Um debate e o outro
Por dever de ofício ou talvez por excesso de escrúpulo, fui defrontar as centenas de páginas de «Os Mistérios de Lisboa», de Camilo, obra invocada como sendo uma das inspiradoras da novela «Paixões proibidas» em transmissão na RTP 1 há poucas semanas e que promete ficar por lá até que se esgotem finalmente os seus anunciados cento e sessenta episódios. E eis que, inesperadamente e a mais de século e meio de distância, Camilo Castelo Branco como que acorre a participar no actual debate pré-referendário em que por vezes têm intervindo com brutidão e alguma implícita crueldade vozes da área da Igreja, a ela ligados por vínculo eclesiástico ou laico. Escreveu então Camilo: «O cristianismo continua a fazer mártires. Os leões do circo foram-se; mas os casuístas vieram...». Na verdade, recusando o sábio conselho do cardeal patriarca de Lisboa e o respeito, se não o acatamento, que lhe é devido, criaturas que dão sinais de escassa caridade cristã perante os sofrimentos do próximo têm vindo a lançar o combustível da agressividade na fogueira da discussão. Perante isso, como é natural, cresce a vontade de lhes dar resposta, de rejeitar com veemência as suas tentativas de índole verdadeiramente totalitária para impor a uma sociedade inteira, e a uma sociedade que há pouco mais de três décadas recuperou o usufruto das liberdades fundamentais, as convicções e os preconceitos ético-religiosos que são apenas de alguns. E mesmo quanto à sua radicação religiosa, está muito longe de ter fundamentos seguros: bem me lembro de que há poucas semanas um senhor bispo que não é de Bragança afirmou que o feto não tem alma, o que obviamente significa que mesmo à luz de um entendimento católico não é ser humano mas apenas projecto. Porém, outros sustentam que mesmo o óvulo que acaba de acolher um espermatozóide já é gente, ceguinhos de boa ou má-fé ao facto de o seu diâmetro não exceder o meio milímetro (o meio milímetro, senhores!). Por estas e por outras, sobretudo porque este texto será publicado a três dias do referendo, talvez o único assunto aqui abordado devesse ser a campanha ainda em curso na TV e os muitos equívocos, embustes e inexactidões que têm vicejado no campo do «Não».
A razão de uma recusa
Acontece, porém, que na mesmíssima televisão está em curso um outro debate, embora mais discreto, que aliás vai prolongar-se bem para lá do 11 de Fevereiro. Acontece sobretudo que esse debate vem sendo portador de imposturas e infâmias aliás já aqui denunciadas sem que a denúncia tenha aplacado suficientemente a indignação que suscitaram. Trata-se, como já se terá adivinhado, do debate relacionado com o telejoguinho aparentemente ingénuo que tem como objectivo a escolha plebiscitada do «maior» entre os «grandes portugueses». Sob este pretexto inocente tem vindo a decorrer uma ofensiva mediática que visa o branqueamento, se não a quase canonização, dessa figura sinistra da História portuguesa contemporânea que foi Oliveira Salazar, o assumido mandador de torturas aos presos políticos sob o eufemismo hipócrita de «safanões dados a tempo» (António Ferro, in «Salazar»); o tacanhíssimo desperdiçador das vantagens financeiras de ser Portugal um país em paz, graças à sua posição geográfica no extremo europeu, num mundo de guerra; o responsável por uma guerra colonial sem razão, sem esperança e sem honra, que assassinou milhares ao longo de treze anos. No serão do passado domingo, a defesa do campónio de Santa Comba que com um diploma em Finanças fascinou militares basbaques e ricaços perspicazes, que «salvou» as finanças nacionais semeando décadas de fome e tuberculose em proveito de latifundiários e de um punhadão de empresários, assumiu diversas formas. Deixemo-las, que o espaço não chega para tudo. Mas sublinhe-se que são os salazaristas de diverso grau que se obstinam em agitar a falsa simetria, já aqui adequadamente denunciada como infame, entre Salazar e Álvaro Cunhal. Nunca, mas nunca, um comunista a aceitaria. E vale a pena atentar na razão da recusa. É que atribuir a Salazar qualquer suposta semelhança com Cunhal é ainda imputar ao ditador alguma virtude, algum mérito, uma sugestão de dignidade; ao passo que a invocação de uma suposta paridade com Salazar é para o efectivo perfil do dirigente do PCP um insulto inaceitável e indignante. Entre o resistente heróico e o carrasco oculto não há equivalência aceitável para um olhar isento. E quem queira introduzi-la numa qualquer avaliação ou é ignorante, ou está intoxicado pela propaganda pós-salazarista que por aí corre e engrossa, ou é irremediavelmente burro.
A razão de uma recusa
Acontece, porém, que na mesmíssima televisão está em curso um outro debate, embora mais discreto, que aliás vai prolongar-se bem para lá do 11 de Fevereiro. Acontece sobretudo que esse debate vem sendo portador de imposturas e infâmias aliás já aqui denunciadas sem que a denúncia tenha aplacado suficientemente a indignação que suscitaram. Trata-se, como já se terá adivinhado, do debate relacionado com o telejoguinho aparentemente ingénuo que tem como objectivo a escolha plebiscitada do «maior» entre os «grandes portugueses». Sob este pretexto inocente tem vindo a decorrer uma ofensiva mediática que visa o branqueamento, se não a quase canonização, dessa figura sinistra da História portuguesa contemporânea que foi Oliveira Salazar, o assumido mandador de torturas aos presos políticos sob o eufemismo hipócrita de «safanões dados a tempo» (António Ferro, in «Salazar»); o tacanhíssimo desperdiçador das vantagens financeiras de ser Portugal um país em paz, graças à sua posição geográfica no extremo europeu, num mundo de guerra; o responsável por uma guerra colonial sem razão, sem esperança e sem honra, que assassinou milhares ao longo de treze anos. No serão do passado domingo, a defesa do campónio de Santa Comba que com um diploma em Finanças fascinou militares basbaques e ricaços perspicazes, que «salvou» as finanças nacionais semeando décadas de fome e tuberculose em proveito de latifundiários e de um punhadão de empresários, assumiu diversas formas. Deixemo-las, que o espaço não chega para tudo. Mas sublinhe-se que são os salazaristas de diverso grau que se obstinam em agitar a falsa simetria, já aqui adequadamente denunciada como infame, entre Salazar e Álvaro Cunhal. Nunca, mas nunca, um comunista a aceitaria. E vale a pena atentar na razão da recusa. É que atribuir a Salazar qualquer suposta semelhança com Cunhal é ainda imputar ao ditador alguma virtude, algum mérito, uma sugestão de dignidade; ao passo que a invocação de uma suposta paridade com Salazar é para o efectivo perfil do dirigente do PCP um insulto inaceitável e indignante. Entre o resistente heróico e o carrasco oculto não há equivalência aceitável para um olhar isento. E quem queira introduzi-la numa qualquer avaliação ou é ignorante, ou está intoxicado pela propaganda pós-salazarista que por aí corre e engrossa, ou é irremediavelmente burro.