«Estar neste combate é uma felicidade»
Com noventa anos de idade e mais de setenta de militância comunista, António Dias Lourenço mantém a mesma energia que o levou a atirar-se ao violento mar de Peniche para fugir, em 1954, da prisão onde o fascismo o havia encerrado para assim voltar, em pleno, à luta revolucionária. Após 17 anos de prisão, de resistência às torturas e de toda uma vida de sacrifícios assumidos, não tem dúvidas: valeu a pena. E afirma que o que o faz mais feliz é «ver toda essa gente nova que vem ao Partido, para pegar na bandeira e seguir em frente».
Todos os dias está na sede do Partido, em Lisboa, e na redacção do Avante!, onde conserva uma pequena secretária. Chega cedo, pela manhã, e procura imediatamente a imprensa do dia, que lê com o auxílio de uma máquina ampliadora, que o ajuda, não sem esforço, a colmatar as actuais dificuldades de visão. Nos dias em que não aparece na sede, na Rua Soeiro Pereira Gomes, é porque provavelmente está em alguma escola, debate ou excursão. Poder falar com os jovens e com eles ensinar e aprender é, aliás, uma das coisas de que mais gosta de fazer. «Ainda faço muita coisa», afirma, convicto, realçando que se sente «em condições de dar uma contribuição ao Partido».
É assim António Dias Lourenço. Aos 90 anos, feitos no passado dia 25 de Março, conserva a energia que sempre o marcou e mantém-se atento à realidade actual e firme nas suas convicções – as mesmas que o fizeram entrar para o Partido há mais de setenta anos, em 1931. «Acho que não temos razões para desanimar», afirma. Bem pelo contrário, há que ter esperança: «O sistema capitalista está em crise e há uma degradação completa no plano social», realça. «Vemos avançar as duas faces da crise: a formidável concentração do capital, por um lado, e a não menos formidável explosão dos fenómenos da miséria, da fome, do desemprego.» E é peremptório a afirmar: «Temos de fazer alguma coisa em relação a isto.»
Mágoas e Felicidade
Mas não é só a energia e a confiança que caracterizam este homem de 90 anos. Dias Lourenço considera-se feliz. E que mais o faz feliz, hoje, é ver «toda essa gente nova que vem ao Partido, para pegar na bandeira e andar para a frente». Gente, realça, já com um muito válido trabalho em prol dos interesses da juventude. Além do mais, prossegue, «estar neste combate é uma felicidade». E ver todos estes jovens válidos e corajosos é a melhor prova de que valeu a pena lutar.
Mas nem tudo são coisas boas e Dias Lourenço tem também algumas mágoas na sua vida. A morte do seu filho, quando ele se encontrava preso, é uma das suas mais lancinantes dores. A maior, afirma. Outra dor que sente é «olhar para trás e ver a quantidade de queridos camaradas que já desapareceram». Mas, disse, «todos nós temos uma infelicidade aqui ou acolá… Mas não me considero infeliz. Pelo contrário.»
E avança com mais razões para tal sentimento: «Tenho muitos amigos, as minhas filhas gostam muito do pai, e o pai gosta muito delas. Tenho três filhas, que têm todo o meu amor». E, lembra, a «minha Ivone esteve sete anos na prisão, dos vinte aos 27 anos. E ao mesmo tempo que me sinto triste por ter visto a minha filha passar os anos mais extraordinários da vida de uma pessoa na prisão, sinto-me também feliz por ver a mulher que ela é hoje. Aliás, todas as minhas filhas são mulheres extraordinárias.»
Nunca perder o sorriso
Na clandestinidade desde 1941, Dias Lourenço foi preso pela primeira vez em 1949, perto de Palmela, quando tinha tarefas fundamentalmente ligadas à imprensa partidária e à sua distribuição. Reconhecido por um polícia que conhecia de Vila Franca de Xira, ficou decidida e combinada a sua saída da casa camponesa em que residia e a sua ida para um moinho na Arrábida. Mas foi preso horas antes da transferência combinada. Às dez horas da manhã, um camarada levá-lo-ia para o lugar, seguro. Mas a polícia apareceu antes, às quatro da madrugada. Seria o primeiro dia de 17 anos de prisão…
Para Dias Lourenço, o trabalho clandestino do Partido teve que ser organizado perante um aparelho extraordinário que era a polícia política. «E nós tivemos que encontrar formas adequadas para isso. Naturalmente, alguns de nós fomos presos.»
