Derrota de Bush abre caminho à luta
As eleições de 7 de Novembro, nos EUA, foram uma derrota para a administração Bush. Os eleitores deram uma mensagem clara de ‘Não à guerra’ no Iraque.
«Bush foi obrigado a deixar cair o secretário da Defesa Donald Rumsfeld»
Revoltados com o manifesto desastre no Iraque, a degradação das condições de vida dos trabalhadores e as ameaças da administração Bush à Segurança Social, os eleitores deram um «soco» no Partido Republicano nas eleições intercalares de 7 de Novembro, para usar a própria expressão do presidente George Bush.
Os republicanos perderam a maioria no Congresso, conquistando apenas 203 dos 435 lugares na Câmara dos Representantes, e 49 dos 100 assentos no Senado. Os democratas substituíram ainda os republicanos em seis dos 34 estados que este ano tiveram eleições para governador.
Ver as contorções da agressiva e arrogante quadrilha de Bush após este revés proporcionou uma satisfação há muito esperada em todo o mundo. Então sucedeu algo ainda melhor. No dia a seguir às eleições, Bush foi obrigado a deixar cair o secretário da Defesa Donald Rumsfeld, considerado o arquitecto da guerra no Iraque e uma das figuras mais intimamente identificadas com as tácticas de «choque e terror», de destruição do Iraque e das torturas de Abu Ghraib.
Mas seria um erro pensar que a luta pelo fim da ocupação acabou e que o resultado eleitoral levará automaticamente ao fim da guerra. O Partido Democrático dirigido por Howard Dean deixou claro desde o início que os democratas não exigirão uma retirada imediata. O novo porta-voz da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, disse que os democratas não irão cortar os fundos para o esforço de guerra.
O Iraque não é a única questão destas eleições. Numa sondagem pós-eleitoral, uma percentagem quase idêntica de votantes (45 por cento) referiu a economia como tão importante como a guerra (42 por cento). O caso do Ohio, severamente afectado pelo desemprego e pelo expediente da redução de salários, trabalho não protegido devido ao encerramento de fábricas na «cintura da ferrugem», é elucidativo. Os eleitores puniram os responsáveis republicanos, afastando o governador e o senador que se recandidataram. Nos referendos realizados nos estados do Arizona, Colorado, Missouri, Montana, Nevada e Ohio, as pessoas votaram igualmente a favor do aumento do salário mínimo para o mínimo nacional de $5.15 por hora.
Um referendo distorcido
Mas o Iraque continua no centro das atenções. O dirigente do Partido Democrático decidiu focar a sua campanha nacional na constante crítica à forma como a administração Bush conduz a guerra no Iraque, e manter o Iraque na primeira página dos média. As próprias eleições tornaram-se numa espécie de referendo distorcido sobre a guerra no Iraque, e dizemos distorcido porque os democratas se recusaram por sua vez a assumir uma clara posição contra a guerra. Dois terços dos candidatos do Partido Democrático, dos 45 mais próximos de disputar um lugar na Câmara de Representantes, não só se opõem à retirada do Iraque como se opõem a um calendário de retirada. Apenas um, Peter Welch, de Vermont, apoia o regresso das tropas a casa em 2006. Mas tanto Bush como o vice-presidente Dick Cheney insistem que os EUA devem «manter o rumo» no Iraque e acusam os democratas de pretenderem «fugir a sete pés». Em resultado disso, a maioria dos eleitores acredita que os republicanos são a favor da guerra e os democratas contra a guerra. Isto ajudou grandemente os democratas.
A reacção popular contra a guerra no Iraque, que existe desde que o povo iraquiano encetou a sua resistência contra a impopular e brutal ocupação pelos EUA, aumentou nos meses que antecederam as eleições. Entretanto, parte dos média começou finalmente a centrar as atenções no aumento das baixas entre as tropas norte-americanas e na instabilidade do regime fantoche iraquiano. Ao mesmo tempo, generais e altos responsáveis políticos do Pentágono, incluindo antigos defensores da guerra como o senador John Warner da Virgínia e alguns «neoconservadores» como Richard Perle, expressaram abertamente o seu pessimismo quanto ao desenvolvimento da guerra e o seu criticismo em relação às tácticas da administração Bush. Num sinal do abalado estado de saúde dos republicanos, é significativo que os democratas tenham recolhido $25.9 milhões de dólares num prazo de 18 dias, em Outubro, mais $18.6 milhões do que os republicanos.
