A vitória da Europa

Correia da Fonseca
Durante décadas viveram os portugueses apartados da Europa, e em certa medida esse facto terá acabado por gerar uma mitificação da realidade europeia aos olhos dos que, vivendo aqui, se sentiam como um prisioneiro que olha a paisagem através das grades. Neste caso, as grades situavam-se nos Pirinéus e sentíamo-nos entregues aos carcereiros que geriam a repressão salazarista, tal como aqui ao lado se sentia a repressão franquista. Lembro-me de que esta mitificação da Europa como espaço de liberdade política e de civilização que nos era interdita aparece, por exemplo, numa página de Abelaira em «A Cidade das Flores» e num poema de David Mourão-Ferreira. Há-de ter sido por estas e por outras que, há dias, tanto me prendeu a atenção uma informação que colhi no «Euronews». Mesmo resistindo a uma certa mitificação, também possível neste caso, muitas vezes procuro no «Euronews» notícias e informações que me pareçam mais interessantes e até mais credíveis que as fornecidas pelos canais portugueses. Desta vez, o «Euronews» contou-me que uma empresa pesquisadora da chamada opinião pública, trabalhando em colaboração com a Fundação Schumann, quis saber da opinião de cidadãos europeus acerca das relações entre a Europa e os Estados Unidos da América. E que recolheu fundamentalmente a convicção de que, tendo o mundo deixado de ser politicamente bipolar desde a derrota da União Soviética na Guerra Fria, deve a Europa deixar de ser de uma obediência praticamente total perante a liderança norte-americana e fazer o que já tarda: marcar diferenças e fazer valer o seu prestígio civilizacional que não servirá para ganhar guerras mas pode servir para ganhar a Paz. Parece claro que esta resposta estará relacionada com o agora mais que evidente colapso da aventura bushiana no Iraque, mas é certo que tem raízes mais distantes. Talvez um certo e de algum modo justificado orgulho em ser europeu perante o lendário pragmatismo um pouco bárbaro do norte-americanismo. De qualquer modo, perante a informação do «Euronews» ocorreu-me que este seria um bom tema para um debate na TV portuguesa, já que temos vindo a enviar os nossos militares, ainda que no limitado número condizente com a nossa pequenez, para onde Washington manda.

Um outro poder

Como bem se compreende, esta questão tem tudo a ver com a fragilização política da Europa, sequencial à militar, depois da Segunda Guerra Mundial, e encontra empenhado eco em textos de criaturas que parecem possessas de masoquismo e cujo negócio parece ser a desgraça. Contudo, o poder militar está longe de resolver tudo, mesmo quando surge como esmagador, e mais uma vez aí está o Iraque a prová-lo. Quanto à Europa e àquilo que talvez possa ser designado como «o espírito europeu», é bom que afinemos os nossos olhares: não obstante a sua falta de força digamos que bruta, estão espalhados pelo mundo inteiro e de certo modo no âmago da caminhada para o futuro. Neste tempo em que o «boom» tecnológico aparece como decisório, talvez não seja tonto lembrar que na Europa nasceram e cresceram as ciências que alimentam a tecnologia, e que os Estados Unidos fizeram delas um desenvolvimento sem dúvida notável mas em muitíssimos casos graças a cérebros europeus formados na Europa. Mais importante, porém, e mais decisivo a médio/longo prazo é que foi na Europa que nasceu e se desenvolveu o projecto de uma sociedade justa e pacífica (e aqui é preciso lembrar três datas: 1789, 1871 e 1917) a que o planeta tem forçosamente que rumar como única alternativa à destruição. Eram europeus Marx e Engels, e quando hoje vemos que várias dezenas de partidos comunistas e operários, espalhados pelos quatro cantos do mundo, são fiéis à herança de facto cultural que é o marxismo, ficamos certos de que a Europa (essa Grécia ampliada», chamou-lhe Rougemont exactamente para caracterizar o seu poder de irradiação cultural) está viva e poderosa. Poderosa de um poder que não resulta decerto das quase apenas simbólicas armas atómicas da Grã-Bretanha e da França mas sim de qualquer coisa de mais fecundo. Da revolução de 89, ainda hoje tão hostilizada pelos que nela só querem ver o curto período chamado do Terror e da guilhotina, emergiram afinal os Direitos do Homem em que todos querem agora reconhecer-se. Do «Manifesto» veio o apelo à solidariedade internacionalista. De 1917 veio a grande experiência que provou ser possível construir um mundo diferente. Tudo isto é mais que a contribuição da Europa: é o caminho do único futuro possível. É talvez o momento de não encarar os Estados Unidos olhando para cima.


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