Recordar a rendição nazi há 61 anos com

«O Jogo da Morte»

José Augusto
O mundo vai assinalar, no próximo dia 8 de Maio (*), o 61.º aniversário do fim da II Guerra Mundial. Foi o conflito mais sangrento de que a História da Humanidade tem memória. São conhecidas as causas, são conhecidos os seus heróis, são conhecidas, também desde há muito, as pequenas e grandes traições perpetradas pelos Aliados durante e logo após a carnificina. A Alemanha nazi, nessa noite de 8 de Maio de 1945, assinou a sua capitulação incondicional.
Não é nesses capítulos que me deterei, portanto, mas nunca é perder tempo lembrar, sobretudo às gerações mais jovens, que por muitos filmes que os norte-americanos façam sobre essa guerra, de que saem sempre de fardas limpas, cabelo abrilhantado e um sorriso de vitória nos lábios, por muitos aviões que ponham a voar nas pantalhas sobre as cidades alemãs, por muitas batalhas românticas que rodem nos arredores pinturescos de Holywood, a verdade é só uma: foi o glorioso Exército Vermelho e os comunistas e democratas dos vários países europeus, organizados para esse combate sem tréguas quase sempre sob a forma de guerrilha, que destroçaram os exércitos de Hitler e salvaram a Humanidade da barbárie.
Esta guerra desencadeada pelos nazis, que envolveu dois terços da humanidade e 110 milhões de homens, causou perdas humanas, materiais, afectivas e outras sem precedentes. A URSS sacrificou 20 milhões de filhos; outros países foram também fortemente castigados: Polónia 6 milhões de vítimas; Jugoslávia, 1 milhão e 700 mil; França, 600 mil; Inglaterra, 370 mil; Estados Unidos, 300 mil.
Do outro lado, a guerra custou à Alemanha 13 milhões de mortos, feridos ou desaparecidos, enquanto as baixas da Itália ascenderam a 500 mil. É na frieza deste balanço, porque para lá de cada número da guerra há uma miríade de dramas, que deviam atentar os fazedores de conflitos. O mesmo deviam fazer, ainda que por outras razões”, aqueles que só agora despertam para a vida, desprovidos ainda dos necessários filtros de desintoxicação cinematográfica e informativa.
Nesta guerra, aconteceu um episódio desportivo, se assim lhe quisermos chamar, que vale a pena ser contado, para vermos até onde pode alcançar a crueldade dos dominantes, sobretudo, quando essa crueldade é suscitada por uma ideologia assente na superioridade da natureza de seres humanos sobre outros seres humanos.
A Ucrânia vivia sob domínio alemão. O Inverno de 1941/42, de frio e de fome, era pretérito e a Primavera entrara com toda a sua pujança, como é característico naquelas regiões. A população das cidades corria para as aldeias, onde trocava objectos por coisas de meter à boca.
Entretanto, também os jogadores do Dínamo e do Lokomotiv de Kiev começaram a treinar, nos arrabaldes da cidade. Perto havia uma grande fábrica de panificação, onde trabalhavam. A ração dos habitantes era de 200 gramas de pão de trigo, enquanto os padeiros e os jogadores tinham como bónus 200 gramas de pão de farelo.
Querendo dar «circo» à população descontente, o comando alemão convidou aqueles jogadores a defrontarem um conjunto de uma unidade alemã. As partes entenderam-se e o desafio foi aprazado para as 17:30 horas do dia 12 de Maio de 1942, no estádio «Bolchaia Vassilievskaia», a estrear. Os alemães sofreram uma derrota humilhante, e só usámos este epíteto antidesportivo porque se estava em guerra.
Os nazis não se dão por vencidos e apresentam cinco dias depois um conjunto formado por jogadores de uma divisão de panzers. Perderam por 6:0. A baliza dos ucranianos foi defendida por Nicolai Turssevitch, na altura um dos melhores guarda-redes da URSS.
Numa tentativa desesperada para salvar a face, o comando alemão chamou a Kiev uma equipa da Luftwaff, a Flakelf, considerada muito forte. Os jogadores ucranianos hesitaram, pois tinham consciência de que o caso se estava a tornar sério e já nada tinha a ver com desporto. Os fascistas deram-lhe três dias para pensar. O jogo deu-se a 9 de Agosto e, apesar de toda a pressão a que estavam submetidos, os ocupantes voltaram a ser derrotados. Chegara a hora da vingança. A maioria dos jogadores foi levada para Babi Iar e aí fuzilada. Ivan Kuzmenko, Nicolai Turssevitch, Alexei Klimenko e Nicolai Korpotkitch morreram encostado à parede de fuzilamento. Saber jogar futebol é o único crime de que poderiam acusá-los. Makar Gonthcarenko sobreviveu. Foi este o «Jogo da Morte», nome posto pelos historiadores da II Guerra Mundial.
Há um filme chamado Vitória inspirado neste caso verídico. São protagonistas Silvester Stallone e Pelé. Pelos actores, não vale a pena procurá-lo. Para perceber até onde chegou o ódio nazi, isso é falar de outra coisa.

(*) A rendição incondicional da Alemanha comemora-se na Rússia e nos países do Leste a 9 de Maio. A razão da discrepância de datas é a diferença horária existente entre o ocidente e o oriente da Europa na altura da assinatura do documento.


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