Imperial duplicidade
A montanha nem um rato iria poder parir. Porque, se nem montanha existia, como poderia ser parido e, para mais, um rato? Pois é, diz o articulista do DN de domingo dia 8 de Setembro, pouco mais ou menos, num texto que - desculpe-me o autor que nem cito - seria completamente imbecil se ele - por razões de eficácia comunicacional, suponho - não o estivesse a escrever contando, acima de tudo, com a imbecilidade de grande parte dos seus leitores: «Referências às FARC retiradas do recinto!» Mas elas chegaram a estar lá? Quem viu? E depois foram supostamente retiradas devido á luta do jornalista e de mais alguns colegas do seu cantinho da blogosfera? Depois, todo o artigo gira em torno de uma conversinha que ele teria entabulado junto ao stand do Partido Comunista da Colômbia. E a forma como referia o «recinto», esse «jornalista», a criar a percepção de que a Festa que se reduziria quase só àquele stand - que todos e cada um são o mais importante, mas são um apenas no seio de uma miríade! Ao menos podia ter referido o debate sobre a situação na Colômbia a decorrer num espaço contíguo sem aparência de recinto mas de grande praça pública, o Fórum da Cidade Internacional. Mas seria esquecimento do «júnior» enviado, esta, que não daria para morder o ambiente onde se encontrava? E eu a ler tudo isto no avião que já me transportava a meio da manhã de domingo para milhares de quilómetros de distância, não podendo, por isso, ir à Festa nesse dia!
E nem era disto que eu estava para escrever. Mais uma vez me estou a escapar, a derivar do tema que é ou pelo menos era o que tinha imaginado - acerca do primeiro cabo submarino para o serviço telefónico em que o nosso País participou, datado de 1969.
É certo que os cabos submarinos têm toda uma história cheia de peripécias técnicas, uma epopeia, diria, deste o século XIX, quando os primeiros foram lançados. Um pouco por toda a parte. E geralmente, durante uma fase inicial, a falharem, ou porque a sua instalação não pôde ser concluída, ou porque, tendo sido concluída, o cabo avariou-se ou foi cortado por um barco que passava perto, etc. Foi preciso persistência e a assunção de riscos por um capitalismo ainda jovem para que os cabos submarinos fossem por diante. Hoje, nesta fase serôdia, talvez já não fosse possível.
Eram cabos submarinos dedicados apenas à telegrafia. O telefone requeria outras tecnologias - electrónica, cabos coaxiais. O primeiro cabo telefónico transatlântico entrou ao serviço em 1956, equipado com 36 canais telefónicos e terminou a sua vida útil com 48 canais telefónicos em 1978. Neste mesmo ano foi instalado o último, ainda coaxial, equipado inicialmente com 4000 canais telefónicos; terminou o seu serviço em 1994 a dar serventia a 10 500 canais telefónicos!
Em Portugal, o primeiro cabo submarino - para a África do Sul, com capacidade para 360 circuitos telefónicos - foi inaugurado em 1969, amarrando em Sesimbra, no Sal, em Ascensão e nas Canárias, e terminando na Cidade do Cabo. Em 11 de Agosto seguinte foi aberto à exploração para Inglaterra. «Ficava, assim, completa a ligação do Reino Unido com a África do Sul, objectivo principal do empreendimento que passava por Portugal, principalmente, por razões políticas» (1).
Tal como acontecera na fase inicial dos cabos submarinos telegráficos, a posição geoestratégica de Portugal e dos territórios sob sua administração foi essencial para a forma como o nosso País participou da nova fase. Uma posição reforçada pelo facto de vigorar o Apartheid na África do Sul e um regime fascista em Portugal (e em Espanha também). Assim, funcionou uma vez mais a mais antiga aliança mundial!
Diga-se que terá também ajudado o facto de a concessão estatal portuguesa dos cabos submarinos ter sido entregue pouco antes a uma operadora privada, entidade que viu assim renovada uma anterior concessão radiotelegráfica, agora em termos que incluíam os cabos submarinos e também os satélites. O cabo telefónico submarino (para) entre a África do Sul e (para) o Reino Unido, projecto iniciado pelos CTT em conjunto com a Administração Pública de Correios e Telecomunicações do Reino Unido (2), transitou assim para uma renovada CPRM (3).
