«Medalha de bronze» europeia

Francisco Silva
Noutro dia assisti a parte de uma edição do «Prós e Contras». Assisti só a parte – poderão, é certo, espantar-se: «mas só a parte?» –, pela simples razão de que começando tal evento tão tarde, sendo tão longo o respectivo espectáculo, ao ser constituído como que de bocados seus entremeados em longas séries publicitárias – que é verdadeiro programa –, portanto, acabando tão tarde o dito espectáculo, parece-me que só conseguirei vir a ter ocasião – e as forças anímicas correspondentes – de assistir por completo a estes espectáculos quando me reformar e puder dormir toda a manhã, caso eles ainda por aí andem, portanto, dizia, assisti só a parte do espectáculo – aliás, quando o olho, é este o meu habitual procedimento – realizado na Figueira da Foz, acho que no casino, dedicado à Inovação, à C&T, mas sobretudo à propaganda do que o Plano Tecnológico do Governo estará a fazer de bem a este País.
Portanto, «mordido aquele ambiente» da forma que me pareceu suficiente, estava tudo visto: até pela experiência já ganha, o «novo» das partes seguintes do espectáculo, se seguido até ao fim, já de madrugada, não passaria de quase-repetições – aliás, como acontece com programas congéneres de outros países, onde, quando acordo mais uma vez no quarto de hotel, aquilo no ecrã do televisor faz lembrar um cavalo que continua a galopar durante horas no mesmo sítio, e aos gritos nos ouvidos do estremunhado.
No caso desta concreta edição do «Prós e Contras» o que saltou aos olhos e aos ouvidos estar em jogo foi a questão de Portugal ter trepado tantos lugares na classificação da União Europeia em termos de e-government ou «i-governo» – não me recordo bem como Ela dizia e eles diziam –, a maneira «profissional» de dizer «governo electrónico», subiu portanto tantos lugares que já estava em 3.º lugar, só ultrapassado pela Áustria e por Malta, os outros 24 estados-membros todos a ficarem para trás, derrotados. E isto verificado em 31 de Dezembro de 2006, após, imagino, uma gloriosa aceleração na recta de chegada.
Assim o entendi, naquele semi-entendimento aturdido de quem já se preparava para ir dormir, para renovar a sua força de trabalho para a manhã da terça-feira que se seguia.

Inexplicável

Um semi-entendimento que eu sabia que não era só meu, calhando era o da grande maioria dos telespectadores que iam seguindo o programa. Pois não era verdade que não nos diziam o que significava tão honrosa classificação? Nem a Zorrinho, na sua linguagem de plástico pensada como primeiro-ministeriável, nem à Dra que «manda» no programa lhes passou pela cabeça explicar-nos tal questão? Seria devido – o 3.º lugar, a medalha de bronze – a sermos o país onde é mais rápido, mais barato, mais simples constituir uma empresa? Seria por podermos pagar o IRS pela Internet? Ou seria por podermos, ali na loja do Cidadão, onde gosto de ir passear e visitar a livraria da Imprensa Nacional/Casa da Moeda – é que sou maníaco de livros e, fora de ironias, ali se apresentam mesmo grandes tentações editoriais… e também gosto de tirar partido das coisas boas –, por podermos, dizia, estar à espera numa das grandes filas de atendimento, aos sábados de manhã, sem ter que estar – parece contradição, mas não é –, porque, enquanto esperamos a chamada do nosso número, podemos ir beber uma bica e fazer compras no centro comercial do lado?
Fora de brincadeiras, pus-me a matutar por que estaremos, por exemplo, à frente dos países nórdicos ou da Irlanda ou mesmo do Reino Unido, estados-membros tão incensados nestas coisas cá no burgo pelos líderes de opinião sempre tão no afã de nos darem exemplos edificantes. Seria porque a questão não é considerada assim tão importante pelos estados desses países? Será porque estão muitos países quase iguais nisto, e subir vários postos pouco diferente será de descer outros tantos? Sinceramente, ainda não tive tempo de o averiguar.
Ora, talvez para dar mais relevo a tal feito, com toda a lata foram convidados para enquadrarem suponho que sem o saberem, para servir de moldura à comemoração do triunfo do governo no e-government, uma série de protagonistas da C&T, ligados a feitos de nomeada indiscutível – destaco, por exemplo, os que melhor que conhecia, e por isso mais fáceis para eu os rememorar: José Salcedo e os seus lasers, bem encaixado num nicho de excelência e que teve, quando foi caso, a coragem de se insurgir contra o emprego do urânio empobrecido; Paulo Nordeste, presidente da PT Inovação, a herdeira do exemplo único, mais que cinquentenário, de I&D empresarial de cá. Disse.


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