Os escravos ainda não foram libertados
A batalha de Gettysburg, na Pennsylvania, travou-se entre 1 e 3 de Julho de 1863, há 140 anos, portanto, e decidiu do curso da Guerra Civil Americana, também conhecida como Guerra da Secessão. As consequências deste encontro sanguinário de que resultaram 51 000 mortos, conduziram, gradualmente, ao afundamento dos Estados Confederados (Sul) e, em última análise, à vitória da União (Norte). O presidente Lincoln tinha esperanças em que esta terrível batalha pusesse fim à guerra e afastasse os Confederados do território da Virgínia. O segundo objectivo foi conseguido, mas o primeiro, não, devido a que o general Meade não tirou dos acontecimentos no campo de batalha as adequadas consequências.
Como resultado da eleição de Lincoln para a presidência (1860), o Estado da Carolina do Sul retirou os seus representantes ao Congresso da União no que foi seguido por dez outros Estados. Então, sob a presidência de Jefferson Davis, constituíram uma Confederação autónoma. O Norte federalista, com 22 milhões de habitantes, desejava a unidade de todos os Estados numa base anti-esclavagista. O Sul, com 9 milhões de habitantes dos quais eram negros cerca de quatro milhões, lutaria para evitar a ruína que o fim da escravatura claramente anunciava. Durante os 4 anos em que o conflito se arrastou os efectivos dos dois exércitos conheceram a presença de milhões de homens, quase todos de origem europeia. A situação económica estava em jogo. A possibilidade de rápido enriquecimento parecia possível. Para muitos, a passagem pelo exército do Norte seria uma espécie de passaporte para a prosperidade que os novos projectos industriais e a abertura às terras virgens do Oeste, sem dúvida, poderiam proporcionar.
O desenvolvimento industrial exigia do Norte o controlo de matérias-primas, do algodão, designadamente, que os do Sul plantavam e de que recolhiam vastas receitas para dissiparem de forma supérflua, quase sempre. Entre os interesses de uns e os de outros, situava-se a massa de escravos negros a quem os apelos de Lincoln pela liberdade não seduziam particularmente.
Os negros sabiam que entregues à ‘protecção’ dos latifundiários racistas estavam ‘garantidos’, pelo menos, do que lhes parecia fundamental - a alimentação diária e um tecto que os defendia e às respectivas famílias. Em troca entregavam, de facto, as suas próprias pessoas ao serviço perpétuo tanto nos campos de algodão como em serventia nas residências.
A liberdade que Lincoln oferecia vinha, pelo contrário, carregada de problemas. Era a liberdade no capitalismo. O negro ofereceria, ‘livremente’, a sua força de trabalho contra um precário ou baixo salário. Depois, teria de, como ‘homem livre’, sujeitar-se às leis do mercado para conseguir casa e alimentar a família. Neste situação contraditória, os negros não realizaram a revolta que os idealistas da liberdade no capitalismo esperavam deles.
É estranho verificar como, 143 anos após a eleição de Abraham Lincoln, o problema dos negros continua por resolver nos Estados Unidos. A sua liberdade não é a de Condolezza Rice ou Colin Powell. É aquela que a miséria dos grandes centros oferece, o que nos leva a considerar que o sistema social e económico americano, afinal, falhou redondamente, transformando-se num desastre.
A batalha
No primeiro dia (1 de Julho) o general Robert Lee (Sul) decidiu invadir o Norte. Se destruísse a ponte ferroviária de Harrisburg, poderia preparar ataques contra as cidades de Filadélfia, Baltimore e Washington. As forças sulistas procuravam abastecimentos por toda a Pennsylvania, mas ao avistarem unidades de cavalaria nortista na zona do morro de McPherson, decidiram atacá-las. Estas, apesar de em inferioridade numérica, conseguiram evitar o envolvimento, mas o Sul mobilizou reforços e milhares de soldados da União caíram prisioneiros. Durante a noite, porém, também começaram a aparecer importantes formações do exército de George Meade que tomaram posições na perspectiva de um sanguinário confronto no dia seguinte.
Com efeito, a 2 de Julho, os dois exércitos apareciam posicionados frente a frente, a menos de dois quilómetros de distância. Lee, sempre audacioso, ordenou o ataque sulista contra os flancos do inimigo. O campo pedregoso começava a coalhar-se de mortos e feridos. Mas ao general nortista, G.K. Warren, não escapou o facto de que a posição estratégica conhecida como ‘Little Round Top’, não estava ocupada pelos confederados. A 3, Robert Lee, pressionou o ataque sulista contra o forte grupo central dos nortistas na chamada subida do cemitério. Entre duelos de artilharia, o general George Pickett (Sul) liderou um ataque de cavalaria contra aquela posição. Mas o esforço dos seus homens acabou num terrível desastre em que pelo menos 15 000 bravos tombaram.
