
- Nº 1684 (2006/03/9)
Hipocrisias nucleares
Opinião
Na véspera da recente reunião da Agência Internacional para a Energia Atómica (AIEA), o Embaixador dos EUA na ONU, John Bolton, lançou ameaças sérias: «Deve ser tornado claro ao regime do Irão que se prosseguir na via do isolamento internacional, haverá consequências palpáveis e dolorosas. [...] Devemos estar preparados [...] para usar todos os instrumentos ao nosso dispôr para travar a ameaça que o regime iraniano representa» (Reuters, 5.3.06). Outro destacado belicista dos EUA, o Senador McCain, foi mais claro: «só há uma coisa pior do que uma acção militar, e isso é um Irão armado com armas nucleares» (Reuters, 4.2.06). Em linguagem de Holywood, podemos dizer que estamos a assistir ao lançamento do novo filme de ficção americano “Armas de Destruição em Massa – II”, a que se seguirá a milésima produção de “O Exterminador Implacável”.
Alguns dirão que «desta vez» há um perigo real, e que as declarações pouco avisadas do Presidente iraniano assim o provam. O Presidente Ahmadinejad foi eleito em Junho de 2005. O discurso de Bush colocando o Irão no “Eixo do Mal” data de Janeiro de 2002. E não é difícil descobrir artigos como o do Christian Science Monitor de 28.11.03, com o título: «Israel: o Irão é agora o perigo número 1» e o subtítulo: «EUA, Grã Bretanha, França e Alemanha ameaçaram na segunda-feira o Irão com sanções a propósito do seu programa nuclear». Já então se falava na possibilidade de «Israel tomar acções pre-emptivas», bombardeando a central nuclear iraniana. É caso para perguntar se há ameaças por causa de Ahmadinejad, ou se há Ahmadinejad por causa das ameaças.
A hipocrisia das potências imperialistas é estonteante. Os EUA são o único país que já usou armas nucleares – e contra alvos civis. Não se ouvem declarações de preocupação, ameaças de sanções ou de guerras contra o Israel nuclear. E no entanto Israel é um rogue State, um Estado que viola o Direito internacional e múltiplas resoluções da ONU, que chacina palestinianos aos milhares, que já atacou e ocupou territórios de todos os seus países vizinhos e impede a criação de um Estado palestino. E é também uma potência proliferadora, tendo ajudado a então África do Sul de apartheid a desenvolver armas nucleares. Ao contrário do Irão – que afirma não querer desenvolver armas nucleares, mas apenas um programa energético nuclear - Israel não é signatário do Tratado de Não-Proliferação nuclear, nem admitiu nunca inspecções às suas instalações. Tal como a India, que tendo recentemente desenvolvido armas nucleares, se viu agora beneficiada com um acordo nuclear com os EUA durante a visita de Bush, seguramente na perspectiva de vir a aliciar esse país para uma «aliança anti-China» (Asia Times, 4.3.06). Ao contrário do que acontece com o Sol, as «preocupações» nucleares imperialistas, quando nascem, não são para todos.
E vale a pena ler com atenção o discurso do Presidente francês no dia 19 de Janeiro deste ano, ao visitar o quartel-geral das forças estratégicas (nucleares) francesas. Reservando-se o direito de usar armas nucleares, até em resposta a «acções terroristas» não-nucleares (!), Chirac fala no «surgimento de novas fontes de desequilíbrio, em particular na partilha de matérias primas, a distribuição de recursos naturais e alterações demográficas». E acrescenta: «para nos fazermos ouvir, temos de ser capazes de usar a força quando necessário. Temos por isso de ter meios substanciais para intervir fora das nossas fronteiras, com meios convencionais [...]. Uma tal política de defesa assenta na certeza de que, aconteça o que acontecer, os nossos interesses vitais permanecerão salvaguardados. É este o papel da dissuasão nuclear [...]. A dissuasão nuclear permanece a garantia fundamental da nossa segurança. De onde quer que surjam as pressões, dá-nos a capacidade de manter a nossa liberdade de agir, de controlar a nossa política». Em resumo: «queremos poder atacar impunemente». Está aqui a essência da política nuclear das potências imperialistas.
Jorge Cadima