Homens e lixo
Foi no dia em que a TV me trouxe a notícia da morte de Pinochet, e com a notícia as imagens de milhares de chilenos festejando-a. Como quase toda a gente, embora tivesse gostado de que os chilenos se sentissem felizes, não me pareceu que houvesse motivos para os festejos: a morte, nada prematura, viera assegurar que o general celerado não seria punido, nem sequer apenas formalmente, pelo horroroso currículo de crimes inscritos no seu cadastro. Mais fundamentada alegria e mais justificados folguedos seriam os que tivessem acolhido a morte do Pinochet se ocorrida no cárcere ou, pelo menos, em regime de detenção domiciliária. Bem se sabe, porém, que o criminoso tinha agora, como sempre tivera, cumplicidades em gente bem colocada no Chile e fora dele, gente que impediu o castigo por tantos e tão infames crimes. Cumplicidades que aliás bem se explicam: os crimes de Augusto Pinochet eram também, na verdade, crimes dessas criaturas, tendo o general chileno sido apenas o seu executor brutal. E tais cumplicidades não se situavam apenas no interior do Chile, como se provou com as palavras de tristeza da Thatcher perante a notícia do fim do carrasco.
Foi, pois, no dia em que a TV trouxe a notícia da morte de Pinochet, mas não foi ela nem as imagens que a acompanharam que mais me tocaram. Até porque não foram surpresa, as informações que iam chegando já tornavam fácil prever que o sujeito ia escapar ao banco dos réus, escapulindo-se pela porta da morte. As imagens que nesse dia mais me emocionaram foram as de uma reportagem da TVI feita, à noite, junto de um supermercado. Ou de um hiper, não sei. Sei, isso sim, que as imagens e o som que as acompanhava mostravam criaturas a remexer em contentores de lixo, a procurar neles alguma coisa que pudessem comer. E essas criaturas não eram bichos, eram gente. Como eu, como o eventual leitor, como os nossos filhos. Eram gente a quem esta sociedade em que vivemos recusa um estatuto integral de pessoas com direitos básicos, entre os quais o direito a não ter fome. Das palavras que se foram ouvindo depreendeu-se que alguns deles seriam imigrantes, porventura em situação ilegal, e talvez esta dupla condição sirva para apaziguar as consciências de alguns que perante um quadro daqueles mais não desejam que um pretexto para apaziguarem as suas consciências pouco exigentes. Contudo, o que é decisivo é o que atrás foi dito: os que remexiam nos contentores na pesquisa de um pedaço de pão sobrante, de um iogurte fora de prazo de validade mas talvez ainda inofensivo, eram gente. Imigrantes ou não, legalizados ou não, mesmo se um ou outro toxicodependente, eram gente. Com direitos. Que lhes são recusados.
Imagem de marca
Não será apenas à porta de um supermercado situado em Lisboa ou na sua periferia que seres humanos remexem no lixo em busca de qualquer coisa que se coma: é possível, é mesmo provável, que o mesmo aconteça noutros países da União Europeia, e isto para só da União Europeia falarmos. Porém, deixem-me dizer que é pelo que acontece no meu País que eu tenho vergonha, não pela enorme maioria dos que o habitam mas sim pela minoria dos que nele vêm mandando. Esta é uma terra em que, há trinta e dois anos, se acendeu a luz da esperança de que nunca mais haveria desigualdades sociais de tal dimensão que a alguns seria recusado o mínimo para uma plena condição humana enquanto outros se atascariam em fartura. Foi um momento de rara luminosidade na história do meu, do nosso País. Mas uma soma de pusilanimidades e traições em conjuntura internacional que lhes foi favorável permitiu que voltassem às alavancas dos poderes fácticos os mesmos que durante décadas haviam imposto à população a fome, a guerra, e a específica forma de peste que é a ignorância. O resultado desse regresso está aí, todos os dias, aos olhos de quem queira ver, e é claro que não só nem sobretudo na televisão. Mas aquelas imagens de homens-bichos revolvendo o lixo para sobreviverem são uma espécie de marca dos dias actuais, embora tratando-se de um caso-limite, mas por isso mesmo com a força de um símbolo. A pergunta que logo salta é, naturalmente, a de como é possível que aquilo seja possível. Mas é previsível que talvez amanhã nos venham dizer que a questão deve ser resolvida pela solidariedade da sociedade civil, isto é, pela caridadezinha «dos que podem aos que precisam», como dizia um estribilho anterior a 74. Como se a forma organizada da solidariedade não fosse a redistribuição da riqueza sob gestão do Estado. Como se fosse mais importante não bulir nos exorbitantes privilégios de alguns que fazer o necessário para que não haja gente a procurar alimentos nos caixotes do lixo. Ou, se alguns o preferirem que se diga assim, como se a fome e sede de justiça não estivessem abençoadas numa página bíblica.
