Tragédia no horizonte
Nas últimas semanas a crise mundial agravou-se perigosamente.
A ameaça de uma nova guerra dita «preventiva», isto é de uma agressão imperial contra um Estado soberano, no caso o Irão, é inseparável da crise estrutural do capitalismo. A potência que hegemoniza o sistema, os EUA, não consegue encontrar soluções para esta crise. O país mais poderoso e rico do mundo é hoje uma nação parasita que consome muito mais do que produz. É um facto que o dólar permanece como moeda mundial, mas o gigantismo dos déficits do Orçamento e Comercial e a colossal dívida externa (a maior de todas) deixa transparecer a fragilidade da ditadura do bilhete verde.
A inexistência de uma saída compatível com a lógica do capitalismo gera o desespero na extrema-direita estadounidense que controla hoje a Casa Branca e o Pentágono. O malogro interno e externo da globalização neoliberal levou a opções que - como bem assinalou Samir Amin no Fórum de Bamako - estão a gerar o caos.
A histeria crescente do grupo de fanáticos que controla as alavancas do poder político em Washington traduz a consciência da crise. Mas, tal como aconteceu no III Reich nazi, em vez de renunciarem à estratégia de dominação universal, Bush e os seus mentores intelectuais optam pelo aprofundamento de uma escalada de violência que encontra a sua expressão numa política de terrorismo de Estado que ameaça inclusive a continuidade da vida na Terra.
O projecto de uma agressão militar ao Irão é muito anterior à eleição de George W. Bush. O apoio militar e financeiro dos EUA a Sadam Hussein quando o Iraque atacou e invadiu aquele país, na época do Ayatollah Khomeini, foi público e ostensivo. Como o desfecho não correspondeu ao objectivo, sucessivos planos foram elaborados em Washington visando a destruição do regime instalado em Teerão e o posterior controlo político e económico do país pelos EUA.
O projecto, no contexto de uma estratégia global para a Ásia Central, foi desengavetado após a ocupação do Iraque.
No último ano o tema de uma guerra «preventiva» contra o Irão mereceu uma atenção permanente dos média dos EUA. Colunistas prestigiados, alguns progressistas como o britânico Robert Fisk – citando inclusive documentos secretos do Pentágono-, anunciaram como iminente um ataque devastador contra alvos estratégicos daquele país.
Mas a agressão não se concretizou. Os projectos foram adiados sine dia e os planos reelaborados. Motivo: com a situação caótica existente no Iraque, bombardeamento sem ataque terrestre simultâneo não teria significado militar. O alto comando das Forças Armadas dos EUA informou a Casa Branca de que o Exército não tinha condições mínimas para iniciar uma guerra convencional contra o Irão.
Projecto de agressão
Significativamente foi divulgado por diferentes órgãos de comunicação um relatório secreto encomendado pelo Pentágono a Andrew Krepinevich. Nesse estudo, aquele general na reserva afirma que o Exército dos EUA atravessa uma crise profunda em consequência da sua incapacidade para derrotar a resistência iraquiana. A síndrome vietnamita voltou, minando o moral dos oficiais e soldados, que seria cada vez mais baixo.
O documento desencadeou uma polémica em que interveio o secretário da Defesa, Rumsfeld, mas o Pentágono não esconde a sua oposição a qualquer plano que inclua o envolvimento de forças da US ARMY em território iraniano. Uma alternativa modesta limitaria a ofensiva à ocupação – a partir do Sul do Iraque - de uma estreita faixa da província do Khuzistão onde se concentram grandes campos petrolíferos, refinarias e portos. Mas essa variante é também considerada inviável pelos especialistas militares. Provocaria uma guerra de longa duração, ampliando a onda de anti-americanismo em todo o mundo islâmico.
Os EUA poderiam, utilizando a Força Aérea e a Marinha, destruir com os seus mísseis cidades e infra-estruturas científicas e industriais, mas não dispõem de tropas terrestres capazes de sustentar uma guerra de desgaste num país densamente povoado, com uma superfície três vezes superior à da França.
Se, três anos transcorridos sobre a ocupação de Bagdad, o seu exército de ocupação, com mais de 150 000 homens - além de milhares de tropas aliadas e de mercenários - não consegue fazer frente com êxito à Resistência Iraquiana, como poderia manter-se no Irão, onde um povo muito mais homogéneo, de 65 milhões, revelou ao longo de 25 séculos uma forte consciência nacional e se assume como herdeiro de uma civilização brilhante cuja contribuição para o progresso da humanidade foi importantíssimo?
