Terrorismo cirúrgico

Zillah Branco
O Governo dos Estados Unidos iniciou o terceiro milênio com a imposição de uma nova estratégia de guerra de dominação – o terrorismo cirúrgico. Em nada honra a história do seu povo cuja independência divulgou mundialmente o conceito de democracia e mereceu da «velha» França, como hoje tratam a Europa os arautos da moderno imperialismo, uma estátua da Liberdade no seu porto de entrada a New York. Os factos que explicam esta invenção guerreira são relatados pela imprensa internacional, por ex-assessores do governo norte-americano, inclusive da famigerada CIA, e por estudiosos da história contemporânea.
O ex-analista da CIA, Stephen Pellatière, em entrevista à Globo News, relatou os vários momentos de ação dos norte-americanos e seus comparsas ingleses para assegurarem o controle do petróleo nas maiores jazidas do mundo que se situam dentro do território árabe. Durante décadas mantiveram as grandes empresas multinacionais do petróleo gerindo aquela riqueza e, com o apoio dos governos hoje coligados, mantendo governantes fantoches nos vários países produtores e alimentando guerras étnicas que dividiam os povos. Esta presença segue a que os britânicos já tinham no século XIX quando ainda constituíam um Império colonial dono de meio mundo.
Com a morte do Xá da Pérsia, cuja vida era divulgada como um filme de cinema barato que fazia chorar a platéia com os dramas conjugais e os nascimentos dos herdeiros, o Irão foi conduzido por Komeiny que não estava disposto a submeter-se ao mesmo controle norte-americano. Em 1973 a organização árabe OPEP expulsou as companhias petrolíferas ocidentais do Golfo. Temendo que a então União Soviética, diz Pellatière, exercesse o seu poder naquela região, o governo dos Estados Unidos usou, em 1984, a sua influência junto a Saddam Hussein para que este declarasse guerra ao Irão ao mesmo tempo que fornecia armas, através de Israel, àquele governo para que suportasse o ataque iraquiano.
A guerra durou 8 anos, com muitas mortes e sem vencedores aparentes, pois o benefício era recolhido pelo Ocidente que minava a unidade dos povos que estavam na base da OPEP. Este é um modelo maquiavélico de terrorismo cirúrgico elaborado pelos cérebros do Pentágono que contaram com o apoio dos governantes ingleses – Thatcher, seguida por Major – que criaram a «Era da apatia» para moldar o consciente das populações, segundo a psicanalista Jacqueline Rose, especialista inglesa na análise das personalidades mundiais que conduzem as guerras. O componente psicológico na formação de opinião pública é outro ingrediente da terrorismo cirúrgico.
Paralelamente a tais acontecimentos surgem aproximações entre a família Bush e a de Bin Laden, associados em grandes empresas ocidentais, o que leva os maquiavélicos ocidentais a armarem o jovem rebelde para expulsar os soviéticos que estavam no Afeganistão apoiando o governo árabe daquele país. A população mundial, da Era da apatia, assistiu como num filme ao namoro do governo dos Estados Unidos com Gorbatchev, que serviu de detonador da implosão do único sistema socialista capaz de apoiar os movimentos independentistas dos povos; comemorou a queda do Muro de Berlim, como um símbolo anticomunista, sem se dar conta de que na fronteira com o México os Estados Unidos levantava o seu muro, assim como nos territórios palestinianos Israel erguia os que lhe interessavam. Apáticos e desinformados por uma imprensa vendida aos interesses expansionistas ocidentais, foi formada uma opinião pública que tem horror à política e recorre às suas crenças religiosas (também subdividas em múltiplas igrejas, para que os soberanos terrenos controlem o reino de Deus) para levar a vida «livre» e sem compromissos com o rumo da história.

Em nome de Deus

Retomando o percurso terrorista cirúrgico do governo anglo-americano vem a Guerra do Golfo quando Saddam bombardeia ocidentais e árabes no Koweit e tem o Iraque invadido por tropas ocidentais unidas na ambição de controlarem os seus poços de petróleo da segunda maior jazida do mundo. Apesar de Saddam ter declarado a 19 de Junho de 1993 o cessar-fogo unilateral autorizando a ONU a retomar os voos no território iraquiano, uma semana depois, a 26 de Junho, os norte-americanos bombardeiam o quartel general em Bagdad com a alegação de Clinton que invocou a «legítima defesa». Em Novembro de 1994 Saddam reconhece a soberania e integridade do Koweit. A partir daí o mundo ocidental acata as determinações de bloqueio económico ao Iraque, contribuindo para agravar os efeitos da guerra sobre a população civil que teve as suas casas e vidas arruinadas e sofreu os efeitos prolongados das bombas de fragmentação com o componente de urânio empobrecido, lançadas pelos ingleses e americanos, que provocaram um aumento vertiginoso da incidência de câncer e de deformidades fatais nas crianças geradas naquele território.
O antigo aliado do governo norte-americano, o rebelde Bin Laden, reaparece na história como responsável pela destruições das torres do World Center em Nova Iorque na manhã do dia 11 de Setembro de 2001. Assim contam os porta-vozes da Casa Branca, deixando à margem uma confusão de opiniões que levantam dúvidas sobre se Bush sabia ou não, antecipadamente, do ataque. Com a mesma cara de inteligente e alegre cow boy que mantém nas frequentes comunicações ao seu povo e ao mundo, como extensão, o presidente do país mais poderoso do planeta declarou ao Parlamento que «sabia que haveria um ataque por aviões, mas desconhecia o lugar». Não há comentários a fazer, mas sobram dúvidas. Principalmente porque o 11 de Setembro foi usado para instalar um sentimento de insegurança e vulnerabilidade na consciência do povo americano, como diz a psicanalista Jacqueline Rose, levando-o a procurar socorro nos seus governantes que falam também em nome de Deus. O ex-alcoólico Bush, como registra o Globo News, sai fortalecido no poder apesar da crise económica que o país sofre vitimado pelas fraudes financeiras das maiores empresas nacionais que têm como sócios os próprios governantes e suas famílias.
Caracterizado Bin Laden como o terrorista principal, e estando ele ainda no Afeganistão para onde foi levado na campanha anti-soviética, os Estados Unidos atacam aquele país, com seus amigos ingleses, matando muitos mais civis do que os mortos no 11 de Setembro, para colocar no governo pessoas controláveis pelo Pentágono. Dão início ao velho sonho britânico do século XIX, de abrir caminho para a construção de um formidável oleoduto que pudesse escoar o que se produz na região do mar Cáspio ao mesmo tempo em que é facilitado um caminho de penetração na Ásia Central que pode levar à China e demais vizinhos, e para o Irão do outro lado. Matam muitos civis, desobedecem às tímidas determinações da ONU, destroem centros da Cruz Vermelha, e ... não encontram Bin Laden de saudosa memória.