Assim foram e continuam a ir os «insondáveis» e «democráticos» acordos intra-imperiais! Ontem como Hoje.
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(1) Cunha Serra, João A. R. (2000) -“Telefones e telecomunicações” in Dicionário de História de Portugal, coordenação de António Barreto e Maria Filomena Mónica, Volume IX, Suplemento P/Z, Figueirinhas: Porto, pg 506.bb
(2)British Post Office
(3) Vulgarmente conhecida por “Marconi”.
E nem era disto que eu estava para escrever. Mais uma vez me estou a escapar, a derivar do tema que é ou pelo menos era o que tinha imaginado - acerca do primeiro cabo submarino para o serviço telefónico em que o nosso País participou, datado de 1969.
É certo que os cabos submarinos têm toda uma história cheia de peripécias técnicas, uma epopeia, diria, deste o século XIX, quando os primeiros foram lançados. Um pouco por toda a parte. E geralmente, durante uma fase inicial, a falharem, ou porque a sua instalação não pôde ser concluída, ou porque, tendo sido concluída, o cabo avariou-se ou foi cortado por um barco que passava perto, etc. Foi preciso persistência e a assunção de riscos por um capitalismo ainda jovem para que os cabos submarinos fossem por diante. Hoje, nesta fase serôdia, talvez já não fosse possível.
Eram cabos submarinos dedicados apenas à telegrafia. O telefone requeria outras tecnologias - electrónica, cabos coaxiais. O primeiro cabo telefónico transatlântico entrou ao serviço em 1956, equipado com 36 canais telefónicos e terminou a sua vida útil com 48 canais telefónicos em 1978. Neste mesmo ano foi instalado o último, ainda coaxial, equipado inicialmente com 4000 canais telefónicos; terminou o seu serviço em 1994 a dar serventia a 10 500 canais telefónicos!
Em Portugal, o primeiro cabo submarino - para a África do Sul, com capacidade para 360 circuitos telefónicos - foi inaugurado em 1969, amarrando em Sesimbra, no Sal, em Ascensão e nas Canárias, e terminando na Cidade do Cabo. Em 11 de Agosto seguinte foi aberto à exploração para Inglaterra. «Ficava, assim, completa a ligação do Reino Unido com a África do Sul, objectivo principal do empreendimento que passava por Portugal, principalmente, por razões políticas» (1).
Tal como acontecera na fase inicial dos cabos submarinos telegráficos, a posição geoestratégica de Portugal e dos territórios sob sua administração foi essencial para a forma como o nosso País participou da nova fase. Uma posição reforçada pelo facto de vigorar o Apartheid na África do Sul e um regime fascista em Portugal (e em Espanha também). Assim, funcionou uma vez mais a mais antiga aliança mundial!
Diga-se que terá também ajudado o facto de a concessão estatal portuguesa dos cabos submarinos ter sido entregue pouco antes a uma operadora privada, entidade que viu assim renovada uma anterior concessão radiotelegráfica, agora em termos que incluíam os cabos submarinos e também os satélites. O cabo telefónico submarino (para) entre a África do Sul e (para) o Reino Unido, projecto iniciado pelos CTT em conjunto com a Administração Pública de Correios e Telecomunicações do Reino Unido (2), transitou assim para uma renovada CPRM (3).
Assim foram e continuam a ir os «insondáveis» e «democráticos» acordos intra-imperiais! Ontem como Hoje.
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(1) Cunha Serra, João A. R. (2000) -“Telefones e telecomunicações” in Dicionário de História de Portugal, coordenação de António Barreto e Maria Filomena Mónica, Volume IX, Suplemento P/Z, Figueirinhas: Porto, pg 506.bb
(2)British Post Office
(3) Vulgarmente conhecida por “Marconi”.