Essa evidência acabou por se impor ao presidente dos EUA e ao punhado de colaboradores que concebeu a estratégia das guerras «preventivas». Mas a alternativa à guerra convencional com que sonhavam é ainda mais perigosa. O projecto de agressão persiste. Com uma alteração que o transforma em ameaça global à humanidade. Aumentam os temores de que Bush, Cheney, Rumsfeld e Condoleeza Rice optem por um ataque a objectivos iranianos a fixar, recorrendo a armas nucleares tácticas.
No momento procuram sondar as reacções de governos tradicionalmente aliados, os dos grandes da União Europeia, do Japão, do Canadá e da Austrália.
Merece reflexão a intempestiva atitude de Condoleeza Rice ao tornar pública a oposição frontal de Washington a um acordo entre Teerão e Moscovo que permitiria o enriquecimento na Rússia para fins pacíficos do urânio iraniano.
A secretária de Estado somente não pode confessar que os EUA se opõem a qualquer saída para o contencioso que tenha por objectivo a defesa da paz na Região. Porque Washington quer levar a guerra ao Irão por motivos que são alheios ao dossier nuclear.
Tomar posse das riquezas do país, sobretudo do petróleo, e assumir o controle pleno do Estreito de Ormuz, é uma ambição antiga do sistema de poder norte-americano. A eleição de Mahmud Ahmadinejad reforçou-a. O novo presidente logo começou a ser satanizado como fundamentalista perigoso, acumpliciado com o terrorismo. Para Bush é inaceitável que Ahmadinejad seja um patriota empenhado em defender a independência do Irão, como Estado soberano. E considera alarmante a sua decisão de instalar em Teerão, a partir do próximo dia 20 ou 22 do mês corrente, uma Bolsa inédita na qual o petróleo seria negociado em euros. Washington identifica nessa iniciativa uma medida que poderia contribuir a curto prazo para o fim da hegemonia do dólar.
Daí a opção da extrema-direita estadonidense pela guerra, mesmo com recurso a armas nucleares.
Está criada assim uma situação de uma complexidade e gravidade com poucos precedentes desde a segunda guerra mundial.
Ameaça nuclear
A Rússia, para a qual a sobrevivência do Irão como Estado independente é um objectivo estratégico prioritário, tem adoptado uma atitude prudente na crise. Mas já deixou bem claro que condena o recurso à força, ao manifestar a sua oposição à eventual aplicação de sanções a Teerão pelo Conselho de Segurança da ONU. A China, que tem mantido relações cordiais com o Irão, precisa muito do seu petróleo.
Israel, ainda órfã de Sharon, não parece disponível, segundo os próprios jornais conservadores de Telavive, a cumprir o papel que Washington gostaria de lhe atribuir. Seriam grandes os riscos se aceitasse funcionar como instrumento de Bush, utilizando o seu poder nuclear contra o Irão.
Somente o fanatismo cego impede Bush e a sua gente de compreender que a utilização de armas nucleares contra o Irão desencadearia uma vaga de indignação mundial de proporções inéditas.
No Japão, o trauma de Hiroshima permanece bem vivo. Na Europa, qualquer tipo de cumplicidade, mesmo passiva, de governos de países com arsenais nucleares, como o da Grã- Bretanha e o da França, seria insustentável perante a reacção popular.
Por ora são muitas as incógnitas. O Conselho de Segurança reúne-se nos próximos dias. Tudo indica que, a ser apresentado qualquer projecto de resolução propondo a aplicação de sanções ao Irão, a Rússia o vetaria. E não parece provável que os EUA ousem desfechar um ataque antecipando-se ao debate. Mas as decisões da engrenagem de poder que controla a Casa Branca são imprevisíveis.
É admissível que a irracionalidade inerente à estratégia neofascista da política externa dos EUA empurre Bush e os cérebros perturbados que o assessoram para a convicção de que a difusão no planeta de um grande pavor após um «castigo nuclear» infligido ao Irão convenceria finalmente a humanidade de que não tem alternativa para a submissão total ao poder imperial da potência hegemónica.
