A Igreja Católica e as lutas pela Paz
Muito recentemente, poucos dias antes do assalto de Bush ao Iraque, a igreja católica alterou nalguns aspectos o sentido das suas posições. É certo que nem tanto quanto se esperava e se desejaria. Mas João Paulo II reconheceu a ilegitimidade das acções contra o Iraque, conclusão que de há muito era evidente para grande parte da humanidade. Apesar disso, o papa não foi suficientemente claro na denúncia dos sofrimentos inúteis impostos pela ONU ao povo iraquiano. Omitiu as culpas que neste contexto têm não só os EUA como também a Europa, o capitalismo mundial, as políticas do imperialismo e o próprio Vaticano. Wojtyla preferiu falar na falível justiça humana e apelar à oração. Ora, em boa verdade, nenhum homem livre se opõe a que os outros homens rezem mesmo quando ele próprio não pratica o culto. Mas exige, também, medidas de outra natureza. O Vaticano é um Estado poderoso e a sua intervenção deveria aguardar-se no plano político e económico, não apenas no da apreciação confessional. Nessa matéria, os silêncios católicos em Portugal foram dos mais escandalosos. Os grandes desfiles de massas contra a guerra não contaram com a presença ainda que simbólica da hierarquia. Calou-se o cardeal patriarca, silenciaram os bispos. Mais tarde, D. José viria a apelar ao sentido ecuménico e à oração. Questões do foro interno da igreja. Quanto ao episcopado, as coisas ficaram por aqui. Tomadas de posição mais decididas, por parte de organizações católicas como a LOC e a «Pax Christi» ou de estruturas como a «Comissão Justiça e Paz», representaram exemplos isolados que mais fizeram realçar o cinzentismo dos bispos portugueses. O episcopado limitou-se a olhar para o lado. É uma bolorenta sabedoria de Santo Egídio , destinada a agradar a Bush e a Saddam, a Deus e ao Diabo e que encerra em si mesma valores negativos e detestáveis. Todos eles resultam da noção de que a igreja, o poder político e a ambição do lucro, se confundem na história e que isso é inevitável. É um cinismo antigo que só desaparecerá quando os estados laicos impuserem a todas as igrejas a prosaica apresentação de contas transparentes. Tão simples como isto. Nesse dia se verá que, em questões como as da guerra e da paz, a nossa confiança não pode apoiar uma instituição enquanto ela pratique o sigilo e o elitismo bancário, especule na Bolsa e invista no petróleo ou nos armamentos; e que, indirectamente, apoie a exploração do homem pelo homem. Caso estas acusações sejam caluniosas, que maneira mais simples haverá do que explicar ao povo que riquezas possui a Igreja e donde é que elas provêm? Ou que mecanismos perversos permitem à hierarquia transformar o dinheiro em poder? Muitos silêncios cúmplices seriam então entendidos. Assim se articulam duas áreas de problemas aparentemente distintas, como a do imperialismo de Bush e a revisão da Concordata entre o Vaticano e o Estado português. Ambas mergulham num bem defendido secretismo. Mas sabe-se com a máxima certeza em relação à Concordata que as isenções e os privilégios da Igreja irão aumentar. O que implicará, naturalmente, um reforço dos laços que unem o episcopado e as forças políticas e económicas dominantes. Como entender então, que em questões como as da guerra e da paz, do lucro e do poder, uma mesma entidade possa apelar à paz e ao misticismo enquanto engordam nas bolsas financeiras investimentos seus nada transparentes? É evidente que esta situação não é nova. Quando, no final dos anos 80, se conheceu o escândalo do Banco do Vaticano - o IOR - soube-se que o Vaticano estava profundamente envolvido na teia dos paraísos fiscais e tinha lucros enormes nas indústrias electrónicas, da aviação, das telecomunicações e das obras públicas. Perdera muitos milhões de contos nas operações bolsistas de 70, no primeiro choque petrolífero. É justamente esse o universo que maiores lucros continua a dar. Representa a matriz central dos investimentos do Opus Dei. Ainda na passada semana, o FMI chamou a atenção dos investidores para as dificuldades de previsão dos efeitos financeiros da guerra no Iraque: se a guerra for curta, os lucros serão ilimitados ; se durar algum tempo mais, pode causar a recessão mundial da economia. Ora o FMI coordena, como se sabe, a comissão de planeamento do IOR. Razão por si só suficiente para explicar o silêncio dos cardeais.