A LUTA É O CAMINHO

«Às amplas movimentações dos trabalhadores respondeu o Governo com mais do mesmo»

A decisão da CGTP-IN, ontem anunciada, de convocar uma greve geral para o dia 30 de Maio, marca de forma impressiva a agenda política nacional e constitui um dado fundamental para a avaliação da situação decorrente da prática do Governo PS/Sócrates. Tal decisão traduz o amplo e justo descontentamento gerado pela política laboral e social do Governo – uma política que, incontestavelmente, fere todos os dias direitos sociais, sindicais, humanos da imensa maioria dos portugueses; uma política que agrava todos os dias as profundas desigualdades sociais existentes; uma política que aumenta todos os dias as fabulosas riquezas dos chefes dos grandes grupos económicos e financeiros; uma política que agrava todos os dias as enormes dificuldades de quem trabalha e vive do seu trabalho, de quem já trabalhou e vê serem-lhe negadas pensões e reformas dignas, de quem quer trabalhar e só encontra à sua frente o vazio do desemprego ou, na menos má das hipóteses, essa chaga social que é a precariedade. Isto para além das consequências do brutal e selectivo ataque ao Serviço Nacional de Saúde, transformando o direito humano à saúde num desumano negócio em favor, mais uma vez, do grande capital.

É sabido que o recurso, por parte da grande Central Sindical dos trabalhadores portugueses, a esta forma superior de luta surge na sequência de um amplo e intenso movimento de protesto e oposição à política do Governo PS/Sócrates e por uma mudança que respeite os direitos e os interesses dos trabalhadores e do povo. «Basta!»: eis uma palavra gritada por milhares e milhares de trabalhadores no decorrer de sucessivas jornadas de luta, assim expressando esse protesto e essa vontade inequívoca de uma mudança de política.
Acresce que as lutas travadas nos últimos dois anos, envolvendo praticamente todas as áreas de actividade dos sectores público e privado, têm vindo a revelar uma notável determinação e uma ampla disponibilidade combativas por parte dos trabalhadores. Através dessas lutas e confirmando a justeza dos seus objectivos, o movimento sindical unitário atraiu a adesão de novos segmentos das massas trabalhadoras - homens, mulheres e jovens que, em muitos casos, integraram pela primeira vez o combate organizado pela defesa dos seus interesses e direitos. Foi assim que as lutas destes dois anos atingiram participações das maiores de sempre na história do movimento operário e popular português, e disso são exemplos mais destacados o Protesto Geral de 12 de Outubro do ano passado, a poderosa manifestação de 2 de Março e, em 28 do mesmo mês, o impressionante desfile dos jovens trabalhadores – que terão continuidade natural no próximo 1º de Maio.

C onvém ter presente o facto por de mais significativo de que a estas amplas movimentações dos trabalhadores, respondeu o Governo com mais do mesmo, isto é, com a continuação da política ao serviço dos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros; com a continuação da política penalizadora dos interesses e dos direitos da maioria dos portugueses; com a continuação da política de direita – continuação agravada, na medida em que, como afirmou o camarada Jerónimo de Sousa, na intervenção que antecedeu a entrega ao primeiro-ministro de mais de 100 mil assinaturas em defesa do SNS, o Governo de José Sócrates está a praticar «a política mais à direita desde o 25 de Abril». E sabe-se como era difícil bater este recorde: basta pensarmos, por exemplo, no que foram os governos de Mário Soares, de Cavaco Silva, de António Guterres, de Durão Barroso – e no papel que desempenharam na liquidação de importantes avanços alcançados no processo da Revolução de Abril.
A decisão da CGTP-IN de convocar uma greve geral apresenta-se, assim, como a resposta natural e necessária à prática do Governo e às trágicas consequências que tal prática faz pesar sobre os trabalhadores, o povo e o País.
Concretizar com êxito tal decisão é, agora, a grande tarefa que se coloca ao movimento sindical. E é, igualmente, a grande tarefa que se coloca aos militantes comunistas, não apenas aos dirigentes sindicais comunistas mas a todo o colectivo partidário. Por razões óbvias: na intervenção acima referida, o secretário-geral do Partido, aludindo à campanha do PCP em defesa do SNS, disse a dada altura: «O PCP e os seus militantes estarão sempre onde estiverem em causa direitos fundamentais». Assim tem sido ao longo de toda a longa vida do Partido, assim é no presente e assim será no futuro - agindo nas empresas e locais de trabalho, nas escolas, nos campos, nos locais de residência, nas instituições, enfim, em todo o lado onde é necessário defender direitos fundamentais dos trabalhadores e dos cidadãos. Com a consciência plena de que a luta é o caminho, e sempre, sempre, ocupando a primeira fila dessa luta. E com uma postura que não raras vezes obriga ao reconhecimento por parte mesmo dos adversários.

H á uma semana, a camarada Odete Santos deixou as suas tarefas na Assembleia da República. Disse-se, e bem, que na sua despedida como deputada ficou expresso o reconhecimento geral pelo empenho e pela qualidade da sua intervenção parlamentar. Acrescentemos: e pela dignidade com que assumiu essa intervenção – uma dignidade que começou no primeiro dia em que lá entrou, que se manteve ao longo de 26 anos de combate e que se manteve até ao último dia de cumprimento do mandato.