Centenário e tom menor

Correia da Fonseca
Ia eu, como decerto alguns outros, a praticar o triste exercício que é o «zapping» dos que, recusando-se à rendição perante a mediocridade generalizada, se obstinam na esperança de encontrar um programa que mereça o nosso tempo, quando numa esquina dos canais fornecidos por cabo deparei com a voz e o rosto de António Cartaxo. Não foi uma total surpresa: sabia que a RTP descobrira, enfim, que António Cartaxo existe, que é um notabilíssimo divulgador da grande música, e que lhe dera um lugarzinho semiclandestino ora na RTPN, em dia e horário nunca firmemente assegurados, ora na «2», aí sempre para lá da fronteira da meia-noite. Em ambos os casos, é claro que António Cartaxo e a sua apaixonada partilha do amor pela música ficam na situação de dar pouco nas vistas, o que parece corresponder a uma espécie de providência cautelar por parte dos militantes da música de repiupiu-bumbum, porventura preocupados com a possibilidade de Cartaxo vir a abrir uma janela por onde alguns telespectadores descubram que no mundo da música há territórios fascinantes que a RTP parece ignorar, decerto porque TV tosca não tem ouvidos. E é uma pena que seja assim. Como muita outra gente, aprendi ouvindo rádio que António Cartaxo nos fala de música, da melhor música, como mais ninguém, em tom e estilo diferentes, decerto adaptados com premeditação para que se revistam do impacto desejado, sendo por isso não apenas de uma eficácia rara mas também um homem precioso. É claro que, fosse este um país diferente e sobretudo fosse a RTP uma estação pública com sentido dos deveres, António Cartaxo teria lugar certo no canal principal e ainda dentro do chamado «prime time». Mas a RTP é, pelo menos em certas matérias, a desgraça que se sabe, e vão longe os tempos em que admitia nos seus estúdios, para nos falar de música em horários de grande audiência, um João Freitas Branco, um António Vitorino de Almeida, um José Atalaya. Assim, no quadro actual, que conceda a António Cartaxo um lugarzinho acanhado em canais pouco frequentados pelo telepúblico, como a «2» e a RTPN, talvez lhe pareça uma generosidade que por um lado lhe permite alegar que também tem apreço pela grande música e por outro lado não implica o risco de corromper o gosto musical dos cidadãos com hábitos mais próprios de negregados «pseudo-intelectuais» sempre suspeitos de tentações de esquerda. Aliás, é natural que alguns da RTP tenham sabido que Beethoven, Prokofiev, Copland, Chostakovich e Martinu já «foram» à Festa do Avante! e por aí tenham concluído sabiamente que a esse tipo de gente não se pode dar muito tempo de antena.

O pior, sempre possível

Porém, desta vez há um dado que implica responsabilidades maiores, digamos assim, para a RTP: é que o programa de Cartaxo a que tive acesso quase que por uma casualidade feliz tinha por tema Fernando Lopes-Graça e a sua grandeza artística e humana. Ora, acontece que neste ano de 2006 não apenas se completam quarenta anos sobre a epopeia dos lusos «magriços» no Mundial de Futebol havido em Londres, gloriosa página que a RTP abundantemente lembrou, como também ocorre o centenário do nascimento de Lopes-Graça. As coisas são o que são, mesmo quando não nos convém muito: Fernando Lopes-Graça foi um compositor de primeiríssima grandeza não só à escala portuguesa mas também à dimensão internacional e, para mais, um cidadão exemplar, comunista, autor de um cancioneiro de resistência antifascista que em muitos momentos foi como bandeira desfraldada aos ventos da esperança e do combate cívico. Perante isto, que não será tudo mas já não é pouco, é completamente impensável que a participação da RTP nas comemorações do seu centenário se limite a uns programas confiados a um especialista excelente mas arrumados em canais de menor audiência; mas já é mau sintoma que, decorrida mais de metade do ano, seja por essa via que chegam (a quem chegam…) os primeiros sinais dignos de que a efeméride não está remetida para as lonjuras do esquecimento. Temos, pois, dois aspectos pelo menos inquietantes: o subaproveitamento dos méritos de António Cartaxo e a aparente tendência para menorizar a importância do centenário. É claro que ainda é tempo de rectificar um e outro, mas é inevitável que se receie o pior: o currículo da RTP não encoraja grandes expectativas. Quem olha a TV com olhos de ver e tanto quanto possível cabeça de entender, quem além disso as aplica a comentar o que vê e a notar o que não vê, não pode deixar de deixar um registo de preocupação pouco optimista. Que, como se vê, aqui fica.


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