Um espaço de luta
Esta divisão em círculo fechado quanto às tácticas de guerra e a crescente desilusão dos ricos com a competência da administração Bush abriu um espaço ao trabalhador comum para manifestar a sua própria oposição à guerra. E fê-lo. Em recentes sondagens, cerca de 60 por cento dos eleitores afirmam-se contra a guerra no Iraque. Em cerca de um terço das cidades do Massachusetts’s, um referendo popular apelando à retirado dos EUA recebeu igualmente cerca de 60 por cento dos votos, num total de meio milhão de votantes. Um referendo idêntico registou ainda uma adesão mais elevada na área de Chicago.
A demissão de Rumsfeld mostra que a administração está na defensiva em relação à guerra. Mas o objectivo de Washington de dominar a região do Médio Oriente é partilhado por republicanos e democratas. Debatem tácticas, mas os planos são para a manutenção das tropas norte-americanas no Iraque e na região por muito tempo.
Para obrigar a quadrilha de Bush a recuar, o Partido Democrata apelou aos sentimentos anti-guerra de milhões de pessoas. Enquanto as batalhas internas continuarem a impedir a resolução da crise no Iraque, continuará a haver necessidade – e oportunidade – de incentivar a intervenção das massas para pôr fim à guerra e à ocupação. O desafio para todos os progressistas nos EUA e para os movimentos anti-guerra em particular é como transformar esta derrota de Bush e a rejeição da guerra pelo seu eleitorado numa luta consequente nas fábricas, escolas, empregos e ruas para exigir ao novo Congresso e à velha Casa Branca que acabem com a guerra.
Rumsfeld despedido
O abrupto despedimento do secretário da Defesa Donald Rumsfeld pelo presidente George W. Bush causou enorme satisfação em todo o mundo. Todos os progressistas acolheram com agrado o afastamento do homem responsável pelas câmaras de tortura de Abu Ghaib, Baghram Air Base e Guantanamo; pela defesa da política separatista da CIA; pelas tácticas de investigação em massa e encarceramento arbitrário de dezenas de milhares de pessoas; pela implementação da guerra e da ocupação que ceifou centenas de milhares de vidas iraquianas, e pela destruição generalizada levada a cabo no Iraque e no Afeganistão. Ele foi desprezado no Iraque, impopular nos Estados Unidos e escarnecido pelas tropas norte-americanas.
Mas não foi por essas razões que Bush o despediu.
Acima de tudo, Rumsfeld foi despedido porque a firme resistência iraquiana destruiu a doutrina Rumsfeld. Esta doutrina consiste em ganhar guerras através da utilização de alta tecnologia, rápida deslocação de forças especiais, e intenso poder aéreo de «choque e terror», evitando assim recorrer ao impopular uso do recrutamento forçado. Esta doutrina subestimou por completo a determinação dos nacionalistas iraquianos em lutar contra a dominação.
A posição de Rumsfeld foi abalada quando a Câmara de Representantes formou o «Grupo de Estudo do Iraque», dirigido por James Baker, conselheiro sénior da administração de George Bush pai, e pelo antigo congressista democrata Lee Hamilton, em 15 de Março último. O objectivo do grupo era descobrir uma forma de o imperialismo norte-americano inverter a derrota no Iraque ou pelo menos reduzir as suas perdas. Mas com Rumsfeld à frente do Pentágono, não havia possibilidade de as propostas deste grupo serem sequer discutidas, quanto mais adoptadas. Assim, a sua primeira tarefa foi eliminar Rumsfeld.
O ataque a Rumsfeld contou com o apoio de amplas camadas do sector militar, revoltadas pelo secretário da Defesa lhes ter imposto uma Missão Impossível: conquistar e submeter os nacionalistas iraquianos. Um cortejo de generais na reforma apelou à demissão de Rumsfeld no início do ano. Agora, dois dias depois das eleições, um editorial conjunto nos quatro mais importantes jornais para militares voltou a apelar à sua demissão. Os jornais – Army Times, Navy Times, Air Force Times e Marine Corps Times – são publicados pelo Military Times Media Group, subsidiário da Gannett Co., e amplamente distribuídos nas bases militares espalhadas por todo o mundo.
O antigo director da CIA, Robert Gates, nomeado para substituir Rumsfeld, vem também da administração de Bush pai e fez parte do «Grupo de Estudo do Iraque». Gates está ligado ao caso «Irão-Contras», ou seja, à compra de armas ao Irão para abastecer os contra-revolucionários que combatiam o governo Sandinista na Nicarágua nos anos oitenta do século passado. Muitos outros do «Grupo de Estudo do Iraque» vêm da administração Bush pai, e têm estado à procura de uma forma de retirar os EUA do atoleiro da guerra sem sacrificar os objectivos a longo prazo do imperialismo norte-americano na região.