Seria um erro enorme e irreparável. Nem o funcionamento dos mecanismos de um sistema mediático perverso que contribui para a desinformação das sociedades e a robotização crescente do homem, desfibrando-o, evitaria o isolamento dos EUA e a condenação universal do crime. Porque os povos não aceitariam passivamente uma Hiroshima do século XXI.
É angustiante a crise de civilização que vivemos. O assalto à razão configurado pelo terrorismo de Estado demencial da direita neofascista dos EUA carrega a ameaça de uma tragédia cujo desfecho poderia assumir os contornos de um apocalipse da humanidade.
A histeria crescente do grupo de fanáticos que controla as alavancas do poder político em Washington traduz a consciência da crise. Mas, tal como aconteceu no III Reich nazi, em vez de renunciarem à estratégia de dominação universal, Bush e os seus mentores intelectuais optam pelo aprofundamento de uma escalada de violência que encontra a sua expressão numa política de terrorismo de Estado que ameaça inclusive a continuidade da vida na Terra.
O projecto de uma agressão militar ao Irão é muito anterior à eleição de George W. Bush. O apoio militar e financeiro dos EUA a Sadam Hussein quando o Iraque atacou e invadiu aquele país, na época do Ayatollah Khomeini, foi público e ostensivo. Como o desfecho não correspondeu ao objectivo, sucessivos planos foram elaborados em Washington visando a destruição do regime instalado em Teerão e o posterior controlo político e económico do país pelos EUA.
O projecto, no contexto de uma estratégia global para a Ásia Central, foi desengavetado após a ocupação do Iraque.
No último ano o tema de uma guerra «preventiva» contra o Irão mereceu uma atenção permanente dos média dos EUA. Colunistas prestigiados, alguns progressistas como o britânico Robert Fisk – citando inclusive documentos secretos do Pentágono-, anunciaram como iminente um ataque devastador contra alvos estratégicos daquele país.
Mas a agressão não se concretizou. Os projectos foram adiados sine dia e os planos reelaborados. Motivo: com a situação caótica existente no Iraque, bombardeamento sem ataque terrestre simultâneo não teria significado militar. O alto comando das Forças Armadas dos EUA informou a Casa Branca de que o Exército não tinha condições mínimas para iniciar uma guerra convencional contra o Irão.
Projecto de agressão
Significativamente foi divulgado por diferentes órgãos de comunicação um relatório secreto encomendado pelo Pentágono a Andrew Krepinevich. Nesse estudo, aquele general na reserva afirma que o Exército dos EUA atravessa uma crise profunda em consequência da sua incapacidade para derrotar a resistência iraquiana. A síndrome vietnamita voltou, minando o moral dos oficiais e soldados, que seria cada vez mais baixo.
O documento desencadeou uma polémica em que interveio o secretário da Defesa, Rumsfeld, mas o Pentágono não esconde a sua oposição a qualquer plano que inclua o envolvimento de forças da US ARMY em território iraniano. Uma alternativa modesta limitaria a ofensiva à ocupação – a partir do Sul do Iraque - de uma estreita faixa da província do Khuzistão onde se concentram grandes campos petrolíferos, refinarias e portos. Mas essa variante é também considerada inviável pelos especialistas militares. Provocaria uma guerra de longa duração, ampliando a onda de anti-americanismo em todo o mundo islâmico.
Os EUA poderiam, utilizando a Força Aérea e a Marinha, destruir com os seus mísseis cidades e infra-estruturas científicas e industriais, mas não dispõem de tropas terrestres capazes de sustentar uma guerra de desgaste num país densamente povoado, com uma superfície três vezes superior à da França.
Se, três anos transcorridos sobre a ocupação de Bagdad, o seu exército de ocupação, com mais de 150 000 homens - além de milhares de tropas aliadas e de mercenários - não consegue fazer frente com êxito à Resistência Iraquiana, como poderia manter-se no Irão, onde um povo muito mais homogéneo, de 65 milhões, revelou ao longo de 25 séculos uma forte consciência nacional e se assume como herdeiro de uma civilização brilhante cuja contribuição para o progresso da humanidade foi importantíssimo?
Essa evidência acabou por se impor ao presidente dos EUA e ao punhado de colaboradores que concebeu a estratégia das guerras «preventivas». Mas a alternativa à guerra convencional com que sonhavam é ainda mais perigosa. O projecto de agressão persiste. Com uma alteração que o transforma em ameaça global à humanidade. Aumentam os temores de que Bush, Cheney, Rumsfeld e Condoleeza Rice optem por um ataque a objectivos iranianos a fixar, recorrendo a armas nucleares tácticas.
