Enfim, a opinião

Correia da Fonseca
A série «Bocage» aproxima-se do fim e nestas duas colunas ainda não lhe foi feita qualquer referência, ao contrário aliás do que tem acontecido nas duas colunas vizinhas, onde lhe têm sido feitas alusões francamente positivas, e ainda bem. A questão é que uma longa e por vezes amarga experiência ensinou que é por vezes imprudente aplaudir uma série após os episódios iniciais, pois é menos raro do que seria desejável o surgimento, a dada altura, de alguma coisa parecida com uma ampola de veneno que obviamente transtorna a avaliação que havia sido feita e a tácita recomendação que ela implicava. No caso de «Bocage», poderá dizer-se que sempre seria improvável que no meio de qualquer episódio viesse o poeta, pela voz de Miguel Guilherme, ou qualquer outra personagem, pregar contra o comunismo ou fazer o elogio da desregulamentação em economia de mercado. Porém, nos tempos que vão correndo nunca se sabe, e em verdade vos digo que ao longo dos anos que levo disto já vi coisas semelhantes ou muito próximas de o serem. De qualquer modo, é claro que tudo tem limites, não só a liberdade de expressão mas também a prudência de quem se atreve a comentários mais ou menos críticos; e, tendo «Bocage» chegado ao ponto a que já chegou, parece praticamente impossível que nos surpreenda com qualquer feia acção que nos leve a arrependermo-nos por termos escrito o que é a súmula fácil mas fundamental: que «Bocage» é um trabalho esplêndido, embora naturalmente não perfeito. Aliás, desde garoto que ouço dizer que perfeito só o Criador, e ainda assim é o que muitas vezes se vê quando contemplamos o que ele criou, segundo consta, à sua imagem e semelhança.

Ideias: as novas e as velhas

Factor decisivo para que viesse hoje formular uma espécie de veredicto de aprovação, passe a aparente toleima contida nesta fórmula, foi o episódio transmitido na passada sexta-feira. Nele se incluíram, com uma clareza ainda não acontecida em episódios anteriores, dois aspectos que teria sido lamentável ficarem apenas apontados: o carácter repressivo da efectiva ditadura do intendente Pina Manique perante o sopro revolucionário que vinha de França e a plena adesão de Bocage às então chamadas «ideias novas», isto é, a luta pela conquista da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, anunciadas como metas pelos revolucionários de 89 e que, como bem se sabe, ainda hoje não foram adquiridas, o que pode ser verificado sem a necessidade de sequer sairmos da nossa terra. E essa adesão, que já não pode suscitar dúvidas no ponto a que chegou a narração em «Bocage», é especialmente relevante porque a acção contada decorre na segunda metade da década de 90, isto é, quando já tinha sido vivido o período mais duro da ditadura revolucionária cujos ecos inevitavelmente teriam chegado a Lisboa. As imagens das violências policiais sobre um livreiro «culpado» de vender «livros proibidos» e da queima dos próprios livros tiveram, sem dúvida, um papel de explicitação e confirmaram tudo o que já se vira e ouvira quanto às tais ideias novas. Escusado será dizer que não apenas é inevitável mas também inteiramente adequado que se pense em quais são hoje as ideias novas que continuam a assustar, e muito justamente, os que nos diversos poderes defendem as velhas ideias, agora não apenas recorrendo aos velhos métodos quando tanto lhes parece conveniente como tentando fazer passar por novidade e progresso as ideias vetustas maquilhadas de modernidade. E, quanto a isto, bem se pode supor que as coisas poderiam ter sido ainda mais difíceis se Pina Manique pudesse ter controlado a televisão una na sua aparente diversidade mais os grandes órgãos de comunicação social, e se o Marquesado do Norte tivesse já então atingido a plenitude dos seus poderes fácticos.
Convém dizer que a clarificação a que «Bocage» chegou se tornou especialmente desejável depois de já termos ouvido, um pouco a destempo, Miguel Guilherme dizer dois sonetos em que o poeta exprime arrependimento pelos supostos erros do passado, com inclusão de contrições ideológicas. O primeiro deles ouvimo-lo logo no princípio da série, e por sinal é um poema que tem sido suspeito de ser apócrifo, talvez inventado por um tal Morgado de Assentiz para atribui-lo a um Bocage moribundo. Do outro («Meu ser evaporei na lida insana») não sei de suspeitas idênticas, mas sei que me pareceu inserido a destempo, em antecipação inútil relativamente ao tempo em que terá sido composto. Por isso me pareceu necessário mais algum tempo de espera antes de um aplauso que poderia significar aprovação irrestrita. Agora, já se arrisca pouco ou nada. E aqui fica o comentário que o espaço permite.


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