Os republicanos perderam a maioria no Congresso, conquistando apenas 203 dos 435 lugares na Câmara dos Representantes, e 49 dos 100 assentos no Senado. Os democratas substituíram ainda os republicanos em seis dos 34 estados que este ano tiveram eleições para governador.
Ver as contorções da agressiva e arrogante quadrilha de Bush após este revés proporcionou uma satisfação há muito esperada em todo o mundo. Então sucedeu algo ainda melhor. No dia a seguir às eleições, Bush foi obrigado a deixar cair o secretário da Defesa Donald Rumsfeld, considerado o arquitecto da guerra no Iraque e uma das figuras mais intimamente identificadas com as tácticas de «choque e terror», de destruição do Iraque e das torturas de Abu Ghraib.
Mas seria um erro pensar que a luta pelo fim da ocupação acabou e que o resultado eleitoral levará automaticamente ao fim da guerra. O Partido Democrático dirigido por Howard Dean deixou claro desde o início que os democratas não exigirão uma retirada imediata. O novo porta-voz da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, disse que os democratas não irão cortar os fundos para o esforço de guerra.
O Iraque não é a única questão destas eleições. Numa sondagem pós-eleitoral, uma percentagem quase idêntica de votantes (45 por cento) referiu a economia como tão importante como a guerra (42 por cento). O caso do Ohio, severamente afectado pelo desemprego e pelo expediente da redução de salários, trabalho não protegido devido ao encerramento de fábricas na «cintura da ferrugem», é elucidativo. Os eleitores puniram os responsáveis republicanos, afastando o governador e o senador que se recandidataram. Nos referendos realizados nos estados do Arizona, Colorado, Missouri, Montana, Nevada e Ohio, as pessoas votaram igualmente a favor do aumento do salário mínimo para o mínimo nacional de $5.15 por hora.
Um referendo distorcido
Mas o Iraque continua no centro das atenções. O dirigente do Partido Democrático decidiu focar a sua campanha nacional na constante crítica à forma como a administração Bush conduz a guerra no Iraque, e manter o Iraque na primeira página dos média. As próprias eleições tornaram-se numa espécie de referendo distorcido sobre a guerra no Iraque, e dizemos distorcido porque os democratas se recusaram por sua vez a assumir uma clara posição contra a guerra. Dois terços dos candidatos do Partido Democrático, dos 45 mais próximos de disputar um lugar na Câmara de Representantes, não só se opõem à retirada do Iraque como se opõem a um calendário de retirada. Apenas um, Peter Welch, de Vermont, apoia o regresso das tropas a casa em 2006. Mas tanto Bush como o vice-presidente Dick Cheney insistem que os EUA devem «manter o rumo» no Iraque e acusam os democratas de pretenderem «fugir a sete pés». Em resultado disso, a maioria dos eleitores acredita que os republicanos são a favor da guerra e os democratas contra a guerra. Isto ajudou grandemente os democratas.
A reacção popular contra a guerra no Iraque, que existe desde que o povo iraquiano encetou a sua resistência contra a impopular e brutal ocupação pelos EUA, aumentou nos meses que antecederam as eleições. Entretanto, parte dos média começou finalmente a centrar as atenções no aumento das baixas entre as tropas norte-americanas e na instabilidade do regime fantoche iraquiano. Ao mesmo tempo, generais e altos responsáveis políticos do Pentágono, incluindo antigos defensores da guerra como o senador John Warner da Virgínia e alguns «neoconservadores» como Richard Perle, expressaram abertamente o seu pessimismo quanto ao desenvolvimento da guerra e o seu criticismo em relação às tácticas da administração Bush. Num sinal do abalado estado de saúde dos republicanos, é significativo que os democratas tenham recolhido $25.9 milhões de dólares num prazo de 18 dias, em Outubro, mais $18.6 milhões do que os republicanos.
Um espaço de luta
Esta divisão em círculo fechado quanto às tácticas de guerra e a crescente desilusão dos ricos com a competência da administração Bush abriu um espaço ao trabalhador comum para manifestar a sua própria oposição à guerra. E fê-lo. Em recentes sondagens, cerca de 60 por cento dos eleitores afirmam-se contra a guerra no Iraque. Em cerca de um terço das cidades do Massachusetts’s, um referendo popular apelando à retirado dos EUA recebeu igualmente cerca de 60 por cento dos votos, num total de meio milhão de votantes. Um referendo idêntico registou ainda uma adesão mais elevada na área de Chicago.
