Um militante da vida e da arte
Um militante comunista

Lopes Graça, um artista militante

Manuel Augusto Araújo
«Confesso-lhe com toda a sinceridade que prefiro, do ponto de vista de comunicação artística, deslocar-me com o Coro da Academia de Amadores de Música à mais esquecida vila alentejana ou beirã, ou à mais popular (e não alienada) colectividade filarmónica recreativa da Outra Banda, a receber os aplausos medidos e convencionais que na generalidade se dignam dispensar à minha música os frequentadores habituais das salas de concerto da capital.»
Com esta simplicidade, Fernando Lopes-Graça traça os princípios de um programa de acção cultural que deveria ser motivo de reflexão por todos os que trabalham nas áreas culturais, sobretudo quando é comum fazerem-se acções pretensamente culturais e populares que escorregam ruidosamente no populismo mais rasca ou, no pólo oposto, realizam-se actividades de significações opacas que são pretensamente entendidas por uma meia dúzia de eleitos que fingem perceber o que estão a ver e a ouvir e que é a exploração do snobismo implantado na lapela como sinal distintivo de classe.
A declaração de Lopes-Graça é uma lição, uma lição penetrante na sua aparente naturalidade. Destaca a comunicação artística, a comunicação entre um Coro que é um exemplo de instituição democrática, onde convivem pessoas das mais diversas profissões e classes sociais, irmanados pelo gosto de praticarem música, aquela música e não uma outra qualquer, e o público que vibra com as mensagens veiculadas pelas canções desenvolvidas sobre linhas melódicas mais ou menos complexas que o compositor escrevia recuperando, estudando e inovando a tradição no seu sentido mais nobre e abjurante de perversões folclóricas. Naquela curta declaração de Lopes-Graça está igualmente subentendido que os caminhos da música percorrem-se sempre sem concessões, o que se pode extrapolar para todos os outros campos de actividade artística. Referindo-se implicitamente ao seu trabalho como um todo, está a explicitar que a sua escrita musical é tão depurada e rigorosa quando escreve uma canção regional como quando escreve o Requiem pelas Vítimas do Fascismo em Portugal, que quem ouve uma canção popular portuguesa de Lopes-Graça está a descobrir e a trabalhar o seu ouvido musical que fica mais apto a perceber as subtilezas das outras Canções Regionais ou do Concerto de Camera com violoncello obligato ou dos Sete Apótegmas.
Escrita musical sem concessões e em permanente autocrítica. É com extraordinária limpidez, sagacidade e concisão que Lopes-Graça explica como escreve música recusando a ideia platónica da inspiração: «…o próprio trabalho nos conduz ao que se chama inspiração. Há ideias que surgem e que são exploradas tecnicamente. O que se julga ser inspiração é sim o resultado de muitas horas, meses de trabalho, perscrutando os segredos da própria obra (…)A primeira palavra é a última e a última é a primeira. Depois há um processo de autocrítica (…) O trabalho é isso: uma autocrítica permanente sobre a tarefa que se tem entre mãos.»
Mas não se pense que Lopes-Graça ao dizer isto se estava a circunscrever exclusivamente à prática artística. Aplicou esses princípios a toda a sua vida, a todos os actos da sua vida, compondo música com o mesmo rigor com que escrevia, intervinha politicamente ou cozinhava. E sempre foi assim ao longo da sua vida. Com vinte e cinco ou com setenta e cinco anos a diferença encontrava-se nas experiências e nos conhecimentos adquiridos.
A verticalidade e a coragem com que enfrentou a vida não deixaram margem para que a repressão a que foi sujeito pelo fascismo o alquebrasse ou limitasse a sua actividade profissional. Este homem, este artista, este artista militante e militante comunista escrevia música, aprofundava princípios estéticos, desenvolvia uma intensa actividade pedagógica, agia politicamente estivesse onde estivesse, na sua casa em Lisboa ou na Parede, desterrado em Alpiarça ou exilado em Paris. Um artista e um patriota que enfrentando o cerco das inúmeras dificuldades com que o fascismo o perseguiu nunca perdeu o orgulho de ser português o que o fez recusar a cidadania que a França lhe ofereceu, reconhecendo-lhe o valor como artista e cidadão.
Um exemplo de artista militante e de militante comunista, não só para os comunistas como para toda a sociedade nestes tempos frívolos em que a arte corre atrás das modas, em que os princípios morais e políticos se perdem na voracidade de um pragmatismo amoral, em que se justificam com cinismo as traficâncias mais descaradas, em que a ética é contrabandeada e se faz a apologia da vulgaridade.
Um homem e uma obra que ficam para lá do tempo.


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