«À minha espera na António Maria Cardoso, estava o inspector Gouveia» , lembra Dias Lourenço. Às tentativas, mais ou menos subtis, do inspector em fazê-lo falar, Dias Lourenço respondeu apenas: «Sou membro do Comité Central do Partido Comunista Português e recuso-me a fazer quaisquer outras declarações!» E não fez mesmo.
«Eu já sabia que eles gostavam de ver a cara dos presos sob a tortura. E resolvi construir para a minha cara um ligeiro sorriso constante. Mesmo debaixo das dores mantive sempre um sorriso», recordou, lembrando que foi espancado durante toda a noite a casse-tête e que nunca perdeu o sorriso. «A mim não me hão-de ver a cara torturada», pensou sempre para consigo.
O operário construído
António Dias Lourenço nasceu em 1915 e cedo teve que começar a trabalhar, como operário aprendiz, no Parque de Aviação de Alverca, a actual OGMA. A sua infância, realça, foi, apesar de modesta, marcada por uma intensa actividade cultural e associativa, característica das vilas operárias como a sua. Cedo começou a ler e tocou flautim, como aprendiz, na Filarmónica local. Hoje, tantos anos passados, considera que «crescer num ambiente destes abriu horizontes na minha vida».
Na fábrica, começou a envolver-se nas questões políticas e sociais e acabou por aderir ao Partido, em 1931, por intermédio de um comunista do Barreiro, Diamantino Barros, que trabalhava também nas oficinas. «Ele reparou que eu me metia nas coisas e viu que estava ali um jovem a trazer ao Partido», recorda Dias Lourenço.
O trabalho nesta fábrica teve uma importância enorme na sua formação. Além de se desenvolver como operário, teve a oportunidade de travar conhecimento com figuras ilustres da aviação, como Gago Coutinho e Sacadura Cabral, e de presenciar acontecimentos inéditos no País: o primeiro zepelim e o primeiro salto de pára-quedas que se deu em Portugal.
Mas as oficinas marcaram profundamente muitas outras pessoas. Para Dias Lourenço, não é um acaso que muitos dos militares que por ali passaram tenham virado anti-salazaristas, tendo alguns, inclusivamente, participado em golpes contra o governo fascista de Salazar. «A ligação que existia entre os aviadores e os operários de Alverca permitiu que muitos deles tomassem uma certa consciência», destaca o histórico comunista.
O neo-realismo e o reforço do PCP
A dada altura, muda-se para Vila Franca de Xira. Aí, inicia uma intensa actividade cultural em torno dos chamados «cursos de aperfeiçoamento», destinados aos operários. Para esta iniciativa, foi muito importante a participação de Alves Redol, que ensinava Português, e que mais tarde se tornaria figura maior da literatura nacional.
Nessas aulas, que chegaram a reunir 50 ou 60 jovens operários, fazia-se, a par do ensino, actividade antifascista. «Chegámos praticamente a formar quadros nestas aulas», afirma Dias Lourenço, que chegou a ser professor de Esperanto, a «língua internacionalista». Esta movimentação «começou a dar nas vistas» e a polícia política, então PVDE, encerrou as escolas.
Este trabalho esteve na base do movimento neo-realista, afirma. A partir do fecho das escolas, chegou a fazer-se sessões num barco no Tejo, longe dos olhares da repressão. «Ali ninguém ouvia, era a lezíria.» Este abrir de novos horizontes culturais para muitos operários, bem como o eclodir da Guerra Civil de Espanha, deu um forte impulso para «alargar a influência e organização do Partido», recorda. «Começámos a fazer o contacto com os camponeses que vinham trabalhar para a Lezíria, que vinham de outros pontos do País» e a espalhar organismos do Partido pela região. Criado primeiro o Comité Local de Vila Franca, logo estenderiam a organização a toda a região – Santarém, Torres Novas, Cartaxo, Almeirim, Alpiarça, Samora Correia… Em seguida, criou-se o Comité Regional.
Ao mesmo tempo, o movimento neo-realista não parava de se alargar e aparece o jornal O Diabo, que passa a albergar os grandes nomes do neo-realismo nacional e também internacional. No número especial do jornal dedicado ao seu quinto aniversário, é publicada uma listagem dos colaboradores: e o operário Dias Lourenço surge ao lado de nomes como Alves Redol, Avelino Cunhal, Bento de Jesus Caraça, Fernando Namora, José Gomes Ferreira e muitos outros. «Era um pigmeu entre gigantes…», afirma, sorrindo.
