- Nº 1749 (2007/06/6)

Porque será?

Argumentos

«Debate da Nação», da RTP1, é um programa com uma particularidade que começa a valer a pena assinalar: entre os que nele participam conta-se um comunista, espécie política que, como se sabe, dá sinal de estar em vias de extinção na televisão portuguesa. É certo que seria difícil, neste caso, a sua eliminação: o programa reúne à volta de uma mesa deputados de quase todos os partidos políticos com assento na Assembleia da República (o único excluído é o Partido Ecológico «Os Verdes», arguido de ser excessivamente parecido com o PCP, como se entre o PS e o PSD houvesse de facto grandes diferenças) e a ausência de um parlamentar comunista seria muito escandalosa. É claro que, ainda assim, podia acontecer. Bastaria porventura que o jornalista que apresenta o «Debate da Nação», Carlos Daniel, se lembrasse de alegar que não encontrara na bancada do PCP nenhum «pensador», a exemplo do invocado pela sua colega Fátima Campos Ferreira, e a coisa passaria. Mas não aconteceu assim, e António Filipe lá está. Tal como Francisco Assis do PS, Anacoreta Correia pelo CDS (mas não muito pelo PP, creio) Fernando Rosas pelo BE. E Paulo Rangel, que não sei bem porquê me parece o mais «pensador de todos, pelo PSD. Entre eles examinam os mais relevantes acontecimentos políticos, confrontam opiniões e trocam argumentos. E porque, desta vez, está presente uma voz de esquerda que nunca fala nem age como se fosse de direita, o «Debate da Nação» acaba por ser uma válida fonte de informação para os cidadãos telespectadores que queiram ser informados de um modo efectivamente plural, luxo a que muito dificilmente pode aceder no decurso da maioria dos telenoticiários de qualquer das estações ou dos debates bilaterais que algumas delas promovem. Quanto a este segundo aspecto, a excepção situa-se sobretudo no Jornal das Nove da SIC-Notícias, apresentado por Mário Crespo e acessível apenas aos utentes da TV por cabo, por onde têm vindo a passar regularmente Ruben de Carvalho, Odete Santos e Octávio Teixeira. Curiosamente, qualquer deles tem sinais nítidos de pensar, o que pelos vistos tem passado despercebido à argúcia de Fátima Campos Ferreira. Tal como, aliás, António Filipe e muitos outros de cuja existência Fátima não sabe nem sonha.

Como nos velhos tempos

Na passada quinta-feira, entre os diversos temas que perpassaram por «Estado da Nação» destacou-se o da visita do primeiro-ministro a Moscovo na sua dupla qualidade de chefe do governo português e de pré-presidente do Conselho da Europa. Sobre o assunto foram expendidas opiniões diversas, como é natural, e abordados vários aspectos, nem sequer tendo sido esquecidos os dotes desportivos/atléticos de José Sócrates, sempre decidido a fazer prova, durante as suas viagens oficiais a outros países, da sua capacidade física. Assim ficam os dos países anfitriões a saber que o nosso PM não é um enfezado, um fisicamente debilitado, que presumivelmente não emergiu de entre os dois milhões de portugueses pobres que, por o serem, não podem aceder aos cuidados alimentares e outros que asseguram a plenitude recomendada há quase dois mil anos por um poeta latino, «mens sana in corpore sano». Pelo menos quanto ao «corpore» ficam afastadas as dúvidas. A excursão do PM não suscitou grandes objecções de fundo. Excepto uma. Vinda de Fernando Rosas, por sinal entre todos os presentes o mais dotado de capacidades polémicas e argumentativas. Sustentou ele, com o ardor que lhe é característico, que José Sócrates deveria ter protestado perante Vladimir Putin pelo que chamou «violações dos direitos humanos» cometidos pela Rússia sobretudo na insurrecta Tetchénia. Que me lembre, não se referiu a qualquer suspeita sua sobre investigações estrangeiras/ocidentais no caso tetcheno, decerto porque não suspeita delas. Quanto aos direitos humanos, tudo leva a crer que aludia apenas aos «do costume», aos regularmente invocados pelo ocidente quando de direitos humanos se trata, não a todos os contemplados na Declaração Universal dos Direitos Humanos que inclui, como é sabido por cada vez menos gente, o direito à saúde, à habitação, à educação, ao bem-estar. Tudo bem, o doutor não se pode lembrar de tudo. O que muito me impressionou, porém, é que não tenho memória de que o dr. Rosas tenha alguma vez formulado reparo idêntico quando um português «de topo», PM ou outro, visita certos países mais a Oeste, designadamente os Estados Unidos da América, que em matéria de direitos humanos, todos eles, os do costume e o resto, estão longe da exemplaridade não na minha obscura opinião, era o que faltava!, mas na da insuspeita Amnistia Internacional. Assim a flagrante dualidade contida no reparo de Fernando Rosas chocou-me uma vez mais, ainda que não me tenha surpreendido. O deputado do BE, como aliás muitas outras figuras da política portuguesa e seus arredores, parece inclinado a tratar a Rússia como em tempos tratava a URSS. E assaltou-me a pergunta que há uns bons anos foi popularizada por Jardel, que a tinha inscrita sob a camisola do Futebol Clube do Porto: «Porque será?».

Correia da Fonseca