O fim da ilusão
A retirada do general Lee começou a 4 de Julho. À sua retaguarda deixava Gettysburgh, uma pequena povoação de 2400 habitantes, com 51 000 corpos para enterrar, não contando com as carcaças de 5000 cavalos. De ambos os lados, mais de 172 000 homens participaram neste horrível encontro. Cerca de 634 canhões fizeram fogo quase ininterrupto durante os três dias de operações. O general Meade deveria ter perseguido Lee para destruí-lo. Mas o seu exército estava, também, completamente exausto.
Já no ano anterior, o general Grant se apossara dos fortes Henry e Donelson penetrando o vale do Mississipi. Grant seria nomeado, no ano seguinte ao da batalha de Gettysburg, comandante do exército unificado nortista, enquanto Sherman era destacado para o teatro de operações a Oeste. Estes dois generais, tendo capturado Atlanta e toda a Georgia, atingiram Savannah e a costa atlântica em fins de 1864. A guerra só terminaria em Abril de 1865, mas o inglório esforço dos sulistas em Gettysburgh deixara Lee e Johnston sem quaisquer hipóteses de êxito. A ilusão sulista, assim, caiu.
___________
Nomes e Números em Gettysburgh
Comando nortista: George Meade, era o comandante supremo. Outros generais na direcção de grandes unidades: Buford, Reynolds, Doubleday, Hancock.
Efectivos envolvidos nesta batalha: 95 000 homens;
Baixas sofridas: 23 040;
Comando sulista: Robert Lee, era o comandante supremo. Outros generais no comando das principais unidades: Longstreet, Hill, Ewell, Heth, Pickett, Stuart.
Efectivos envolvidos nesta batalha: 75 000 homens;
Baixas sofridas: entre 22 000 e 30 000;
___________
Os Amigos do Escravo
O odioso racismo dos sulistas, segundo o advogado O’Connor, citado por Marx (in O Capital, vol.III, edição inglesa da Progress Publishers, Moscovo):
«A condição de escravo foi atribuída ao Negro pela própria Natureza porque ele dispõe do poder, da necessária força para trabalhar. Mas a Natureza, que lhe deu tal força, recusou-lhe inteligência para governar-se e vontade própria para trabalhar. Essa mesma Natureza, entretanto, atribuiu ao seu dono a capacidade requerida para dele fazer um criado útil. Mantenho que não é uma injustiça deixar o Negro na condição em que a Natureza o colocou ou deixar o seu senhor, simplesmente, orientá-lo. Não é retirar-lhe quaisquer direitos obrigar o Negro a trabalhar, dando ao esclavagista compensação pelo trabalho e pelo talento aplicados em orientá-lo, em torná-lo útil a si próprio e à sociedade.»
(Discurso publicado no New-York Daily Tribune, em 20.11.1859.)
O desenvolvimento industrial exigia do Norte o controlo de matérias-primas, do algodão, designadamente, que os do Sul plantavam e de que recolhiam vastas receitas para dissiparem de forma supérflua, quase sempre. Entre os interesses de uns e os de outros, situava-se a massa de escravos negros a quem os apelos de Lincoln pela liberdade não seduziam particularmente.
Os negros sabiam que entregues à ‘protecção’ dos latifundiários racistas estavam ‘garantidos’, pelo menos, do que lhes parecia fundamental - a alimentação diária e um tecto que os defendia e às respectivas famílias. Em troca entregavam, de facto, as suas próprias pessoas ao serviço perpétuo tanto nos campos de algodão como em serventia nas residências.
A liberdade que Lincoln oferecia vinha, pelo contrário, carregada de problemas. Era a liberdade no capitalismo. O negro ofereceria, ‘livremente’, a sua força de trabalho contra um precário ou baixo salário. Depois, teria de, como ‘homem livre’, sujeitar-se às leis do mercado para conseguir casa e alimentar a família. Neste situação contraditória, os negros não realizaram a revolta que os idealistas da liberdade no capitalismo esperavam deles.
É estranho verificar como, 143 anos após a eleição de Abraham Lincoln, o problema dos negros continua por resolver nos Estados Unidos. A sua liberdade não é a de Condolezza Rice ou Colin Powell. É aquela que a miséria dos grandes centros oferece, o que nos leva a considerar que o sistema social e económico americano, afinal, falhou redondamente, transformando-se num desastre.
