25 de Novembro

Esta é uma guerra de longa duração. Até à vitória.

Num prosa cerrada de duas páginas inteiras, o Semanário anuncia que «o PCP abriu quatro frentes contra Sócrates», numa «Guerra Total» aberta em 25 de Novembro. Desta vez não é o outro 25 de Novembro que, em 1975, ficou marcado pelo golpe militar que travou a Revolução de Abril e acelerou a contra-revolução. Talvez porque o essencial das conquistas revolucionárias já foi engolido pela política de direita, a imprensa ligada ao capital deixou de comemorar a data com o seu costumado chorrilho de provocações e calúnias anticomunistas. Alerta agora para a «guerra total» que o PCP teria desencadeado neste momento preciso contra... Sócrates.
Engano do Semanário e de quem o apoiar. O PCP não move guerras pessoais. E, embora as políticas tenham caras e a política de direita seja hoje encabeçada por Sócrates e tutelada por Cavaco Silva, não nos move especial animosidade contra as «pessoas». São as políticas destruidoras de direitos e de liberdades o alvo da luta que o PCP promove e procura dirigir. Uma luta que visa substituir, nesta fase, a política de direita por uma nova, de esquerda, que tenha como objectivo o desenvolvimento do País e uma vida mais digna para os trabalhadores e para as populações.

Deixando de parte as ilusórias «quatro frentes» em que, segundo o Semanário, o PCP se empenha, misturando militares com magistrados, com professores, funcionários públicos e outros trabalhadores, de registar apenas que o jornal a que nos referimos tenta resolver de uma penada o «porquê» desta guerra. Para o PCP, a questão seria uma urgência – ganhar a guerra enquanto ainda estivessem no «activo» os funcionários e os sindicalistas «entrados» para o Estado no Verão quente de 1975! E aqui está, escarrapachado, o presumível motivo da guerra e da escolha da data...
A coisa seria apenas ridícula se não fosse também caluniosa e completamente absurda. O que não deixa, porém, de ser relevante, é o facto de que os media, na generalidade – apesar das manobras de silenciamento e de adulteração dos objectivos das lutas populares –, reconhecem no PCP não apenas o mais firme opositor às políticas lideradas por Sócrates, mas ainda a sua capacidade de mobilização das lutas e de condução de uma política que encontra nos trabalhadores e no povo cada vez mais adesão.

Seríamos pobres, em ambição e em realização, se nos limitássemos a quatro frentes, mesmo admitindo que fossem aquelas a que o articulista alude na sua carregada prosa de politólogo de pacotilha.
E as lutas em defesa da Segurança Social? E as lutas em defesa do Poder Local democrático? E aquelas que se desenvolvem nas fábricas pelo emprego e pelos direitos laborais e contra os despedimentos e deslocalizações? E a grande batalha pela despenalização do aborto? E as outras, nas instituições, que levam propostas de melhoramento da legislação, visando contrariar a histeria neoliberal que pretende transformar o País num mercado e os trabalhadores os reformados em peças descartáveis usadas pelo patronato e pelo Governo para enriquecer os ricos?
Trata-se, de facto de uma «guerra». Com vastas e variadas frentes, todas combatendo pelos direitos, pelas liberdades e pela justiça social. E se, em muitas das batalhas, registamos vitórias, não serão as derrotas – que também não negamos – que nos esmorecem o ânimo. Costumamos afirmar que, sem luta, todas as batalhas estariam perdidas. Com luta, alcançamos sempre alguns objectivos, mesmo parciais, nesta caminhada áspera em direcção ao futuro.

O que sabemos também – e os nossos inimigos e adversários ignoram ou, as mais das vezes, fingem ignorar – é que o PCP, os seus quadros e os seus militantes, sejam eles sindicalistas ou activistas nas diversas frentes, não se substituem nunca às organizações e movimentos sociais, aos sindicatos que lideram ou em que participam, aos trabalhadores nas empresas, aos estudantes nas escolas, aos agricultores nos campos, aos professores, aos médicos, aos profissionais de cada sector. Se o papel dirigente que o PCP procura assumir a cada passo na vida política e social do País não se esgota nas suas funções institucionais, também não são os seus interesses próprios – e de cada um dos seus membros – que estão em jogo, mas sim os interesses e aspirações das massas de portugueses que sofrem as consequências da política de direita para a qual procuramos conquistar uma alternativa democrática. O Partido, reforçando-se na sua organização e na sua linha política, crescendo com o esforço dos seus militantes e com um recrutamento de muitos milhares de novos comunistas saídos precisamente das lutas, reforça-se justamente para poder estar à altura desta guerra à política de direita. O seu protesto, o seu apelo, a sua proposta, encontra eco em cada vez mais largas camadas da população – trabalhadores, mulheres, jovens, reformados. E trá-los aos milhares à rua para exigir a alternativa ao neoliberalismo.

Foi assim que se sucederam, em vagas de uma considerável energia e amplitude, apoiadas pelo PCP sempre presente na frente da batalha, as grandiosas manifestações e greves de professores e de trabalhadores da Administração Pública. Assim foi em 12 de Outubro, no Protesto Geral. Assim também em 25 de Novembro, nas grandes manifestações realizadas em 21 cidades de todo o País, no Continente e nas Ilhas, em que muitas dezenas de milhares vieram à rua lutar pela mudança.
«Teme» o articulista do Semanário que se trate de «uma última cartada» do PCP. Que, «se não subir agora», esteja «liquidado para sempre». Olhe que não. Esta é uma guerra de longa duração. Até à vitória.