«É assim que se vai ligando o movimento artístico e cultural neo-realista com a acção revolucionária, à medida que o Partido se ia tornando num partido nacional», destaca Dias Lourenço.
17 anos de prisão e uma fuga espectacular
«Só pensávamos em sair dali»
Preso pela primeira vez em 1949 – após uma breve passagem por Caxias, foi enviado para a fortaleza de Peniche – o primeiro pensamento de Dias Lourenço foi fugir. «Era sempre esse o primeiro pensamento», lembra. Quando chegou à prisão, já alguns camaradas preparavam uma fuga. Mas correria mal e seria, mais tarde, descoberta pelos guardas.
Mudados de sala, os presos voltaram a planear outra fuga. A ideia era cavar um buraco e escapar. «O buraco era entre a minha cama e a do Joaquim Campino», lembra-se Dias Lourenço. Mas os guardas desconfiaram e voltaram a mudar os presos de sítio e a privá-los de alguns direitos. Mas, recorda, «não descobriram o buraco».
À terceira foi de vez. Condenado a um mês no segredo, Dias Lourenço não foi desprevenido. Levou consigo uma faca, presa à parte interior da perna com um pano pintado da cor da pele. Aquando da revista aos presos, a faca não foi descoberta. E começou a cortar as grades da cela para fugir. «Eu precisava de maré vazia e via a maré do alto de vinte metros». Um dia, convenceu o guarda a deixá-lo ir, à hora de almoço, até junto da muralha ver como estava a maré. «Vi a maré e decidi: é amanhã!» Depois, foi a fuga. Serrada a porta e feita uma corda com as mantas – que entravam no segredo às nove da noite para saírem às sete da manhã –, lá foi. Mas a corda escapar-lhe-ia das mãos e acabou por se deixar cair, de quatro ou cinco metros no violento e rochoso mar de Peniche. «Depois nadei e fugi», conta, talvez sem a consciência de que havia protagonizado uma das mais fantásticas fugas da história.
Oito anos depois, em 1962, volta a ser preso. Até ao 25 de Abril. Mas a ideia de fugir nunca lhe saiu da cabeça durante todos estes anos. Aliás, afirma em tom de brincadeira, o 25 de Abril «lixou-me a fuga». Tudo estava já preparado. Para escapar do hospital-prisão, onde estava com mais camaradas mas também com presos de delito comum, teve a ideia de se disfarçar de mulher e assim escapar no fim do horário das visitas, depois de, numa primeira ideia, ter ponderado escapar do quarto andar de pára-quedas. «Já tinha a saia, a blusa, os sapatos, e duas perucas – uma loira e uma morena.» Mas não foi preciso. As portas abriram-se pelo lado de fora, pelos soldados do MFA. E diz, sem quaisquer dúvidas, que das suas duas saídas da prisão – e apesar do engenho e coragem que colocou na primeira – «sair da prisão devido à Revolução de Abril deu-me uma alegria incrível». Nos anos da Revolução, Dias Lourenço foi chamado à Comissão Política do Partido e dirigiu, durante cerca de década e meia, o nosso jornal.
A fuga de Peniche vista de fora
Dias Lourenço estava em liberdade quando, em 3 de Janeiro de 1960, se deu a fuga de Peniche, que devolveu à luta revolucionária Álvaro Cunhal e muitos outros destacados dirigentes do Partido. A luta dos camaradas para fugir, do lado de dentro da prisão, é sobejamente conhecida. E, na opinião de Dias Lourenço, esta fuga teve a particularidade de «unir o esforço e o engenho dos camaradas que estavam presos com o trabalho louco dos camaradas cá fora para apoiar a fuga».
E conta que era ele quem, no exterior, fazia o contacto com o guarda republicano que apoiou a fuga dos destacados dirigentes do Partido. Octávio Pato tratou dos carros para a fuga e Joaquim Pires Jorge das casas que albergariam os camaradas fugitivos.
Desde o dia 1 de Janeiro, conta Dias Lourenço, que tudo estava preparado para a fuga. No dia 9, quando o guarda estivesse de turno à hora que mais convinha à boa execução do plano, tudo seria posto em marcha. Mas uma troca de turnos quase deitou tudo a perder. As trocas fizeram com que a fuga tivesse de ser antecipada para dia 3. Foi preciso pôr tudo a mexer com rapidez.
