Interessar «mentes» por via do «puro» abstracto?

Francisco Silva
Em geral, as pessoas, nós todos, não nos sentimos empolgados em procurar saber e compreender coisas, ideias, se estas forem abstractas – por exemplo, o meu conceito de cão é dificilmente separável do cão ou dos cães «concretos» que eu conheço, ou, mais ainda, com o quais ou qual eu privo. Também é verdade que, em certos casos, em particular quando a manipulação de conceitos, de entidades abstractas, apresenta um carácter genericamente lúdico, como é o caso das charadas, das palavras cruzadas, dos problemas de sudoku, em certos casos exigindo a nossa aplicação para superar um qualquer objectivo «cerebral» – que nunca é apenas cerebral, pois, para este tipo de afirmações «craniais», termos como «cérebro» funcionam muito como metáforas –, em certos casos o abstracto apresenta-se como concreta actividade, interessando-nos vitalmente, como uma necessidade que deve ser em concreto satisfeita. Contudo, estas aparentes excepções na realidade não o são. Na verdade, entidades abstractas como, por exemplo, os números e as operações aritméticas participam da satisfação de bem concretas, emocionais, necessidades. De necessidades – como a de comer, a de se defender do frio, etc. – que há tendência em classificar como simbólicas, como a querer significar imaterialidade. Imaterialidade que, como todas as imaterialidades, é, afinal, bem material, concreta. E o que estas necessidades, como todas as outras, tanto na sua manifestação, como no acto de serem satisfeitas, não são é abstractas – nem o abstracto é um antónimo de concreto, erro comum que dificulta a compreensão do que se vem a dizer…

Questão de necessidade

Ora, lembro-me que, quando era estudante no IST(1), portanto no âmbito de um curso de engenharia, estudante de uma matéria tão concreta como é a «electrónica aplicada», mas também uma matéria em grande parte invisível, «tínhamos» de aprender a «manipular» umas equações chamadas, se não estou em erro – e se o estiver, também não advirá daí nem grande nem pequeno mal ao mundo –, dizia, chamadas equações de Ebers-Moll(2), ou qualquer coisa assim, vejam lá em pleno ano de 1968! E o então jovem escrevente destas linhas já quase só concentrado na sua ida aos Jogos Olímpicos do México! Eram trabalhosas as danadas, mas que remédio, aparecendo no exame, tínhamos de aplicá-las se queríamos ir por diante, compreendendo ou não, ou pouco mais ou menos, do que elas tratavam. Estas equações reflectiam – um idealista diria: «estas equações regiam» – o funcionamento dos transístores – quando digo transístores não me estou a referir às já então pequenas, e transportáveis connosco, «telefonias» dos primórdios da tecnologia electrónica dos semicondutores, Ui, onde já vão esses tempos todos, mas refiro-me, sim, aos componentes electrónicos existentes nessas telefonias /«transístores», aos transístores que tinham havia pouco substituído os tríodos e outros anteriores componentes da electrónica. Mas estes já serão outros contos! O que eu queria destacar era a minha falta de vontade, não fora a questão dos exames, em tratar com aquelas equações!
Bom, pouco tempo passou, aqueles meus estudos foram concluídos, e vi-me a trabalhar num laboratório de I&D de um fabricante multinacional do sector das telecomunicações na Alemanha. Do I&D, era mais no D de Desenvolvimento do que no I de Investigação, mas também neste, que o I e o D não iam um sem o outro; D, portanto, de desenvolvimento de equipamentos para a rede de telecomunicações, o desenhar e experimentar equipamentos novos. Ora, o interessante – no que toca a este texto – é que, querendo afinar mais o equipamento que estava a ser concebido, ir mais ao detalhe na análise do funcionamento dos transístores, senti necessidade de revisitar, exactamente, as equações de Ebers-Moll, para ver o que elas me diziam para o caso concreto que eu trabalhava.
Moral da história: o meu interesse num conhecimento científico mais avançado, rigoroso só me chegou, de verdade, quanto tive que trabalhar praticamente com os transístores numa situação profissional exigente; esta será uma explicação para a dificuldade de todos nós em entrarmos por tais caminhos mesmo «sabendo» que o conhecimento científico é cada vez mais indispensável.
_____________

(1) IST - Instituto Superior Técnico
(2) Pois é, estava a inventar um pouco com esta de não me lembrar como se escreve exactamente Ebers-Moll; na verdade, hoje em dia busca-se na Internet e encontra-se quase logo a solução, que foi o que autor fez neste caso; o resto é ficção.


Mais artigos de: Argumentos

Potenciais negócios

Os bispos portugueses reuniram-se esta semana, no dia 10 de Julho. Prepararam já a opinião pública para um clima de zanga e indignação da igreja em relação ao Estado. Sinal certo e seguro de que os bispos, como os grandes empresários, querem mais. A conjuntura para a sua nova fase ofensiva não podia ser melhor. O país...

Os endividados

Organismos internacionais denunciam, governo queixa-se, órgãos de comunicação social avisam: os portugueses estão sobreendividados. Esta situação, feia e inconveniente, há-de ter a ver com aquela outra informação que os media regularmente nos prestam, a saber que os portugueses vivem acima das suas possibilidades. É...