Foi, pois, no dia em que a TV trouxe a notícia da morte de Pinochet, mas não foi ela nem as imagens que a acompanharam que mais me tocaram. Até porque não foram surpresa, as informações que iam chegando já tornavam fácil prever que o sujeito ia escapar ao banco dos réus, escapulindo-se pela porta da morte. As imagens que nesse dia mais me emocionaram foram as de uma reportagem da TVI feita, à noite, junto de um supermercado. Ou de um hiper, não sei. Sei, isso sim, que as imagens e o som que as acompanhava mostravam criaturas a remexer em contentores de lixo, a procurar neles alguma coisa que pudessem comer. E essas criaturas não eram bichos, eram gente. Como eu, como o eventual leitor, como os nossos filhos. Eram gente a quem esta sociedade em que vivemos recusa um estatuto integral de pessoas com direitos básicos, entre os quais o direito a não ter fome. Das palavras que se foram ouvindo depreendeu-se que alguns deles seriam imigrantes, porventura em situação ilegal, e talvez esta dupla condição sirva para apaziguar as consciências de alguns que perante um quadro daqueles mais não desejam que um pretexto para apaziguarem as suas consciências pouco exigentes. Contudo, o que é decisivo é o que atrás foi dito: os que remexiam nos contentores na pesquisa de um pedaço de pão sobrante, de um iogurte fora de prazo de validade mas talvez ainda inofensivo, eram gente. Imigrantes ou não, legalizados ou não, mesmo se um ou outro toxicodependente, eram gente. Com direitos. Que lhes são recusados.
Imagem de marca
Não será apenas à porta de um supermercado situado em Lisboa ou na sua periferia que seres humanos remexem no lixo em busca de qualquer coisa que se coma: é possível, é mesmo provável, que o mesmo aconteça noutros países da União Europeia, e isto para só da União Europeia falarmos. Porém, deixem-me dizer que é pelo que acontece no meu País que eu tenho vergonha, não pela enorme maioria dos que o habitam mas sim pela minoria dos que nele vêm mandando. Esta é uma terra em que, há trinta e dois anos, se acendeu a luz da esperança de que nunca mais haveria desigualdades sociais de tal dimensão que a alguns seria recusado o mínimo para uma plena condição humana enquanto outros se atascariam em fartura. Foi um momento de rara luminosidade na história do meu, do nosso País. Mas uma soma de pusilanimidades e traições em conjuntura internacional que lhes foi favorável permitiu que voltassem às alavancas dos poderes fácticos os mesmos que durante décadas haviam imposto à população a fome, a guerra, e a específica forma de peste que é a ignorância. O resultado desse regresso está aí, todos os dias, aos olhos de quem queira ver, e é claro que não só nem sobretudo na televisão. Mas aquelas imagens de homens-bichos revolvendo o lixo para sobreviverem são uma espécie de marca dos dias actuais, embora tratando-se de um caso-limite, mas por isso mesmo com a força de um símbolo. A pergunta que logo salta é, naturalmente, a de como é possível que aquilo seja possível. Mas é previsível que talvez amanhã nos venham dizer que a questão deve ser resolvida pela solidariedade da sociedade civil, isto é, pela caridadezinha «dos que podem aos que precisam», como dizia um estribilho anterior a 74. Como se a forma organizada da solidariedade não fosse a redistribuição da riqueza sob gestão do Estado. Como se fosse mais importante não bulir nos exorbitantes privilégios de alguns que fazer o necessário para que não haja gente a procurar alimentos nos caixotes do lixo. Ou, se alguns o preferirem que se diga assim, como se a fome e sede de justiça não estivessem abençoadas numa página bíblica.