Para Dias Lourenço, a melhor prova de que a fuga foi possível graças à coordenação entre camaradas presos e em liberdade foi a forma eficiente como se conseguiu, naquele mesmo dia, avisar os fugitivos da antecipação da data e pôr tudo a funcionar. E, como também lá dentro, tudo estava preparado, a fuga avançou e com sucesso. E valiosos camaradas juntaram-se aos outros e assumiram o seu posto na luta pela ansiada liberdade do seu País e do seu povo, que chegaria 14 anos depois.
É assim António Dias Lourenço. Aos 90 anos, feitos no passado dia 25 de Março, conserva a energia que sempre o marcou e mantém-se atento à realidade actual e firme nas suas convicções – as mesmas que o fizeram entrar para o Partido há mais de setenta anos, em 1931. «Acho que não temos razões para desanimar», afirma. Bem pelo contrário, há que ter esperança: «O sistema capitalista está em crise e há uma degradação completa no plano social», realça. «Vemos avançar as duas faces da crise: a formidável concentração do capital, por um lado, e a não menos formidável explosão dos fenómenos da miséria, da fome, do desemprego.» E é peremptório a afirmar: «Temos de fazer alguma coisa em relação a isto.»
Mágoas e Felicidade
Mas não é só a energia e a confiança que caracterizam este homem de 90 anos. Dias Lourenço considera-se feliz. E que mais o faz feliz, hoje, é ver «toda essa gente nova que vem ao Partido, para pegar na bandeira e andar para a frente». Gente, realça, já com um muito válido trabalho em prol dos interesses da juventude. Além do mais, prossegue, «estar neste combate é uma felicidade». E ver todos estes jovens válidos e corajosos é a melhor prova de que valeu a pena lutar.
Mas nem tudo são coisas boas e Dias Lourenço tem também algumas mágoas na sua vida. A morte do seu filho, quando ele se encontrava preso, é uma das suas mais lancinantes dores. A maior, afirma. Outra dor que sente é «olhar para trás e ver a quantidade de queridos camaradas que já desapareceram». Mas, disse, «todos nós temos uma infelicidade aqui ou acolá… Mas não me considero infeliz. Pelo contrário.»
E avança com mais razões para tal sentimento: «Tenho muitos amigos, as minhas filhas gostam muito do pai, e o pai gosta muito delas. Tenho três filhas, que têm todo o meu amor». E, lembra, a «minha Ivone esteve sete anos na prisão, dos vinte aos 27 anos. E ao mesmo tempo que me sinto triste por ter visto a minha filha passar os anos mais extraordinários da vida de uma pessoa na prisão, sinto-me também feliz por ver a mulher que ela é hoje. Aliás, todas as minhas filhas são mulheres extraordinárias.»
Nunca perder o sorriso
Na clandestinidade desde 1941, Dias Lourenço foi preso pela primeira vez em 1949, perto de Palmela, quando tinha tarefas fundamentalmente ligadas à imprensa partidária e à sua distribuição. Reconhecido por um polícia que conhecia de Vila Franca de Xira, ficou decidida e combinada a sua saída da casa camponesa em que residia e a sua ida para um moinho na Arrábida. Mas foi preso horas antes da transferência combinada. Às dez horas da manhã, um camarada levá-lo-ia para o lugar, seguro. Mas a polícia apareceu antes, às quatro da madrugada. Seria o primeiro dia de 17 anos de prisão…
Para Dias Lourenço, o trabalho clandestino do Partido teve que ser organizado perante um aparelho extraordinário que era a polícia política. «E nós tivemos que encontrar formas adequadas para isso. Naturalmente, alguns de nós fomos presos.»
«À minha espera na António Maria Cardoso, estava o inspector Gouveia» , lembra Dias Lourenço. Às tentativas, mais ou menos subtis, do inspector em fazê-lo falar, Dias Lourenço respondeu apenas: «Sou membro do Comité Central do Partido Comunista Português e recuso-me a fazer quaisquer outras declarações!» E não fez mesmo.
«Eu já sabia que eles gostavam de ver a cara dos presos sob a tortura. E resolvi construir para a minha cara um ligeiro sorriso constante. Mesmo debaixo das dores mantive sempre um sorriso», recordou, lembrando que foi espancado durante toda a noite a casse-tête e que nunca perdeu o sorriso. «A mim não me hão-de ver a cara torturada», pensou sempre para consigo.
