José Manuel Oliveira, sindicalista

Um livro de estudo

Isabel Araújo Branco
O que representa o Avante! para os trabalhadores e para os seus representantes sindicais? José Manuel Oliveria, do Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário, considera que é um livro de estudo.
Manhã de quinta-feira. José Manuel Oliveira chega ao seu gabinete no Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário, no Largo dos Restauradores, em Lisboa. Uma das primeiras coisas que faz é consultar a edição on line do Avante! Leitor assíduo, faz da leitura do jornal um instrumento de trabalho e uma arma para mudar o mundo.
José Manuel Oliveira define o Avante! como um livro de estudo e explica porquê: «Nas tarefas que desempenho não basta conhecer os acontecimentos do dia-a-dia, é preciso também percebermos porque é que as coisas acontecem. No contexto da comunicação social, a maioria dos meios limita-se a relatar os factos, mas não a percebê-los, a estudá-los... No Avante! é diferente. Lemos o que os outros normalmente não publicam, em particular sobre a luta dos trabalhadores, e ajuda-nos a perceber o mundo em que vivemos, a luta de classes, o desenvolvimento das correlações de forças... Quem quiser fazer a história do século XX tem de usar como fonte de informação o Avante!» , acrescenta.
Nas empresas onde o Avante! é lido, verifica-se uma identificação por parte dos trabalhadores e o jornal dá uma grande ajuda na mobilização das lutas. «Depende da forma como as organizações do Partido conseguem fazer chegar o Avante! aos trabalhadores. Há sectores onde é mais difícil, onde vamos fazendo um esforço… Mas ajuda muito quando conseguimos que os artigos do Avante! lá cheguem», refere.
As notícias de lutas de outros sectores e de outras empresas funcionam como incentivo às próprias lutas, mostrando que ninguém vive isolado, seja no paraíso ou no inferno... «Às vezes há dificuldades em desenvolver uma luta e ajuda perceber que não estamos sozinhos. Dá outro ânimo aos trabalhadores. É importante falar sobre as lutas, explicar porque acontecem», considera.
«Podemos não estar em luta, mas saber que outros trabalhadores estão leva-nos a perceber que estamos numa sociedade com dificuldades e que há pessoas que estão a lutar para que a sociedade seja transformada. Podemos estar bem, mas saber que outros estão a lutar pode dar-nos ânimo quando os problemas se nos colocam. Sabemos que é esse o caminho que temos de desenvolver», salienta José Manuel Oliveira.

Exercícios

Além de leitor, José Manuel Oliveira é simultaneamente fonte de notícia. Semanalmente envia para a redacção do Avante! informações sobre o sector, notícias das movimentações dos trabalhadores ferroviários de diversas empresas. Para o sindicalista, o Avante! é o jornal dos trabalhadores. «Não se limita a falar de uma greve, explica o que está em causa, porque é que os trabalhadores tomaram aquela posição, o que está por trás das reivindicações. É importante que cada vez mais se aprofunde esta linha de informação que não encontramos noutros jornais», defende.
«É um jornal que normalmente publica o que os outros não publicam. Nos outros jornais, é preciso que haja situações de conflito para escreverem três ou quatro linhas e raramente explicam quais são as reivindicações dos trabalhadores», acrescenta.
Por vezes os trabalhadores fazem um exercício: comparar as notícias sobre o seu sector publicadas no Avante! e em outros jornais. Nem sempre é coisa fácil de fazer, primeiro porque frequentemente só o Avante! publica essas notícias. O segundo passo é analisar o conteúdo dos textos.
«Muitas vezes o que aparece nos jornais nem ajuda nada a dignificar os trabalhadores. Muitas das notícias sobre os ferroviários servem para dizer que este é um sector mau, que não deve ser público e que devia ser privatizado... Os artigos do Avante! têm a perspectiva do desenvolvimento e aprofundamento da componente social do sector ferroviário e da sua obrigação de estar ao serviço da população. Já tenho trocado opiniões com amigos, inclusive pessoas que não são militantes do PCP, e que ficam satisfeitos quando vêem retratada pelo Avante! a realidade que conhecem», refere. Por isso, José Manuel Oliveira conclui: «A linha editorial do Avante! está correcta: falar dos problemas dos trabalhadores e do desenvolvimento da sua luta.»

30 anos de leitura

José Manuel Oliveira começou a ler o Avante! no final da década de 70, quando se tornou militante do PCP. «À medida que fui tendo mais responsabilidades no Partido e na organização dos trabalhadores, ler o jornal acabou por ser uma necessidade. Tinha de ter algumas fontes de estudo, até para preparar reuniões do Partido...», explica.
Em quase trinta anos de leitura, José Manuel Oliveira pode fazer um balanço do Avante!. «Há uma evolução. Acho que o Avante! deu um salto qualitativo. É um jornal aberto à discussão e que promove reflexão sobre os temas. Não ficou estático, antes pelo contrário», considera.
Se 75 anos é muito para uma pessoa, para um jornal é ainda mais, mas esse percurso não o impediu de estar profundamente ligado à actualidade. «Não se agarrou ao passado, apesar da sua grande história de resistência. É um jornal voltado para o presente e para o futuro», considera o sindicalista.
«Há pessoas que pensam que o Avante! só fala das coisas do PCP e por isso não lêem. Não é verdade. Um amigo dizia-me há tempos: “Nunca vi aprendi tantas coisas sobre religião como no Avante! .” De facto é verdade. Nunca tinha pensado nisso. A maioria das pessoas não tem essa noção», considera.
Depois da primeira leitura através da edição digital do Avante! , José Manuel Oliveira lê o resto do jornal no comboio ou em casa, no fim-de-semana ou durante a semana seguinte. «Como não sou uma pessoa organizada, às vezes vou à internet procurar artigos antigos. É uma das coisas boas da net: consigo manter-me organizado. Sei que está ali, vou à procura e encontro», diz.
Algumas informações do jornal são trabalhadas pelo sindicato, até porque «é importante passarmos notícias de outras lutas e dos seus resultados. Isso também ajuda a combater uma certa ideia de inevitabilidade, que as coisas são assim e que não há nada a fazer...»


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