
- Nº 1641 (2005/05/12)
Neonazismo e revisionismo histórico
Opinião
No ano em que se comemora os 60 anos da vitória sobre o nazi-fascismo, assiste-se na Alemanha a várias manifestações da extrema-direita. Em diversas cidades os símbolos neonazis, as botas e os cabeças rapadas marcharam sob protecção policial. No dia 8 de Maio, durante as celebrações oficiais da vitória militar sobre o regime de terror hitleriano, a peste castanha, em sinal de protesto contra o que designam ser «a vingança do exército vermelho» e «as vítimas alemãs da guerra» projectou «invadir» Berlim, mas o desfile neonazi não se chegou a realizar graças à mobilização de mais de 10 mil manifestantes antifascistas que bloquearam as saídas da Alexanderplatz.
Num apelo publicado no Frankfurter Allgemeinen, 12 generais da Bundeswehr - entre os quais o general Günzel, ex-comandante da unidade especial KSK que com as tropas dos EUA intervém no Afeganistão em operações secretas e ilegais - afirmam que o 8 de Maio não é o dia da vitória mas da «derrota da nossa Wehrmacht», da «divisão da Alemanha» e do «cruel ajuste de contas dos vencedores».
Registe-se que Bush, na sua recente passagem por Riga, fez afirmações idênticas às dos generais neonazis ao afirmar que os estados bálticos não foram libertados pela União Soviética mas «ocupados» e sujeitos «à opressão comunista». Bush compartilha assim das posições do revanchismo alemão e da classe dominante do Báltico que vêem nos acontecimentos de 1989 a desforra da derrota de 1945 e colocam hoje os seus territórios à disposição da NATO para o planeamento de novas agressões contra a Federação Russa e a Bielorússia.
Desde a sua fundação que a República Federal da Alemanha se considera juridicamente como a legítima sucessora do «Reich» Alemão. Ao contrário da ex-RDA, a RFA nunca reconheceu os princípios que regeram o Tribunal de Nürnberg, nem os acordos de Potsdam. Hoje, nos média do grande capital, é frequente acusar-se a RDA de «antifascismo de Estado», como se fosse um crime um Estado declarar-se antifascista ou exigir uma tal postura dos seus cidadãos.
Em 1990, o chanceler Helmut Kohl continuou a recusar o reconhecimento da linha Oder-Neißer que marca a fronteira com a Polónia ao mesmo tempo que exigia a criação de uma «República do Volga», só para alemães, no território da Rússia. Sucessivos governos dedicaram-se a alimentar o princípio de que os acordos de Potsdam foram «injustos» e a reforçar as pretensões alemãs sobre os territórios «roubados» do Leste. Agora, o revanchismo alemão pensa poder recuperar o domínio e a influência sobre as regiões do antigo Reich no quadro do alargamento da União Europeia para o Leste, sem necessitar de recorrer ao poderio militar. O que não impede a encarregada do Bundestag para as questões do exército, Claire Marienfeld, de constatar num relatório sobre a situação nos quartéis publicado em 1997 que « não está a ser respeitada a distância entre a Bundeswehr e a Wehrmacht».
O revisionismo histórico e o anticomunismo esbatem cada vez mais a fronteira entre o neonazismo e os poderes parlamentares de muitos estados capitalistas. O último processo de ilegalização do NPD analisado pelo Tribunal Constitucional de Karlsruhe não pôde ser concluído por se verificar uma profunda interpenetração entre os serviços secretos do Ministério do Interior e aquele partido neonazi. Simultaneamente multiplicam-se as buscas, as intimidações e os processos contra a «Associação das Vítimas do Nazismo» (VVN) e outras organizações antifascistas, pelos chamados «serviços de defesa da constituição».
A história do século vinte já demostrou claramente que o fascismo é o seguro de vida do capitalismo nos momentos de crise do sistema. Por isso, nunca é demais relembrar que o fascismo é a ditadura terrorista dos monopólios. Mas é igualmente importante lembrar que estes, apesar dos sofrimentos que impõem aos povos, e como o têm demonstrado numerosas revoluções, não são um poder invencível.
Rui Paz