Memória
Aqueles que se percam no caminho,Não nos é possível esquecer o que foi aquele dia 18 de Fevereiro de 1978, marcado pela transladação dos restos mortais dos trinta. e dois corajosos lutadores antifascistas que desconheceram um 25 de Abril, mas que, pela sua vida, intimamente, sentiam que esse dia havia de vir.
que importa! Chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
e até os mortos vão ao nosso lado.
Fernando Lopes Graça - «Heróicas»,
poema de José Gomes Ferreira
Coube-nos acompanhar um desses pequenos caixões, contendo as ossadas dos que regressavam finalmente ao país que os viu nascer. A morte foi lá, há largos anos, na Achada grande do Tarrafal; mas a vida voltava a acontecer aqui, no país de Abril, na terra que tanto amavam.
Junto de nós, a pequena urna, entre as muitas outras, coberta com a bandeira nacional. Continha os restos mortais de Jacinto de Melo Faria Vilaça, finado em 41, no Campo da Morte Lenta. Tivemo-lo, ali, não sem emoção, ao nosso lado, no auto-fúnebre, que partira da Sociedade Nacional de Belas Artes, a caminho do Alto de S. João, para o mausoléu a que legitimamente tinham direito. E não pudemos deixar de pensar, durante aquelas três horas do percurso, em todos aqueles que, irmanados por um ideal comum de Liberdade, foram atirados, pelo «Estado Novo», para a morte programada naquela ilha inóspita de S. Tiago - Quem vem para o Tarrafal, vem para morrer!
«O Vilaça», dizia-nos um companheiro de transporte, dos raros sobreviventes tarrafalenses, «foi um dos marinheiros do 11 de Setembro, da guerra de Espanha».
Veio-nos, então, à ideia essa enorme chacina entre espanhóis, porta aberta para a segunda Guerra Mundial. E o papel do governo português, chefiado por Salazar que, como nos tempos da «santa» inquisição, efectivamente não matava, mas entregava as vítimas aos algozes, que eram os seus «braços seculares». Não nos esqueceremos da tristemente célebre «matança» da Praça de Touros de Badajoz, para a qual o governo contribuiu entregando, friamente, para. o fuzilamento, milhares de espanhóis que tinham pedido, certamente confiados, asilo e protecção a Portugal. A policia política portuguesa cumpria, assim, integralmente a sua «missão».
O Vilaça, 11 de Setembro de 1936, a guerra de Espanha - filme inesquecível da nossa adolescência. Estávamos no Pedro Nunes, no nosso quinto ano. A propaganda era subrepticiamente bem montada, com os amens dos poderes públicos. Aprendemos o Deutschland Uber Alles e o Die Fahne Hoch! com que recebíamos, de braço estendido, ilustres visitantes do III Reich. Poucos, daquela geração, entendiam que o general Franco era um rebelde, feito com o nazismo e com o fascismo, e não um «nacionalista», surgido do além, para «salvar» a Espanha, como apregoava. Tínhamos alguns professores, prestimosamente, colaborantes: o Dr. Ayala Boto, na ginástica, ex-fundador do nosso grupo de escuteiros, que passou a dirigente da «Mocidade Portuguesa»; o Dr. Torcato, no Canto Coral, que tinha uma moradia, com capela, à Duque de Loulé, onde o Salazar ia ouvir missa. E donde saiu, uma vez, ileso dum atentado perpetrado em 1937.
Um colega nosso trouxe, uma vez, para as aulas, um pequeno emblema de lapela com fitas coloridas, representando bandeiras dos diversos países do «eixo», ou simpatizantes, como a Espanha, de Franco, a Itália, de Mussolini, a Alemanha de Hitler e... Portugal de Salazar. Supomos ser um familiar seu quem confeccionava esses emblemas que eram vendidos aos estudantes e usados em profusão. Era moda.
A partir de 18 de Julho de 1936, a política de Oliveira Salazar, neutral, transformou, de facto, Portugal numa das principais bases de operações favoráveis a Francisco Franco. Quer fornecendo armas e mantimentos, quer organizando um corpo expedicionário. É o próprio encarregado de negócios da Alemanha, em Lisboa, quem refere: «O Presidente do Conselho Salazar... / /...é quem facilita aos revolucionários a aquisição de material de todo o tipo.»
E quando em Agosto de 1936, barcos alemães começaram a transportar as grandes remessas de material de guerra para os franquistas, foi-lhes dada a necessária protecção da nossa marinha. Mas marinheiros portugueses tentaram sabotar esta iniciativa, até que se deu a revolta de 11 de Setembro, esmagada inclementemente.
O Vilaça, era um desses marinheiros e ali estava, connosco, numa pequena urna ao nosso lado, como na canção de Lopes Graça.
«O meu marido é que fazia os caixões», diz-nos uma companheira de viagem. «Quando morria algum, desaparecia uma mesa do refeitório»...
Estamos no fim da jornada. Caras conhecidas espreitam-nos às portas do cemitério. Chove. Cercam-nos alguns cravos vermelhos lançadas sobre as pequenas urnas que vão saindo. Sobre o Vilaça, o Bento Gonçalves, o Caldeira... Nas suas urnas pequenas de homens grandes.