Um debate e o seu contexto
O Governo anunciou os termos gerais de uma reforma da Administração Pública e a RTP, por intermédio do “Prós e Contras” veio perguntar ao País (mais exactamente: aos utentes do sistema SMS dos telemóveis) se essa é a reforma necessária. Perante isto, não parece que a crítica de TV ou o que com ela queira parecer-se tenha muito para dizer e menos ainda para objectar. É certo que já passou o tempo, espera-se, que à crítica quase era recusado o direito de ter opinião acerca dos conteúdos da TV, devendo limitar-se a dizer se a imagem estava catita, s4e o som estava em condições, se o apresentador era gago, coisas assim. Porém, uma vez que já não estamos nessa, como agora se diz, parece que pouco há a opor ao gesto bonito de vir a televisão pública pedir aos cidadãos, a alguns deles, opinião acerca de uma anunciada reforma. Em princípio, até é uma atitude brutalmente democrática a reclamar aplauso. Nem a rubrica «Prós e Contras» parece ser outra coisa que não seja uma iniciativa medularmente democrática da RTP: debate livre, consulta ao povão, convidados pluralmente escolhidos, testemunhos vários. Apetece exclamar: um exemplo, caramba!
Contudo, como se sabe, quase nunca as coisas são tão lindas quanto parecem a princípio e vistas de longe, e com «Prós e Contras», concretamente com esta sua emissão em que o projecto de uma reforma da Administração Pública foi o tema, a regra cumpriu-se. A questão é que tudo se passou como se o objectivo fosse arrancar à opinião pública (expressa por SMS, recorde-se) uma esmagadora aprovação da reforma anunciada antes mesmo de serem conhecidos os seus aspectos concretos. E, é claro, essa aprovação foi conseguida. Para tanto, aliás, implementou-se uma estratégia simples que talvez possa ser sumariamente descrita como segue. Fase anterior: intenso e prolongado bombardeamento da opinião pública, através dos grandes media previamente ocupados, no sentido de lhe explicar que o que é público é ineficaz e despesista, ao passo que o que é privado é de superior eficácia e muitíssimo mais económico. Fase seguinte: informação reiterada segunda a qual os trabalhadores da função pública são todos uns trastes, uns mandriões, uns incompetentes, uns sujeitos a barrotar de inadmissíveis privilégios, e por isso manda a justiça que se vá sobre eles sem dó nem piedade. Mais outra fase: dê-se todo o relevo à muitas razões de queixa que cada um de nós tem da forma como foi tratado por qualquer sector público (Saúde, Justiça, Educação, Autarquia, etc.). Com isto e com pouco mais, estão criadas as condições para que o maralhal seja a favor de qualquer reforma das Administração que vagamente se inspire na alegada excelência do sector privado. Ora, perante uma manobra destas, que um cidadão mais desbocado poderia apelidar de impostora, talvez não seja excessivo que a crítica de televisão queira ter opinião quando, precisamente, a manobra tem honras de longo tempo de antena no principal canal público.
A rudeza de Frederico
Para mais, o teledebate teve, digamos, guarda à vista: uma vez que alguns dos convidados não davam garantia de terem suficiente «compreensão» pela intenção do senhor governo, lá estava mais uma vez a apresentadora do costume a velar para que a conversa não derivasse para onde não devesse. Ou, como rudemente disse o meu amigo Frederico, «a defender o dono». É escusado dizer que só este aspecto seria bastante para desvalorizar completamente os méritos do programa quanto a democraticidade, se não houvesse um outro mais grave: é que esta promoção televisiva de uma reforma da Administração Pública sem dúvida necessária (e, de resto, de algum modo já em curso desde há anos) vem, de facto, tentar dar cobertura «moral» à ofensiva que o Governo já desencadeou contra os trabalhadores da função pública e cuja intensificação já está anunciada. Este aspecto fulcral da questão não me parece que tenha sido claramente abordado por nenhum dos convidados do programa, talvez porque a senhora jornalista/apresentadora vigiou eficazmente o rumo da conversa, mas esse é o que mais importa. Não é segredo para ninguém que o actual Governo tem uma preocupação que é medular das suas iniciativas: tudo pela (grande) iniciativa privada, nada a favor dos cidadãozinhos sem importância cujo bem-estar não interessa nada. Este «Prós e Contras» foi mais uma acção no quadro desse grande projecto. Perante isto, deve a crítica de TV silenciar o fundamental e entreter-se a brincar com os pormenores?
Contudo, como se sabe, quase nunca as coisas são tão lindas quanto parecem a princípio e vistas de longe, e com «Prós e Contras», concretamente com esta sua emissão em que o projecto de uma reforma da Administração Pública foi o tema, a regra cumpriu-se. A questão é que tudo se passou como se o objectivo fosse arrancar à opinião pública (expressa por SMS, recorde-se) uma esmagadora aprovação da reforma anunciada antes mesmo de serem conhecidos os seus aspectos concretos. E, é claro, essa aprovação foi conseguida. Para tanto, aliás, implementou-se uma estratégia simples que talvez possa ser sumariamente descrita como segue. Fase anterior: intenso e prolongado bombardeamento da opinião pública, através dos grandes media previamente ocupados, no sentido de lhe explicar que o que é público é ineficaz e despesista, ao passo que o que é privado é de superior eficácia e muitíssimo mais económico. Fase seguinte: informação reiterada segunda a qual os trabalhadores da função pública são todos uns trastes, uns mandriões, uns incompetentes, uns sujeitos a barrotar de inadmissíveis privilégios, e por isso manda a justiça que se vá sobre eles sem dó nem piedade. Mais outra fase: dê-se todo o relevo à muitas razões de queixa que cada um de nós tem da forma como foi tratado por qualquer sector público (Saúde, Justiça, Educação, Autarquia, etc.). Com isto e com pouco mais, estão criadas as condições para que o maralhal seja a favor de qualquer reforma das Administração que vagamente se inspire na alegada excelência do sector privado. Ora, perante uma manobra destas, que um cidadão mais desbocado poderia apelidar de impostora, talvez não seja excessivo que a crítica de televisão queira ter opinião quando, precisamente, a manobra tem honras de longo tempo de antena no principal canal público.
A rudeza de Frederico
Para mais, o teledebate teve, digamos, guarda à vista: uma vez que alguns dos convidados não davam garantia de terem suficiente «compreensão» pela intenção do senhor governo, lá estava mais uma vez a apresentadora do costume a velar para que a conversa não derivasse para onde não devesse. Ou, como rudemente disse o meu amigo Frederico, «a defender o dono». É escusado dizer que só este aspecto seria bastante para desvalorizar completamente os méritos do programa quanto a democraticidade, se não houvesse um outro mais grave: é que esta promoção televisiva de uma reforma da Administração Pública sem dúvida necessária (e, de resto, de algum modo já em curso desde há anos) vem, de facto, tentar dar cobertura «moral» à ofensiva que o Governo já desencadeou contra os trabalhadores da função pública e cuja intensificação já está anunciada. Este aspecto fulcral da questão não me parece que tenha sido claramente abordado por nenhum dos convidados do programa, talvez porque a senhora jornalista/apresentadora vigiou eficazmente o rumo da conversa, mas esse é o que mais importa. Não é segredo para ninguém que o actual Governo tem uma preocupação que é medular das suas iniciativas: tudo pela (grande) iniciativa privada, nada a favor dos cidadãozinhos sem importância cujo bem-estar não interessa nada. Este «Prós e Contras» foi mais uma acção no quadro desse grande projecto. Perante isto, deve a crítica de TV silenciar o fundamental e entreter-se a brincar com os pormenores?