O operário construído
António Dias Lourenço nasceu em 1915 e cedo teve que começar a trabalhar, como operário aprendiz, no Parque de Aviação de Alverca, a actual OGMA. A sua infância, realça, foi, apesar de modesta, marcada por uma intensa actividade cultural e associativa, característica das vilas operárias como a sua. Cedo começou a ler e tocou flautim, como aprendiz, na Filarmónica local. Hoje, tantos anos passados, considera que «crescer num ambiente destes abriu horizontes na minha vida».
Na fábrica, começou a envolver-se nas questões políticas e sociais e acabou por aderir ao Partido, em 1931, por intermédio de um comunista do Barreiro, Diamantino Barros, que trabalhava também nas oficinas. «Ele reparou que eu me metia nas coisas e viu que estava ali um jovem a trazer ao Partido», recorda Dias Lourenço.
O trabalho nesta fábrica teve uma importância enorme na sua formação. Além de se desenvolver como operário, teve a oportunidade de travar conhecimento com figuras ilustres da aviação, como Gago Coutinho e Sacadura Cabral, e de presenciar acontecimentos inéditos no País: o primeiro zepelim e o primeiro salto de pára-quedas que se deu em Portugal.
Mas as oficinas marcaram profundamente muitas outras pessoas. Para Dias Lourenço, não é um acaso que muitos dos militares que por ali passaram tenham virado anti-salazaristas, tendo alguns, inclusivamente, participado em golpes contra o governo fascista de Salazar. «A ligação que existia entre os aviadores e os operários de Alverca permitiu que muitos deles tomassem uma certa consciência», destaca o histórico comunista.
O neo-realismo e o reforço do PCP
A dada altura, muda-se para Vila Franca de Xira. Aí, inicia uma intensa actividade cultural em torno dos chamados «cursos de aperfeiçoamento», destinados aos operários. Para esta iniciativa, foi muito importante a participação de Alves Redol, que ensinava Português, e que mais tarde se tornaria figura maior da literatura nacional.
Nessas aulas, que chegaram a reunir 50 ou 60 jovens operários, fazia-se, a par do ensino, actividade antifascista. «Chegámos praticamente a formar quadros nestas aulas», afirma Dias Lourenço, que chegou a ser professor de Esperanto, a «língua internacionalista». Esta movimentação «começou a dar nas vistas» e a polícia política, então PVDE, encerrou as escolas.
Este trabalho esteve na base do movimento neo-realista, afirma. A partir do fecho das escolas, chegou a fazer-se sessões num barco no Tejo, longe dos olhares da repressão. «Ali ninguém ouvia, era a lezíria.» Este abrir de novos horizontes culturais para muitos operários, bem como o eclodir da Guerra Civil de Espanha, deu um forte impulso para «alargar a influência e organização do Partido», recorda. «Começámos a fazer o contacto com os camponeses que vinham trabalhar para a Lezíria, que vinham de outros pontos do País» e a espalhar organismos do Partido pela região. Criado primeiro o Comité Local de Vila Franca, logo estenderiam a organização a toda a região – Santarém, Torres Novas, Cartaxo, Almeirim, Alpiarça, Samora Correia… Em seguida, criou-se o Comité Regional.
Ao mesmo tempo, o movimento neo-realista não parava de se alargar e aparece o jornal O Diabo, que passa a albergar os grandes nomes do neo-realismo nacional e também internacional. No número especial do jornal dedicado ao seu quinto aniversário, é publicada uma listagem dos colaboradores: e o operário Dias Lourenço surge ao lado de nomes como Alves Redol, Avelino Cunhal, Bento de Jesus Caraça, Fernando Namora, José Gomes Ferreira e muitos outros. «Era um pigmeu entre gigantes…», afirma, sorrindo.
«É assim que se vai ligando o movimento artístico e cultural neo-realista com a acção revolucionária, à medida que o Partido se ia tornando num partido nacional», destaca Dias Lourenço.
17 anos de prisão e uma fuga espectacular
«Só pensávamos em sair dali»
Preso pela primeira vez em 1949 – após uma breve passagem por Caxias, foi enviado para a fortaleza de Peniche – o primeiro pensamento de Dias Lourenço foi fugir. «Era sempre esse o primeiro pensamento», lembra. Quando chegou à prisão, já alguns camaradas preparavam uma fuga. Mas correria mal e seria, mais tarde, descoberta pelos guardas.
