Uma americana em Paris

Correia da Fonseca
Ao longo da História, dos tempos, da vida, há situações assim: um sujeito que pouco ou mesmo nada recomenda surge a praticar uma boa acção embora por más razões. pcp Nem por isso ficamos inclinados a canonizar a criatura na primeira oportunidade, não iniciamos uma revisão drástica da ideia que dele tínhamos, mas nem por isso deixamos de reconhecer que a tal boa acção é uma acção boa. E aos espertalhões que nos venham dizer, com laivos de um sarcasmo ensopado em má-fé, que «agora já achamos o homem aceitável», bem podemos responder que a coerência é nossa, defendemo-la como nosso património precioso e não temos nenhuma obrigação de andar a preservar o património dos outros. Ora, esta estória de uma boa acção num sujeito-que-nem-por-isso assenta lindamente no presidente Jacques Chirac e na oposição francesa, por ele assumida pessoalmente, à invasão dos territórios dos índios (onde há petróleo) pelos bons cobóis americanos, situação aliás já prevista e descrita há perto de setenta anos belo insuspeito Hergé no seu «Tintin en Amérique». Como se sabe, a diferença mais substancial entre a previsão e a trágica realidade actual é que os índios peles-vermelhas afinal são iraquianos; quanto aos bons americanos a diferença é só nos métodos e nas armas. De qualquer modo, tenho como certo que Chirac, cujo currículo passado não chega para entrar sem escala no paraíso, praticou uma boa acção. Dizem que por maus motivos, por questões de petróleo, de armas, de negócios afins. E o mais patusco é que quase todos que o dizem sustentam que a invasão ianque foi um acto de desinteressada benemerência em favor da humanidade, o que depõe de um modo arrasador em favor da espantosa ingenuidade de quem o diga ou, na alternativa à escolha, de uma nauseante desonestidade intelectual.

Equívocos USA 2003

Como é sabido, a boa acção de Chirac conferiu?lhe um pouco, e decerto por pouco tempo, o estatuto de representante de um certo espírito europeu, mais mítico que efectivo, que ainda podia ser o grande património da Europa no mundo se ela estivesse virada mais para isso que para as cotações de Wall Street, o que não acontece. Que diabo!, uma voz que dispara um sonoro «não!» na cara de quem, sentindo?se já dono do planeta, dá claros sinais de querer ser o seu pós-moderno Átila, é pelo menos um bom tema jornalístico. Terá sido por isso que a norte-americana CBS mandou a Paris uma jornalista, e decerto não das menos credenciadas, entrevistar Chirac. Feita ainda antes de 21 de Março, a entrevista foi transmitida pela SIC-Notícias na passada semana. Não foi especialmente esclarecedora quanto a Chirac e à posição francesa no actual momento, mas foi deliciosamente informativa do que se passa na cabecinha de uma americana que até é jornalista e, quase sem margem para dúvidas, também na cabeça dos seus compatriotas quanto à França, ao mundo, e também aos States, God save them.
Foi uma entrevista breve. Ainda assim, deu para que logo de início a jornalista injectasse uma pergunta com uma falsificação: afirmou que a França usaria o seu veto, na ONU «em qualquer circunstância», o que sesabe ser falso. Pouco tempo depois apresentou a Chirac «a conta do costume» ao recordar-lhe que os norte-americanos salvaram a França (e a Europa) por duas vezes. Primeira Guerra Mundial à parte (não me sobra espaço, apenas registo que os EUA só entraram em guerra em Abril de 1917, quase três anos depois da sua eclosão), recordo que, quanto à egunda Guerra, o primeiro ianque só desembarcou na Normandia quando os soviéticos já tinham batido os alemães no leste e pareciam poder vir por aí abaixo estender à Europa inteira a liquidação do capitalismo. Prosseguiu a jornalista confundindo amizade com cumplicidade obrigatória mesmo em crimes condenados pelo mundo inteiro. E desmascarou totalmente a arrogância norte-americana quando, logo a seguir, considerou a discordância francesa como um «desafio aos Estados Unidos» !). Seguiu-se, por fim, exibição de um libelo acusatório contra Chirac e a França por terem conversado e negociado com o Iraque de Saddam. O residente francês, que nas questões pecedentes havia evitado replicar com verdades inteiras, aproveitou nessa altura a oportunidade para devolver o libelo acrescido de juros: outros haviam feito o mesmo, pior e por mais tempo. Houve ainda mais umas questões menores. Ao fim, a jornalista terá saído do Eliseu com a ilusão de ter feito uma boa figura. Não fez: fez figura de ignorante, presumida e arguente de má-fé. Isto é: de jornalista digna dos States de George W. Bush.


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