A entrevista
Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, foi entrevistado na «2:» no âmbito de uma rubrica com o título curioso de «Diga lá, Excelência». É um espaço que parece resultar da convergência entre aquele canal, que como será recordado era para ser o da «sociedade civil», e dois importantes órgãos de informação, a Rádio Renascença e o jornal «Público», presentes nas pessoas dos dois entrevistadores em estúdio. Jerónimo de Sousa foi, pois, entrevistado ali, e apetece acrescentar qualquer coisa como «- Finalmente!»; é capaz de ter sido o centésimo entrevistado, ou quase. Mais valerá, porém, não sermos exigentes nem ingratos e dizermos antes que «ainda bem» porque acabou por acontecer, talvez pela proximidade dos aniversários do «Avante!» e do próprio PCP, talvez não. Acresce que os dois entrevistadores se houveram benzinho, mais sério e compenetrado Paulo Magalhães, da RR, mais sorridente, género «carinha na água», Nuno Sá Lourenço, do «Público», de qualquer forma ambos correctos. Entenda-se, é claro, que isto da correcção quando o entrevistado é o secretário-geral do PCP é relativo, como tudo na vida, e que jornalista que entrevista um Jerónimo de Sousa tem de cumprir uma espécie de rotina de provocações de pequena dimensão sem as quais nem seria jornalista de um poderoso órgão de comunicação social nem nada. Por exemplo, pelo que se viu e ouviu continua a ser praticamente obrigatório perguntar a Jerónimo de Sousa há quanto tempo ele não afina uma máquina, e isto não decerto por mera curiosidade mas sim para sugerir ao País que Jerónimo já não é operário e, por conseguinte, não deve representar a classe operária. Também é obrigatório perguntar-lhe por Estaline, desse modo tentando vinculá-lo ao menos um pouco ao que se passou na União Soviética quando ele, Jerónimo de Sousa, era pequenino; ou questioná-lo sobre Cuba, não acerca dos espectaculares êxitos do povo cubano nas áreas da educação, da saúde, da segurança social, ou da inacreditável resistência às brutalíssimas pressões de toda a ordem sobre aquele país exercidas pelo gigante norte-americano, mas sim para tentar obter do perguntado a confissão de que a democracia cubana, embora sustentada pela esmagadora maioria do povo, não está conforme o modelo que os Estados Unidos, como se sabe modelaríssimos nessa matéria, ditaram que todo o mundo há-de adoptar.
«Não há outra coisa...»
Uma outra questão que qualquer entrevistador de um dirigente do PCP deve fazer é a dos chamados «renovadores» cuja memória aliás já se vai perdendo nas brumas do tempo e do pântano da integração noutros partidos. Sá Lourenço e/ou Paulo Magalhães, confesso que não sei ao certo qual deles, não faltaram a esse dever profissional. Sobre este assunto, já há um par de anos que o reitor da Universidade Clássica de Lisboa, prof. Barata Moura, disse, por sinal na TV, que quando os chamados renovadores falavam em «renovação» estavam de facto «a pensar noutra coisa». Mas essa questão foi chão que deu uvas, passe a expressão plebeia, e o vinho que tais uvas porventura deram já azedou há muito tempo. Nem assim um dos entrevistadores actuais se dispensou de sugerir um venenozinho aliás logo rejeitado por Jerónimo de Sousa: que o Partido «estaria melhor sem crítica interna». Bem se vê que o jovem, além de dar ouvidos às línguas caluniosas (como, suponho, a prudência lhe aconselha) nunca assistiu a uma reunião de comunistas. Porém, para melhor esclarecimento seu será conveniente lembrar-lhe que o que em dada altura causou alguma indignação entre os comunistas honrados e lúcidos não foi que alguns militantes exercessem «crítica interna» sempre bem-vinda, mas sim que exercessem crítica externa, designadamente nas colunas de imprensa que parece ter tomado a militância anticomunista como sua tarefa central, isto é, que fizessem fretes de difícil classificação aos inimigos do PCP.
Mais haveria decerto a dizer acerca desta emissão do «Diga lá, Excelência», mas não quero correr o risco de omitir o que parece ter sido o fundamental: a solidez com que Jerónimo de Sousa confirmou as suas naturais capacidades de comunicação em estilo próprio e a segurança de convicções que eficazmente defendeu sem renunciar a um mínimo daquilo que poderia designar-se por algum tacto diplomático. Momentos destes por parte do secretário-geral do PCP reforçam a certeza de que este é o partido certo para hoje e para o futuro. Ou, como um dia José Saramago respondeu ao ser entrevistado na TV Globo pela brasileira Marília Gabriela, que se espantava pela sua fidelidade ao comunismo e ao PCP: «- Não há outra coisa!...»
«Não há outra coisa...»
Uma outra questão que qualquer entrevistador de um dirigente do PCP deve fazer é a dos chamados «renovadores» cuja memória aliás já se vai perdendo nas brumas do tempo e do pântano da integração noutros partidos. Sá Lourenço e/ou Paulo Magalhães, confesso que não sei ao certo qual deles, não faltaram a esse dever profissional. Sobre este assunto, já há um par de anos que o reitor da Universidade Clássica de Lisboa, prof. Barata Moura, disse, por sinal na TV, que quando os chamados renovadores falavam em «renovação» estavam de facto «a pensar noutra coisa». Mas essa questão foi chão que deu uvas, passe a expressão plebeia, e o vinho que tais uvas porventura deram já azedou há muito tempo. Nem assim um dos entrevistadores actuais se dispensou de sugerir um venenozinho aliás logo rejeitado por Jerónimo de Sousa: que o Partido «estaria melhor sem crítica interna». Bem se vê que o jovem, além de dar ouvidos às línguas caluniosas (como, suponho, a prudência lhe aconselha) nunca assistiu a uma reunião de comunistas. Porém, para melhor esclarecimento seu será conveniente lembrar-lhe que o que em dada altura causou alguma indignação entre os comunistas honrados e lúcidos não foi que alguns militantes exercessem «crítica interna» sempre bem-vinda, mas sim que exercessem crítica externa, designadamente nas colunas de imprensa que parece ter tomado a militância anticomunista como sua tarefa central, isto é, que fizessem fretes de difícil classificação aos inimigos do PCP.
Mais haveria decerto a dizer acerca desta emissão do «Diga lá, Excelência», mas não quero correr o risco de omitir o que parece ter sido o fundamental: a solidez com que Jerónimo de Sousa confirmou as suas naturais capacidades de comunicação em estilo próprio e a segurança de convicções que eficazmente defendeu sem renunciar a um mínimo daquilo que poderia designar-se por algum tacto diplomático. Momentos destes por parte do secretário-geral do PCP reforçam a certeza de que este é o partido certo para hoje e para o futuro. Ou, como um dia José Saramago respondeu ao ser entrevistado na TV Globo pela brasileira Marília Gabriela, que se espantava pela sua fidelidade ao comunismo e ao PCP: «- Não há outra coisa!...»