«Os Tudors» e o resto

Correia da Fonseca
Há cerca de um mês, a RTP 1 estreou uma série aparentemente de carácter histórico que haveria de ser transmitida em dias consecutivos e em dose dupla. Tinha o título de «Os Tudors» e um ar de produção britânica que lhe era dado não só pelo tempo e local da acção narrada, a Inglaterra do século XVI, mas também por uma convincente reconstituição de ambientes a sugerir os melhores tempos da BBC/TV nessa matéria. Infelizmente, porém, nem tudo o que luz é BBC (nem, de resto, tudo o que é BBC é ouro de lei, mas essa é uma outra questão) e, de resto «Os Tudors» eram, isso sim, o resultado de uma «entente» produtora com participações irlandeza, canadiana e norte-americana. Porém o que mais viria a interessar aos telespectadores portugueses que se dispuseram a seguir a série apesar do horário pouco convidativo seria modo insuportavelmente desdenhoso como um suposto rei português e a correspondente corte de Portugal eram ali tratados. É que a série, revelando-se afinal pouco «histórica» e muito «estórica», inventara o casamento de uma princesa britânica, alegada irmã de Henrique VIII, com um rei de Portugal velhíssimo, porco e lúbrico. Esse rei viveria numa corte que com ele condizia lindamente, como a série suficientemente mostrou. Tudo repugnante e historicamente falsíssimo: em toda a História, a única princesa inglesa que casou com um rei português foi Filipa de Lencastre, nascida cerca de século e meio antes de Henrique VIII e das suas reais manas, casada com D. João I, o que havia sido Mestre da Ordem de Aviz. Se D. João I tinha os pés sujos e o hábito insalubre de andar descalço, como a série «Os Tudors» denunciou em cuidadoso grande plano das solas do pés do «rei português», não o registam as crónicas do tempo. O que se sabe de ciência certa é que João e Filipa eram praticamente da mesma idade (a princesa era até ligeiramente mais velha) e não foram, nem de longe, contemporâneos de Henrique VIII. De toda a infeliz impostura veiculada por «Os Tudors» resultava, sem a menor dúvida, um olhar desdenhoso e repugnado sobre o Portugal daquele tempo, porventura extensível aos tempos actuais. Daí que tenha havido indignações e protestos, obviamente portugueses, junto do dr. Paquete de Oliveira, provedor dos telespectadores da RTP, que terá decidido interpelar níveis directivos da empresa. Em nome destes, surgiu a responder a funcionária responsável pela ficção estrangeira na RTP, Helena Torres. E o que ela disse não pareceu muito bem.

Ficção como excipiente

Disse ela, em tom algo displicente, que tudo aquilo que indignara os telespectadores não tinha a menor importância porque «Os Tudors» eram uma obra de ficção e não um trabalho de documentação histórica, depreendendo-se que a ficção está por natureza desobrigada de responsabilidades na área da verdade, mesmo mínima, ainda que retrate personagens da vida real passada ou presente. Afigura-se-me que esta desenvoltura é excessiva mas, ainda que não o seja, é claro que se teria justificado que Helena Torres ou alguém por ela tivesse vindo alertar o público, no momento útil, para o carácter ficcional (mas ainda assim portador de uma imagem pejorativa de Portugal no século XVI) de «Os Tudors». Sempre restaria o público de outros países onde a série seja ou tenha sido exibida, mas quanto a isso nada decerto Helena poderia fazer, cabendo eventuais protestos a outras áreas e instâncias. Porém, o argumento de que está a ficção eticamente autorizada a veicular versões falsas e injectoras de visões caluniosas de realidades pretéritas ou actuais é muito curiosa e merece um tempinho de reflexão. Lembremo-nos de como a ficção made in USA tem vindo a «mostrar» como era realidade no extinto bloco socialista do Leste Europeu, como heróicos agentes norte-americanos se batem para salvar gente excelente das garras de regimes facilmente conotáveis com a Cuba de Fidel, como os comunistas chineses são pérfidos e cruéis. Tudo sem sombra de pecado porque afinal é ficção. Aparentemente, não ocorre a Helena Torres, ou a quem como ela argumente, que a ficção funciona como informação na cabeça das gentes, e porventura com maior poder de sedução que o rigor factual, histórico ou não. E este é um dado importante. bem mais importante que os pés nojentos do falso D. João de Portugal.


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