A missão do cow boy

Para manter a necessidade de «acabar com o terrorismo» mundial, para o que convencem todos os países que se encontram na ONU, Bush escolhe outro velho parceiro nas lutas pelo petróleo: Saddam Hussein que já desagradou a muitos dos governantes árabes e oprime a minoria curda expulsa pela Turquia. Auto-investido de uma missão político-religiosa contra o «eixo do mal», o cow boy, com o seu fiel office boy britânico, desobedecem novamente à ONU, agora contrariando as determinações do Conselho de Segurança, e voltam a bombardear a população iraquiana para depor o seu presidente depois de lhe ter imposto, pela mão da desprestigiada ONU e em nome de uma suposta democracia mundial, a destruição do armamento bélico. O pretexto da produção de armas químicas não convence ninguém, nem mesmo o ex-analista da CIA, Pelletière, que é categórico na afirmação de que isto é uma conhecida falsidade inventada pelo Pentágono.
A soma de mentiras e de cuidadosa construção de um terrorismo cirúrgico que se apoia na alienação da consciência pública, subiu à cabeça dos poderosos, de tal forma que traçaram um plano de guerra cheio de falhas primárias que deixou os soldados sem suprimentos e sujeitos a actos terroristas individuais dentro e fora dos quartéis. Diante da convocação, pelo governo iraquiano, de «mártires» para utilizarem o terrorismo como arma de defesa de um povo árabe ameaçado, os soldados americanos – quase sempre negros, latino-americanos ou filhos de outros povos imigrantes – começam a pensar que eles próprios agem como terroristas mas, o que é pior, sem ideais e com salários.
A guerra tem duas frentes: no terreno e na informação. Logo no início Saddam expulsa a agência americana CNN (que na primeira guerra do Golfo chegou a exibir o derrame de petróleo ocorrido em águas polares como sendo do Golfo Pérsico, mentindo descaradamente sobre tudo o que acontecia), e deixou os representantes da imprensa europeia e a agência árabe Al-Jazeera. Esta última, transmite com competência para todo o mundo as cenas reais que vão da derrubada de helicópteros pela população civil que depois caça com sanha os soldados agressores, aos bombardeios sobre mulheres e crianças no mercado, doentes nas ambulâncias, prisioneiros de guerra depondo, incêndios provocados por soldados da coligação de depósitos de alimentos trazidos pela ONU com a perda de 75 mil toneladas de produtos essenciais à sobrevivência dos civis. As imagens chocam os parentes dos soldados mortos ou presos que recebem o comunicado oficial dos seus governantes dias depois. A transmissão da verdade coloca um problema profissional para as demais agências de informação do ocidente. Ninguém quer ficar na condição de subalterno dos senhores da guerra, enquanto a Al-Jazeera ganha prestígio pela seriedade profissional e honestidade aos olhos do mundo.
Nesta guerra, como nas outras, as empresas produtoras de armas e veículos de terra, mar e ar, florescem. Já de olho no saque propiciado pela vitória, os parceiros anglo-americano desentendem-se programando o desenvolvimento das respectivas indústrias de construção, estradas, e todo o necessário para refazer o país destruído por eles. Precisam resolver os problemas de desemprego criado pelo sistema que os mantém no poder. Isto para não falar no controle do petróleo que poderá ser vendido em dólares ou em euros, confrontando os poderes actuais neste mundo unipolar, órfão do sistema socialista da antiga União Soviética.
Bush, ignorante como sempre, acusa Putin pelo envio de armas modernas para Saddam, e recebe a explicação óbvia de que com o fim do socialismo na Rússia e com a criação do Estado mínimo a produção de armas ficou na mão do mercado livre e sua mafia dirigente. E este é o grande problema da ONU que reúne governos mas não chefes do mercado livre. Este é o grave problema da humanidade subordinada ao que se chamou de «globalização» para disfarçar o domínio das mafias poderosas que se infiltraram no controle da economia mundial, da comunicação social e mesmo em alguns governos. A paz é uma necessidade para que seja possível reorganizar os estados, limpar os governos, acabar com o poder das mafias que mercadejam armas e drogas impondo as suas ambições revestidas de crenças religiosas ou falsas doutrinas políticas.


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