A demissão de Rumsfeld mostra que a administração está na defensiva em relação à guerra. Mas o objectivo de Washington de dominar a região do Médio Oriente é partilhado por republicanos e democratas. Debatem tácticas, mas os planos são para a manutenção das tropas norte-americanas no Iraque e na região por muito tempo.
Para obrigar a quadrilha de Bush a recuar, o Partido Democrata apelou aos sentimentos anti-guerra de milhões de pessoas. Enquanto as batalhas internas continuarem a impedir a resolução da crise no Iraque, continuará a haver necessidade – e oportunidade – de incentivar a intervenção das massas para pôr fim à guerra e à ocupação. O desafio para todos os progressistas nos EUA e para os movimentos anti-guerra em particular é como transformar esta derrota de Bush e a rejeição da guerra pelo seu eleitorado numa luta consequente nas fábricas, escolas, empregos e ruas para exigir ao novo Congresso e à velha Casa Branca que acabem com a guerra.
Rumsfeld despedido
O abrupto despedimento do secretário da Defesa Donald Rumsfeld pelo presidente George W. Bush causou enorme satisfação em todo o mundo. Todos os progressistas acolheram com agrado o afastamento do homem responsável pelas câmaras de tortura de Abu Ghaib, Baghram Air Base e Guantanamo; pela defesa da política separatista da CIA; pelas tácticas de investigação em massa e encarceramento arbitrário de dezenas de milhares de pessoas; pela implementação da guerra e da ocupação que ceifou centenas de milhares de vidas iraquianas, e pela destruição generalizada levada a cabo no Iraque e no Afeganistão. Ele foi desprezado no Iraque, impopular nos Estados Unidos e escarnecido pelas tropas norte-americanas.
Mas não foi por essas razões que Bush o despediu.
Acima de tudo, Rumsfeld foi despedido porque a firme resistência iraquiana destruiu a doutrina Rumsfeld. Esta doutrina consiste em ganhar guerras através da utilização de alta tecnologia, rápida deslocação de forças especiais, e intenso poder aéreo de «choque e terror», evitando assim recorrer ao impopular uso do recrutamento forçado. Esta doutrina subestimou por completo a determinação dos nacionalistas iraquianos em lutar contra a dominação.
A posição de Rumsfeld foi abalada quando a Câmara de Representantes formou o «Grupo de Estudo do Iraque», dirigido por James Baker, conselheiro sénior da administração de George Bush pai, e pelo antigo congressista democrata Lee Hamilton, em 15 de Março último. O objectivo do grupo era descobrir uma forma de o imperialismo norte-americano inverter a derrota no Iraque ou pelo menos reduzir as suas perdas. Mas com Rumsfeld à frente do Pentágono, não havia possibilidade de as propostas deste grupo serem sequer discutidas, quanto mais adoptadas. Assim, a sua primeira tarefa foi eliminar Rumsfeld.
O ataque a Rumsfeld contou com o apoio de amplas camadas do sector militar, revoltadas pelo secretário da Defesa lhes ter imposto uma Missão Impossível: conquistar e submeter os nacionalistas iraquianos. Um cortejo de generais na reforma apelou à demissão de Rumsfeld no início do ano. Agora, dois dias depois das eleições, um editorial conjunto nos quatro mais importantes jornais para militares voltou a apelar à sua demissão. Os jornais – Army Times, Navy Times, Air Force Times e Marine Corps Times – são publicados pelo Military Times Media Group, subsidiário da Gannett Co., e amplamente distribuídos nas bases militares espalhadas por todo o mundo.
O antigo director da CIA, Robert Gates, nomeado para substituir Rumsfeld, vem também da administração de Bush pai e fez parte do «Grupo de Estudo do Iraque». Gates está ligado ao caso «Irão-Contras», ou seja, à compra de armas ao Irão para abastecer os contra-revolucionários que combatiam o governo Sandinista na Nicarágua nos anos oitenta do século passado. Muitos outros do «Grupo de Estudo do Iraque» vêm da administração Bush pai, e têm estado à procura de uma forma de retirar os EUA do atoleiro da guerra sem sacrificar os objectivos a longo prazo do imperialismo norte-americano na região.