com efeito, dos 278 concelhos do continente apenas 23, com uma população de 2 815 234 habitantes, estavam acima da média, pelo que, no continente, 255 concelhos, com 7 295 017 habitantes, estavam abaixo da média, embora gozassem da fama de usufruírem de um salário que não tinham.
É caso para parafrasear a jornalista Graça Franco que, em 1 de Fevereiro, no jornal Público, escrevia o seguinte:
«As médias são assim. Matreiras. Misturam a fome de uns com a gula dos outros e garantem-nos que não vale a pena preocupar-nos porque andamos todos bem alimentados».
De facto, as médias são matreiras porque escondem a minoria que está acima da média e ignoram a maioria que está abaixo da média.
Aplicado este princípio à parte continental do país, tendo como parâmetros de aferição a sua população e a média salarial concelhia, podemos concluir que, relativamente ao ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem do sector privado da economia, cerca de 28% estão acima da média e 72% estão abaixo da média. Se a análise for feita no interior de cada sector de actividade, as assimetrias, nalguns casos, ainda serão maiores. Por exemplo, na construção civil e obras públicas, em termos oficiais (desconhecemos os pagamentos salariais por fora) no conjunto de 16 profissões, apenas três (engenheiros, encarregados e electricistas) estão acima da média, enquanto 13 estão abaixo da média. Mas voltemos aos dados globais.
Os ganhos médios mais elevados referem-se aos homens dos sectores secundário e terciário.
Os ganhos médios mais baixos referem-se às mulheres dos sectores primário e secundário.
Nos sectores da agricultura, produção animal, silvicultura, exploração florestal, pesca, aquacultura e serviços relacionados, devido à sua pequena dimensão em termos de trabalho assalariado, as médias são, por vezes, muito influenciadas por meia dúzia de salários elevados de outros tantos técnicos, razão pela qual não os inserimos no Quadro II, com o qual se pretende evidenciar as assimetrias salariais entre os máximos e os mínimos dos sectores secundário e terciário da economia.
O mapa acima referido merece uma cuidada reflexão porque, a par dos generalizados baixos salários, extensíveis a todos os sectores e a todos os concelhos, há uma importante questão que tem a ver com o modelo de desenvolvimento imposto ao País e que potencia as assimetrias que, a seguir, se evidenciam.
Médias salariais concelhias mais elevadas
No conjunto dos 20 concelhos com ganhos médios mensais superiores a 1200 euros verifica-se que a maior parte diz respeito ao sector secundário e aos homens. É de salientar que, nas 20 situações referidas, aparecem concelhos como: Sines, Vila Velha de Rodão, Castro Verde, Azambuja (antes do encerramento da Opel), Campo Maior, Setúbal, Palmela, Amadora e Vila Franca de Xira.
O que é que caracteriza a actividade económica destes concelhos? É o turismo? O têxtil? O calçado? O vestuário? A cortiça? O mobiliário? O que caracteriza aqueles 20 concelhos não é, infelizmente, a existência de indústrias de muita alta tecnologia, mas indústrias inseridas nas gamas média-alta e média-baixa, em termos de grau tecnológico, bem acima, contudo, dos sectores com reduzida incorporação de tecnologia e que vive à custa dos baixos salários, como as situações – repetimos – verificadas no turismo, no têxtil, no vestuário, no calçado, na cortiça, no mobiliário, entre outros.
A expressão numérica da actividade económica destes últimos sectores e os problemas sociais a eles ligados são uma consequência das erradas políticas do bloco central que, ao mesmo tempo que potenciaram a instalação de actividades com reduzida incorporação de valor acrescentado, desbarataram milhões e milhões de euros provenientes do Fundo Social Europeu em pretensos cursos de formação (muitos deles perfeitamente simulados que contribuíram para o enriquecimento de alguns e para o desafogo financeiro de muitas empresas), quando a referida formação devia ter sido levada a cabo por credenciadas escolas públicas de cariz profissional. Daqui decorre que, se há uma luta a desenvolver no plano unitário pela melhoria das condições de trabalho, há também uma luta política a desenvolver, quer quanto à valorização do ensino público profissional quer quanto à implementação de sectores produtivos, cujos produtos, a serem exportados, sejam devidamente remunerados, o que não acontece quando exportamos, às carradas, a preços unitários baixos, camisas, rolhas, cadeiras e materiais similares. A exportação de 90% daquilo que produzimos na área do calçado é a antítese daquilo que devia ter sido uma industrialização planificada e racional ao serviço do País e do nosso povo. É evidente que nós precisamos de produzir calçado, mas não deixa de ser evidente que não precisamos de um excesso de produção de sapatos quando temos um déficit na área da produção de máquinas, veículos motorizados, produtos químicos e farmacêuticos, aparelhos de precisão, equipamento de computação, rádio, TV, comunicação e instrumentos médicos, entre muitos outros.
Médias salariais concelhias mais baixas
No conjunto dos 20 concelhos com os mais baixos salários os dados são arrasadores. Salvo uma excepção, o ganho médio mensal das mulheres no sector secundário – já com trabalho extraordinário e subsídios incluídos – é inferior a 469 euros, isto num ano em que a estatística oficial dizia que cada trabalhador recebia, em média, 907,24 euros, o que significa, entre um e outro valor, uma diferença superior a 48%!
Se esta diferença é já de si gravosa, ela ainda se torna mais gravosa quando comparamos, a título de exemplo, no sector secundário, as médias salariais das mulheres em Sines (1354,99 euros) e as médias salariais das mulheres de Vimioso (422,49 euros). Esta diferença não se resume apenas a problemas de discriminação, nem muito menos se explica pelos salários praticados em Sines, que obviamente são baixos face à distribuição da riqueza criada pelo factor trabalho e pelo factor capital.
Esta diferença, transversal a todo o território, tem a ver, tornamos a insistir, com o modelo de desenvolvimento económico imposto, pelo que se há, nesta área, como já atrás dissemos, uma luta quotidiana a travar, há também uma luta reivindicativa a desenvolver pela dignificação dos salários e pela exigência de uma política que racionalize os investimentos, a sua natureza e localização, tudo isso subordinado à existência de um Estado unitário (que é o nosso), que não devia alienar socialmente qualquer parte do território e cuja população, sem excepção, tem o direito, nos termos do Artigo 9.º da Constituição, de exigir que tal Estado unitário promova «o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real (o sublinhado é nosso) entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais».
(1) Os últimos dados desagregados a nível concelhio reportam-se a Outubro de 2005