A batalha
No primeiro dia (1 de Julho) o general Robert Lee (Sul) decidiu invadir o Norte. Se destruísse a ponte ferroviária de Harrisburg, poderia preparar ataques contra as cidades de Filadélfia, Baltimore e Washington. As forças sulistas procuravam abastecimentos por toda a Pennsylvania, mas ao avistarem unidades de cavalaria nortista na zona do morro de McPherson, decidiram atacá-las. Estas, apesar de em inferioridade numérica, conseguiram evitar o envolvimento, mas o Sul mobilizou reforços e milhares de soldados da União caíram prisioneiros. Durante a noite, porém, também começaram a aparecer importantes formações do exército de George Meade que tomaram posições na perspectiva de um sanguinário confronto no dia seguinte.
Com efeito, a 2 de Julho, os dois exércitos apareciam posicionados frente a frente, a menos de dois quilómetros de distância. Lee, sempre audacioso, ordenou o ataque sulista contra os flancos do inimigo. O campo pedregoso começava a coalhar-se de mortos e feridos. Mas ao general nortista, G.K. Warren, não escapou o facto de que a posição estratégica conhecida como ‘Little Round Top’, não estava ocupada pelos confederados. A 3, Robert Lee, pressionou o ataque sulista contra o forte grupo central dos nortistas na chamada subida do cemitério. Entre duelos de artilharia, o general George Pickett (Sul) liderou um ataque de cavalaria contra aquela posição. Mas o esforço dos seus homens acabou num terrível desastre em que pelo menos 15 000 bravos tombaram.
O fim da ilusão
A retirada do general Lee começou a 4 de Julho. À sua retaguarda deixava Gettysburgh, uma pequena povoação de 2400 habitantes, com 51 000 corpos para enterrar, não contando com as carcaças de 5000 cavalos. De ambos os lados, mais de 172 000 homens participaram neste horrível encontro. Cerca de 634 canhões fizeram fogo quase ininterrupto durante os três dias de operações. O general Meade deveria ter perseguido Lee para destruí-lo. Mas o seu exército estava, também, completamente exausto.
Já no ano anterior, o general Grant se apossara dos fortes Henry e Donelson penetrando o vale do Mississipi. Grant seria nomeado, no ano seguinte ao da batalha de Gettysburg, comandante do exército unificado nortista, enquanto Sherman era destacado para o teatro de operações a Oeste. Estes dois generais, tendo capturado Atlanta e toda a Georgia, atingiram Savannah e a costa atlântica em fins de 1864. A guerra só terminaria em Abril de 1865, mas o inglório esforço dos sulistas em Gettysburgh deixara Lee e Johnston sem quaisquer hipóteses de êxito. A ilusão sulista, assim, caiu.
___________
Nomes e Números em Gettysburgh
Comando nortista: George Meade, era o comandante supremo. Outros generais na direcção de grandes unidades: Buford, Reynolds, Doubleday, Hancock.
Efectivos envolvidos nesta batalha: 95 000 homens;
Baixas sofridas: 23 040;
Comando sulista: Robert Lee, era o comandante supremo. Outros generais no comando das principais unidades: Longstreet, Hill, Ewell, Heth, Pickett, Stuart.
Efectivos envolvidos nesta batalha: 75 000 homens;
Baixas sofridas: entre 22 000 e 30 000;
___________
Os Amigos do Escravo
O odioso racismo dos sulistas, segundo o advogado O’Connor, citado por Marx (in O Capital, vol.III, edição inglesa da Progress Publishers, Moscovo):
«A condição de escravo foi atribuída ao Negro pela própria Natureza porque ele dispõe do poder, da necessária força para trabalhar. Mas a Natureza, que lhe deu tal força, recusou-lhe inteligência para governar-se e vontade própria para trabalhar. Essa mesma Natureza, entretanto, atribuiu ao seu dono a capacidade requerida para dele fazer um criado útil. Mantenho que não é uma injustiça deixar o Negro na condição em que a Natureza o colocou ou deixar o seu senhor, simplesmente, orientá-lo. Não é retirar-lhe quaisquer direitos obrigar o Negro a trabalhar, dando ao esclavagista compensação pelo trabalho e pelo talento aplicados em orientá-lo, em torná-lo útil a si próprio e à sociedade.»
(Discurso publicado no New-York Daily Tribune, em 20.11.1859.)