Mudados de sala, os presos voltaram a planear outra fuga. A ideia era cavar um buraco e escapar. «O buraco era entre a minha cama e a do Joaquim Campino», lembra-se Dias Lourenço. Mas os guardas desconfiaram e voltaram a mudar os presos de sítio e a privá-los de alguns direitos. Mas, recorda, «não descobriram o buraco».
À terceira foi de vez. Condenado a um mês no segredo, Dias Lourenço não foi desprevenido. Levou consigo uma faca, presa à parte interior da perna com um pano pintado da cor da pele. Aquando da revista aos presos, a faca não foi descoberta. E começou a cortar as grades da cela para fugir. «Eu precisava de maré vazia e via a maré do alto de vinte metros». Um dia, convenceu o guarda a deixá-lo ir, à hora de almoço, até junto da muralha ver como estava a maré. «Vi a maré e decidi: é amanhã!» Depois, foi a fuga. Serrada a porta e feita uma corda com as mantas – que entravam no segredo às nove da noite para saírem às sete da manhã –, lá foi. Mas a corda escapar-lhe-ia das mãos e acabou por se deixar cair, de quatro ou cinco metros no violento e rochoso mar de Peniche. «Depois nadei e fugi», conta, talvez sem a consciência de que havia protagonizado uma das mais fantásticas fugas da história.
Oito anos depois, em 1962, volta a ser preso. Até ao 25 de Abril. Mas a ideia de fugir nunca lhe saiu da cabeça durante todos estes anos. Aliás, afirma em tom de brincadeira, o 25 de Abril «lixou-me a fuga». Tudo estava já preparado. Para escapar do hospital-prisão, onde estava com mais camaradas mas também com presos de delito comum, teve a ideia de se disfarçar de mulher e assim escapar no fim do horário das visitas, depois de, numa primeira ideia, ter ponderado escapar do quarto andar de pára-quedas. «Já tinha a saia, a blusa, os sapatos, e duas perucas – uma loira e uma morena.» Mas não foi preciso. As portas abriram-se pelo lado de fora, pelos soldados do MFA. E diz, sem quaisquer dúvidas, que das suas duas saídas da prisão – e apesar do engenho e coragem que colocou na primeira – «sair da prisão devido à Revolução de Abril deu-me uma alegria incrível». Nos anos da Revolução, Dias Lourenço foi chamado à Comissão Política do Partido e dirigiu, durante cerca de década e meia, o nosso jornal.
A fuga de Peniche vista de fora
Dias Lourenço estava em liberdade quando, em 3 de Janeiro de 1960, se deu a fuga de Peniche, que devolveu à luta revolucionária Álvaro Cunhal e muitos outros destacados dirigentes do Partido. A luta dos camaradas para fugir, do lado de dentro da prisão, é sobejamente conhecida. E, na opinião de Dias Lourenço, esta fuga teve a particularidade de «unir o esforço e o engenho dos camaradas que estavam presos com o trabalho louco dos camaradas cá fora para apoiar a fuga».
E conta que era ele quem, no exterior, fazia o contacto com o guarda republicano que apoiou a fuga dos destacados dirigentes do Partido. Octávio Pato tratou dos carros para a fuga e Joaquim Pires Jorge das casas que albergariam os camaradas fugitivos.
Desde o dia 1 de Janeiro, conta Dias Lourenço, que tudo estava preparado para a fuga. No dia 9, quando o guarda estivesse de turno à hora que mais convinha à boa execução do plano, tudo seria posto em marcha. Mas uma troca de turnos quase deitou tudo a perder. As trocas fizeram com que a fuga tivesse de ser antecipada para dia 3. Foi preciso pôr tudo a mexer com rapidez.
Para Dias Lourenço, a melhor prova de que a fuga foi possível graças à coordenação entre camaradas presos e em liberdade foi a forma eficiente como se conseguiu, naquele mesmo dia, avisar os fugitivos da antecipação da data e pôr tudo a funcionar. E, como também lá dentro, tudo estava preparado, a fuga avançou e com sucesso. E valiosos camaradas juntaram-se aos outros e assumiram o seu posto na luta pela ansiada liberdade do seu País e do seu povo, que chegaria 14 anos depois.