Legislativas em França

Sobressalto na direita

A segunda volta das legislativas em França ficou marcada por uma surpreendente inversão no sentido de voto do eleitorado. A direita conservou a maioria absoluta que trazia do anterior mandato mas perdeu 41 deputados.

Maioria de direita perde apoio no parlamento

A anunciada onda azul, a cor do partido do presidente Nicolas Sarkozy – que ameaçava reduzir os partidos de esquerda à sua expressão mínima e dominar de forma avassaladora mais de dois terços do parlamento gaulês – não se verificou.
Como que despertando subitamente de um estado de hipnose, uma parte do povo francês foi às urnas, no domingo, 17, para concentrar votos nos candidatos da esquerda, obrigando a direita a recuar e a falhar os seus objectivos hegemónicos.
Embora alcançando uma confortável maioria absoluta, a verdade é que os resultados do partido presidencial, União para um Movimento Popular (UMP), constituem um fracasso iniludível.
Paradoxalmente, a «temível» dinâmica populista de Sarkozy produziu o enfraquecimento do grupo parlamentar da UMP que, de 355 deputados eleitos na anterior legislatura, passou para 314, ou seja, perdeu 41 eleitos, recolhendo cerca de nove milhões e 460 mil votos (46,7%).
Outro revés de monta para a direita foi a derrota de Alain Juppé, edil da cidade de Bordéus e ministro da Ecologia e Desenvolvimento Sustentável. Ao perder o seu lugar de deputado para o candidato socialista, por uma diferença de 600 votos, o titular da pasta da Ecologia e Desenvolvimento Sustentável foi obrigado a apresentar a sua demissão, forçando uma inesperada remodelação do recém-criado governo.

Oposição reforçada

Ao invés, pulverizando todas as projecções e sondagens, o Partido Socialista beneficiou da concentração de votos da esquerda para alargar sensivelmente a sua bancada parlamentar de 135 para os actuais 185 deputados, isto é, um reforço de 50 eleitos.
Em percentagem, o PS francês passou dos quase 25 por cento obtidos na primeira volta para uns expressivos 42,3 por cento e mais de oito milhões e 600 mil votos. Se houve alguma onda colorida nestas eleições, ela foi tingida de rosa pelos imperativos do voto útil, mas não azul como tudo fazia crer.
Também o Partido Comunista Francês superou os prognósticos mais minimalistas, conseguindo eleger 15 dos 22 candidatos que passaram à segunda volta, perdendo quatro deputados em relação a 2002.
Depois de terem alcançado 4,7 por cento na primeira volta, recuperando visivelmente face às presidenciais (1,9%), no domingo passado, os comunistas contabilizam perto de 465 mil votos (2,3%), referentes aos 22 círculos em que foram a votos.
Todavia, contando com mais um eleito do Partido Comunista da Reunião e dois outros aliados, o PCF pode elevar para 18 o total de lugares na futura Assembleia Nacional.
Entretanto, com vista à constituição de um grupo parlamentar (mínimo de 20 deputados), os «Verdes», que elegeram mais um representante, já manifestaram a sua vontade de juntarem os seus quatro deputados à bancada do PCF.
O próximo parlamento será ainda constituído por 15 deputados de diversos grupos de esquerda, sete dos Radicais de Esquerda e três do Movimento Democrata de François Bayrou, para além de um «regionalista» e outro sem partido.
À direita, o Novo Centro elegeu 22 deputados, surgindo ainda um grupo de nove eleitos «diversos de direita» e um do Movimento pela França.
A segunda volta registou um novo recorde da abstenção (40%), ultrapassando os 39,5 por cento registados uma semana antes, índice nunca antes observado em eleições legislativas francesas.


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