Óscar Lopes

Comunista e «homem culto»

Manuel Gusmão
Óscar Lopes é uma das grandes figuras da cultura portuguesa contemporânea. Sem arrogância podemos confessar que isso nos enche de orgulho, a nós comunistas portugueses. Porque ele é um de nós e, para o nosso Partido, o partido da classe operária e de todos os trabalhadores, a democratização da cultura é não apenas uma bandeira de luta, mas uma tarefa constante. Óscar Lopes é simultaneamente uma figura marcante dos estudos linguísticos e literários em Portugal, um estudioso da cultura portuguesa, um generoso militante cultural, preocupado com a pedagogia daquilo que investiga e com a apropriação social alargada do conhecimento e dos saberes que ele próprio produz, e um intelectual comunista de uma intensa constância na sua vida e na sua obra.
Resistente antifascista, preso pela PIDE, expulso e proibido de ensinar na Escola pública e depois no ensino particular, impedido miseravelmente de ensinar na Universidade, Óscar Lopes foi, mesmo durante a ditadura fascista, tenazmente construindo uma obra sem a qual a cultura portuguesa e a sua história não seriam nem aquilo que hoje são e, especificamente, não seriam compreensíveis.
Para muitos ele é conhecido como co-autor (com António José Saraiva) da História da Literatura Portuguesa, obra que desde a sua 1.ª edição em 1945 não viu gerar-se nenhuma outra rigorosamente equivalente nem verdadeiramente alternativa. Pode pensar-se que tal singularidade se deve em parte à demorada debilidade das estruturas de produção cultural do nosso país, mas deve também compreender-se que hoje dificilmente imaginaríamos um tal projecto como realizável, fundamentalmente, por duas pessoas. Pode acrescentar-se que as principais alterações desta obra nomeadamente, o aparecimento de um nova época (7.ª Época – Época contemporânea), se devem a Óscar Lopes. Este impressionante empreendimento intelectual, que hoje é não apenas um instrumento de estudo, mas um objecto de estudo, está entretanto muito longe de esgotar a obra de Óscar Lopes, mesmo se o tomássemos apenas como historiador da literatura.
O historiador da literatura encontra-se com o crítico literário numa outra obra importantíssima, Entre Fialho e Nemésio (Estudos de literatura Contemporânea). Aliás, enquanto pensador marxista, Óscar Lopes compreende a importância fundamental da historicidade da literatura e do seu estudo, historicidade essa que ele procura investigar e determinar de forma materialista e dialéctica.
Mas, para além de historiador, ensaísta e crítico da literatura, Óscar Lopes é um linguista reconhecido nacional e internacionalmente. Os seus estudos para uma Gramática Simbólica do Português e outros sobre particularidades semânticas do português, para além de cientificamente inovadores revelam poderosas intuições de uma concepção materialista e dialéctica da linguagem e permitem análises muito finas e rigorosas dos textos literários enquanto tessituras de linguagem e condensados de experiência social (a expressão é sua).
A singularidade do seu trabalho pode ser aproximada através de 3 características da sua obra:
A 1ª - Nas suas leituras dos textos, Óscar Lopes convoca rigorosa e produtivamente vários saberes, meios e instrumentos teórico-metodológicos provenientes de várias disciplinas. Não apenas da poética e da retórica, da história e da hermenêutica literárias, mas também da semântica formal e da pragmática linguística, da lógica e da filosofia, da psicanálise e da antropologia, e ainda da teoria e da história das ciências. Para além disso, pode ainda recorrer à sua experiência de outras artes, designadamente a da música. E, entretanto, um tão largo e enciclopédico saber não esmaga a singularidade e a contingência de um texto, antes lhe serve para alargar o espaço de respiração desse texto e a sua rede de implicações gnosiológicas e estéticas, culturais e sociais.
A 2.ª característica tem a ver com o modo como ele se joga, se implica e se vai procurando e construindo a si mesmo, no trabalho de leitura de um texto. Óscar Lopes não se esconde atrás de uma impessoalidade majestática, antes expõe (de forma não exibicionista e para nos ajudar a segui-lo) os seus pressupostos e as suas operações e, entretanto, é um leitor que assume a contingência da sua leitura e evita iludir-se sobre o seu poder. Talvez eu possa dizer que a dificuldade que ele próprio afirma em se ver como crítico ou ensaísta, professor, linguista ou político, e que reenvia a uma básica dificuldade em se ver e à sua desconfiança «em qualquer título de auto-reconhecimento», são justamente o que o leva a esperar, da sua relação com a alteridade de um texto ou de um autor, a diferença da sua identidade individual e social.
A 3ª - A maneira como a sua obra se apresenta como uma «busca de sentido». Uma busca que é um fazer. Um fazer de algo que não é evidente, nem é apresentado como já acabado, porque na busca se demanda um acréscimo de sentido a apurar pelo leitor, que leu a obra sobre a qual Óscar Lopes escreve e o texto que ele escreve. Repare-se por exemplo nestas frases suas:
