- Nº 1696 (2006/06/1)

A vergonha de Guantanamo

Internacional

Afinal, os Estados Unidos têm razão. Em Cuba tortura-se. E quem tortura são precisamente os norte-americanos, em Guantanamo, um território sob a administração gringa desde 1903, onde o imperialismo mantém uma base militar apontada ao coração do povo cubano. Coisas dos «campeões dos direitos humanos»!
Thomas Wilner, um advogado estadunidense que defende seis sequestrados kuwatis, conta como é e começa por revelar que teve de esperar 30 meses até um primeiro contacto com o seu cliente, já que o isolamento dos presos é uma forma refinada de tortura psicológica, a que se juntam outras formas fisicamente arrasadoras, que levam os detidos a procurarem desesperadamente o suicídio como forma de pôr fim a tormentos e humilhações inenarráveis. «O que presenciei – narra Wilner – é um inferno cruel e aterrador de cimento armado e de arame farpado que se converteu no pesadelo diário de quase 500 pessoas (...) sem acusação nem processo durante mais de quatro anos».
Nenhum dos seis prisioneiros que Thomas Wilner defende foi capturado junto das Torres Gémeas ou nalgum campo de batalha, nem acusado de qualquer actividade
contra Washington. Estão ali porque algum caudilho do Paquistão ou do Afeganistão cedeu às recompensas monetárias de Bush e os vendeu por preços que vão de 5 mil a 245 mil dólares. Isto não é inventado e já foi revelado, por exemplo, pelo News Week e ABC News. Os dossiers dos presos são ridículos e resultado de acusações inaceitáveis em qualquer tribunal. Um deles, por exemplo, está acusado de ter contactado dois suspeitos de pertencerem a Al Qaeda. Isto num mesmo dia e em duas cidades separadas por milhares de quilómetros! Outros foram apanhados com «provas» irrefutáveis. Levavam no pulso um determinado modelo de relógio Cássio, que «é usado por muitos
terroristas»! Wilner informa-nos, contudo, que esse mesmo modelo de relógio era usado pelo capelão militar de Guantanamo, também muçulmano.

Eu sei a verdade

«Quando me encontrei pela primeira vez com os meus clientes – relata o advogado –, eles não tinham visto nem falado com os seus familiares há mais de três anos, mas já tinha sido interrogados centenas de vezes. Vários deles suspeitavam de nós: disseram-nos que tinham sido interrogados por pessoas que afirmavam ser seus advogados mas não o eram». Para se identificar como verdadeiro advogado, Wilner teve de mostrar aos seus clientes um DVD onde apareciam familiares seus a declarar nesse sentido. Foi um momento comovedor.
Vários dos presos, continua o advogado, «choraram ao ver os seus familiares pela primeira vez depois de anos. Um deles já era pai e nunca tinha visto o filho. Outro reparou que o pai não estava no DVD e tivemos de lhe dizer que tinha falecido».
Em Guantanamo a tortura forma parte da ementa diária, mas a dieta começa nos campos do Paquistão e do Afeganistão sob a jurisdição norte-americana. Alguns são pendurados pelos pulsos, outros pelos tornozelos. De uma forma ou de outra são espancados e sofrem choques eléctricos. Fayiz Al Kandari partiu do Paquistão com uma «lembrança» especial: quebraram-lhe as costelas.
Fawzy Al Odah é um jovem de 25 anos precocemente envelhecido. No decurso de uma greve de fome para exigir ser acusado de algum crime depois de quatro anos de cativeiro, desmaiou. «Os guardas – relata Wilner – começaram a alimentá-lo à força, a través de tubos que iam do nariz ao estômago. (...) Fawzi disse-me que isso era muito doloroso. Quando tratou de tirar os tubos, amarraram-no com uma correia ao catre, enquanto muitos guardas lhe agarravam a cabeça, o que era ainda mais doloroso». Depois de relatar o calvário que sofreu Fawzi durante meses de greve de fome, Wilner voltou a ver o seu cliente, e refere assim o reencontro: «Olhou-me com tristeza e disse: ‘Torturaram-nos para que parássemos’.»
Durante a greve de fome, Fawzy foi privado de algumas «comodidades», como o cobertor, a toalha e os sapatos. No dia 9 de Janeiro (2006), porque não suspendia a greve, segundo o artigo de Thomas Wilner, que estamos a seguir, «apresentou-se um oficial para anunciar que todo o preso que se negasse a comer iria para à ‘cadeira’. O oficial advertiu que os presos seriam amarrados com uma corda a um mecanismo que lhe puxaria a cabeça para trás, e lhes introduziriam e retirariam os tubos à força em cada alimentação. ‘Vamos a acabar com esta greve da fome´ berrou o oficial».
Fawzy é hoje um homem desesperado que não pode sequer negar-se a comer para chamar a atenção sobre o seu caso. «O governo, conclui Wilner, continua a negar que exista alguma injustiça em Guantanamo. Mas eu sei a verdade».

Pedro Campos