No momento procuram sondar as reacções de governos tradicionalmente aliados, os dos grandes da União Europeia, do Japão, do Canadá e da Austrália.
Merece reflexão a intempestiva atitude de Condoleeza Rice ao tornar pública a oposição frontal de Washington a um acordo entre Teerão e Moscovo que permitiria o enriquecimento na Rússia para fins pacíficos do urânio iraniano.
A secretária de Estado somente não pode confessar que os EUA se opõem a qualquer saída para o contencioso que tenha por objectivo a defesa da paz na Região. Porque Washington quer levar a guerra ao Irão por motivos que são alheios ao dossier nuclear.
Tomar posse das riquezas do país, sobretudo do petróleo, e assumir o controle pleno do Estreito de Ormuz, é uma ambição antiga do sistema de poder norte-americano. A eleição de Mahmud Ahmadinejad reforçou-a. O novo presidente logo começou a ser satanizado como fundamentalista perigoso, acumpliciado com o terrorismo. Para Bush é inaceitável que Ahmadinejad seja um patriota empenhado em defender a independência do Irão, como Estado soberano. E considera alarmante a sua decisão de instalar em Teerão, a partir do próximo dia 20 ou 22 do mês corrente, uma Bolsa inédita na qual o petróleo seria negociado em euros. Washington identifica nessa iniciativa uma medida que poderia contribuir a curto prazo para o fim da hegemonia do dólar.
Daí a opção da extrema-direita estadonidense pela guerra, mesmo com recurso a armas nucleares.
Está criada assim uma situação de uma complexidade e gravidade com poucos precedentes desde a segunda guerra mundial.
Ameaça nuclear
A Rússia, para a qual a sobrevivência do Irão como Estado independente é um objectivo estratégico prioritário, tem adoptado uma atitude prudente na crise. Mas já deixou bem claro que condena o recurso à força, ao manifestar a sua oposição à eventual aplicação de sanções a Teerão pelo Conselho de Segurança da ONU. A China, que tem mantido relações cordiais com o Irão, precisa muito do seu petróleo.
Israel, ainda órfã de Sharon, não parece disponível, segundo os próprios jornais conservadores de Telavive, a cumprir o papel que Washington gostaria de lhe atribuir. Seriam grandes os riscos se aceitasse funcionar como instrumento de Bush, utilizando o seu poder nuclear contra o Irão.
Somente o fanatismo cego impede Bush e a sua gente de compreender que a utilização de armas nucleares contra o Irão desencadearia uma vaga de indignação mundial de proporções inéditas.
No Japão, o trauma de Hiroshima permanece bem vivo. Na Europa, qualquer tipo de cumplicidade, mesmo passiva, de governos de países com arsenais nucleares, como o da Grã- Bretanha e o da França, seria insustentável perante a reacção popular.
Por ora são muitas as incógnitas. O Conselho de Segurança reúne-se nos próximos dias. Tudo indica que, a ser apresentado qualquer projecto de resolução propondo a aplicação de sanções ao Irão, a Rússia o vetaria. E não parece provável que os EUA ousem desfechar um ataque antecipando-se ao debate. Mas as decisões da engrenagem de poder que controla a Casa Branca são imprevisíveis.
É admissível que a irracionalidade inerente à estratégia neofascista da política externa dos EUA empurre Bush e os cérebros perturbados que o assessoram para a convicção de que a difusão no planeta de um grande pavor após um «castigo nuclear» infligido ao Irão convenceria finalmente a humanidade de que não tem alternativa para a submissão total ao poder imperial da potência hegemónica.
Seria um erro enorme e irreparável. Nem o funcionamento dos mecanismos de um sistema mediático perverso que contribui para a desinformação das sociedades e a robotização crescente do homem, desfibrando-o, evitaria o isolamento dos EUA e a condenação universal do crime. Porque os povos não aceitariam passivamente uma Hiroshima do século XXI.
É angustiante a crise de civilização que vivemos. O assalto à razão configurado pelo terrorismo de Estado demencial da direita neofascista dos EUA carrega a ameaça de uma tragédia cujo desfecho poderia assumir os contornos de um apocalipse da humanidade.