– «Creio que o facto de o autor ter mantido sempre, não direi uma perfeita coerência abstracta mas uma evidente linha de consequência e de responsabilidade, contribuirá para que a colectânea presente se revista de um certo interesse de experiência efectiva, em que o antes e o depois se entre-esclarecem, apontando para um acréscimo de sentido a apurar pelo leitor. Confesso que, ao certo, ao certo, não sei o que o(s) sentido(s) seja(m). Mas procuro fazer sentido, com as minhas circunstâncias e os meus interlocutores, cooperantes ou não. Aqui estão, suponho, alguns sinais, pelo menos, desse querer fazer sentido com» (in Os sinais e os sentidos, 1986, p.10).
– «Não se sabe ao certo ao que se vai (pode ser sempre mais, ou menos, imprevisto) e parte-se de algo de impreciso, com um pseudópode que se estende para fora a partir da célula total» (in A Busca de sentido, 1995; p.11).
– «É evidente que algo se procura quando voluntariamente (e não só) se estende um membro; algo se procura que não é nunca absolutamente certo; mas o intento fixa-se pelo grau de pertinência, e apura-se para o acerto» (idem. ibidem).
Como se depreende destas citações, para o seu autor, o sentido é algo que não é evidente, algo que não está já todo feito num texto, algo que pode ser imprevisto, em suma, algo que depende da busca que vai à sua procura e também daqueles que lêem os resultados ou o relatório dessa busca.
Para Óscar Lopes, por outro lado, a busca de sentido é uma tarefa histórica (mesmo do ponto de vista do indivíduo que busca, - trata-se de fazer sentido com as suas circunstâncias) e social (trata-se de fazer sentido com os seus interlocutores, em cooperação ou conflito); joga-se entre o provisório e o revogável, entre a intenção pertinente, a competência aplicada por quem busca e o acerto a apurar pelo leitor.
Repare-se ainda que quando Óscar Lopes fala da sua incerteza quanto ao que seja(m) o(s) sentido(s) ele está a jogar não apenas com o singular da palavra (o sentido = o sentido verbal ou discursivo, retórico ou literário de um texto) - , mas com o seu plural que ocorre quando nos referimos aos sentidos do trânsito numa via; aos 5 sentidos e aos sentidos prático-espirituais a que Marx se refere nos Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844 (por exemplo, o sentido da música, o sentido da beleza das formas, o amor, a vontade, etc.). Neste caso o que fica sugerido é que a busca do sentido não é apenas a tarefa da compreensão de um texto, mas um fenómeno mais largamente antropológico, ou seja, característico do humano, e mesmo um fenómeno biológico, característico daquilo que é vivo, mesmo nas suas formas mais elementares («Como um pseudópode que se estende para fora da célula total»).
Finalmente anote-se que a busca de sentido é uma questão não apenas de conhecimento, mas uma questão ética, de «consequência» e de «responsabilidade».
O compromisso constante com o sentido, enquanto aquilo que não se pode deixar de buscar, dá-se a ler admiravelmente, na alocução que Óscar Lopes proferiu em agradecimento do Prémio Jacinto Prado Coelho que lhe foi atribuído (em 1985), pelo Centro Português da Associação Internacional dos Críticos Literários:
«Quando se verifica a extraordinária quantidade de ambiguidades ou contradições que nós resolvemos no mais simples acto de comunicação razoavelmente logrado, é difícil conceber que a poesia se caracterize pela simples abertura de um texto à ambiguidade e à contradição sem que isso contenha, ao mesmo tempo, um desafio à síntese possível e competentemente unívoca de cada aqui e agora. De qualquer modo, aproveito para declarar mais uma vez que não perfilho nem a estética, nem a filosofia da ambiguidade. Por muito confusa e indecisa que seja a nossa experiência humana, palavras como eu e nós carregam toda a evidência de uma complexa história de assimilação ou acomodação, e palavras como aqui e agora ligam-se à evidência de enquadramentos, dentro dos quais se nos impõe fazer qualquer coisa, entre um passado que está ainda presente sob a forma de resultados e representações, e um futuro evidenciado por um conjunto presente de expectativas a ponderar, e de alternativas a escolher. Um texto é, assim, um condensado de experiência social activa e intertextualmente definida» (in Cifras do tempo, 1990: 14-15).
Aqui chegados, talvez seja possível afirmar-se que Óscar Lopes não é apenas um «homem sábio», mas também um «homem culto», segundo a concepção elaborada por Bento de Jesus Caraça, no seu texto «A cultura integral do indivíduo» (conferência proferida na União Cultural « Mocidade Livre», em 25 de Maio de 1933):

«O que é o homem culto? É aquele que:
1.º Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
2.º Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3.º Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.
Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica , é um certo grau de saber, aquele que precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.


Permitam-me, camaradas, dois pequenos comentários: O primeiro para dar conta de uma suposição – é que sendo Óscar Lopes manifestamente um homem sábio o que lhe faltaria para ser um homem culto é o que lhe é fornecido pela suas convicções comunistas e o modo como as transformou numa «linha de consequência e de responsabilidade”. O segundo, para imaginar que Óscar Lopes deu suficientes indícios de considerar «o aperfeiçoamento do seu ser interior», indissociável da relação entre «a necessidade de solidão e a de encontro com os outros», indissociável da concreta assunção do princípio do humanismo comunista - «o desenvolvimento livre de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos».


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