
- Nº 1668 (2005/11/17)
CTT lançam edição especial
«Homenagem a Álvaro Cunhal»
Nacional
Centenas de pessoas participaram, quinta-feira, ao final da tarde, no lançamento da edição especial de um selo e de um bloco filatélico que retractam a figura de Álvaro Cunhal, ocorrida precisamente no dia em que ele completaria 92 anos.
A convite do presidente do Conselho de Administração dos CTT Correios de Portugal, Jerónimo de Sousa, com uma palavra de elevado apreço, agradeceu, não apenas em seu nome, «mas em nome da família de Álvaro Cunhal e, naturalmente, em nome do Partido Comunista Português, sabido como é que o nome, a figura, a actividade, a vida de Álvaro Cunhal estão indissoluvelmente ligados ao PCP, Partido de cuja construção colectiva ele foi o mais destacado operário».
Não sendo aquele o momento para aprofundar a biografia de uma figura com a dimensão política, cultural, humana, como a de Álvaro Cunhal, Jerónimo de Sousa destacou, no entanto, alguns momentos da sua vida e obra.
«Nascido três anos depois da implantação da República, Álvaro Cunhal adere ao PCP aos 17 anos de idade, era, então, estudante da Faculdade de Direito de Lisboa. Em 1935 iniciou a sua actividade clandestina e, um ano depois, foi chamado ao Comité Central do Partido. A sua primeira prisão pela polícia política fascista, ocorrida em 1937, duraria um ano, ao fim do qual retomou a sua actividade clandestina, voltando a ser preso em 1940, sofrendo mais um ano de prisão e regressando, mais uma vez, à luta política. Participa, então, activamente, no processo de reorganização do Partido que viria a transformar o PCP num grande partido nacional e no grande partido da resistência antifascista», descreve o secretário-geral dos comunistas portugueses.
Desse processo, continua, «com a importância decisiva que teve no futuro do Partido, emergem a figura, a acção, a intervenção, o papel decisivo, marcante, profundamente impressivo de Álvaro Cunhal. Preso novamente em 1949, é mantido incomunicável durante 14 meses e, como nas duas prisões anteriores, brutalmente torturado - e, como nas duas prisões anteriores, recusando-se a prestar declarações à polícia fascista. Ficou célebre a sua defesa no tribunal fascista, em que o acusado se transformou em acusador, denunciando o conteúdo e o carácter do fascismo e fazendo a defesa da orientação e da acção do PCP».
«Ao fim de onze anos de prisão – sete dos quais em completo isolamento - evadiu-se da Fortaleza de Peniche, numa fuga colectiva que trouxe para a liberdade e para a luta pela liberdade e pela democracia um conjunto de destacados militantes comunistas. Um ano depois foi eleito secretário-geral do Partido, cargo que ocupou até 1992. Derrubado o fascismo e conquistada a liberdade, Álvaro Cunhal prosseguiu, nas novas condições, a luta de toda a sua vida – uma luta que, tendo como objectivo maior a construção em Portugal de uma sociedade nova, mais justa, mais livre, mais solidária, mais fraterna, assumia no seu dia a dia a defesa constante dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País», enaltece Jerónimo de Sousa.
Expressão de talento
Ao longo de toda a sua vida, Álvaro Cunhal, produziu uma vasta obra teórica que constitui uma referência incontornável para quem queira proceder à abordagem dos principais momentos da história portuguesa no século XX., e que foi um contributo marcante para a formação e desenvolvimento do PCP. Exemplos dessa produção teórica revolucionária são, entre muitos outros, «Rumo à Vitória», «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», «A Revolução Portuguesa – o Passado e o Futuro», «O Partido com Paredes de Vidro» e «A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril – a contra-revolução confessa-se».
Fruto desse talento multiforme, dessa criatividade pujante, é ainda a obra plástica de Álvaro Cunhal, nomeadamente os Desenhos da Prisão, feitos na Penitenciária de Lisboa e na Fortaleza de Peniche – desenhos feitos, nas palavras de Mestre Rogério Ribeiro, por «um homem a quem foi retirada a liberdade mas que quis encontrar, procurando no mais profundo da sua vontade, a capacidade de, na folha, como uma bandeira branca aberta na cela, implicar o lápis a abrir janelas sobre realidades vividas, inventadas, recriando-as com grande carinho e ternura».
Uma referência permanente
«Álvaro Cunhal deixou-nos em Junho deste ano e a sua ausência continua, e continuará, a pesar entre todos os seus camaradas e amigos, entre os muitos e muitos milhares de militantes comunistas e de homens, mulheres e jovens das mais diversas opções políticas e ideológicas que, por ocasião do seu funeral, lhe renderam expressiva homenagem. Contudo, é o exemplo da sua vida aquilo que, dele, mais impressivamente permanece em nós», disse, emocionado, Jerónimo de Sousa, evidenciando que a vida de Álvaro Cunhal «é, para nós, comunistas portugueses – e, estou em crer, não apenas para nós mas também para muitos e muitas portugueses e portuguesas – uma referência permanente, um exemplo que nos estimula a dar plena continuidade à luta pelos objectivos que nortearam toda a sua existência, à luta de toda uma vida ao serviço do seu partido, que o mesmo é dizer ao serviço dos trabalhadores e do povo português».
Como diz um personagem de um dos seus romances, citou: «Sonhamos com um mundo melhor onde uns não vivam da dor de outros homens, onde não se matem crianças com metralhadoras, onde o ar se respire com liberdade. É esse o sonho que nos dá força para lutar e para sofrer, para nos afirmarmos felizes na nossa dura vida, mesmo quando perdemos muito do que nos é mais querido».
Uma das figuras mais marcantes
da história contemporânea
A edição filatélica especial dos CTT de homenagem a Álvaro Cunhal, quinta-feira posta à venda, registou uma procura inicial acima do normal e superou a barreira dos coleccionadores tradicionais.
«Álvaro Cunhal é uma das figuras mais marcantes da história contemporânea portuguesa, quer como protagonista no combate contra o regime anterior a Abril de 1974, quer como líder duma corrente de opinião, cuja expressão e influência no nosso País têm tido uma inegável relevância. No homem político também se descobriu um escritor, um tradutor e um artista plástico de rara sensibilidade, valores que o projectam para um universo menos polémico e de abrangência quase total, que, só por si, justificaria uma emissão filatélica», afirmou, na ocasião, Pedro Coelho, da administração dos CTT.
Esta é uma edição comemorativa, graficamente criada com base em material pré-existente, em fotografias e em desenhos do próprio, cuja a utilização a família teve a gentileza de autorizar, e que foi objecto de um trabalho criativo pela mão de Vitor Santos, um designer que nos deu, entre outros trabalhos, a face portuguesa do euro.
«Estamos, pois, a tomar uma iniciativa que se integra bem na actividade normal dos Correios, na sua responsabilidade social e de serviço público e no seu contributo para a consolidação da cultura e identidade nacional do nosso País e conhecimento da sua história», referiu.