O «pecado social»
O Plenário da Conferência Episcopal Portuguesa reuniu-se em Fátima, em princípios de Maio, e trabalhou durante quatro dias. O comunicado final foi decepcionante. Terá sido debatido pelos bispos portugueses o conteúdo de uma pastoral consagrada à denúncia dos males que corroem a vida da nossa sociedade - aquilo a que o Catecismo chama «pecado social». Ao que parece, o debate sobre este ponto foi inconclusivo. A «pastoral da ética social» viu-se adiada até finais de Junho e, mesmo assim, sem compromisso expresso por parte dos prelados. Logo se verá. O Colégio limitou-se a divulgar decisões menores: a condenação de actos praticados por grupos religiosos concorrentes, a criação do Gabinete de Estudos Pastorais, o estabelecimento da Comissão Episcopal da Cultura e a aprovação de uma nota sobre um tema antigo - a eliminação das barreiras arquitectónicas nos templos católicos. Recorde-se que, no calendário litúrgico, se assinala para 2003 o «Ano da Pessoa Deficiente». Mau seria que os bispos não recordassem, no momento «politicamente correcto», as gritantes dificuldades sentidas pelos cidadãos católicos com deficiências. Mas que mais terão estado a fazer em Fátima os bispos portugueses, durante quatro dias? Inquirido pelos jornalistas, o presidente da Conferência Episcopal limitou-se a responder evasivamente às perguntas que lhe dirigiam. «Os novos grupos confessionais» - declarou D. José Policarpo - «geram uma grande confusão» (embora tais grupos, recorde-se, se enquadrem na «lei das liberdades religiosas» que a igreja católica tão poderosamente inspirou). Depois, o cardeal-patriarca enredou-se nos embaraços de uma outra declaração, desta vez relativamente às negociações sobre a revisão da Concordata: «Nada sei sobre o estado actual das negociações. A Santa Sé propõe uma palavrinha, o Governo português demora 15 dias a responder; a Santa Sé aceita e propõe outra palavrinh ...». A acreditar-se no que diz D. José, nada sabe o eminente purpurado, membro da Cúria Romana, Cardeal-Patriarca, presidente da Conferência Episcopal, Magno Chanceler da Universidade Católica, Presidente do Conselho da Fundação
«Evangelização e Culturas», Conselheiro do Papa, etc., etc., acerca dos negócios da Concordata!... Sobre a fase da chamada «reconstrução do Iraque», o presidente do episcopado afirmou não ter sido o assunto discutido em Fátima adiantando, contudo, que a ele, cardeal-patriarca, não repugna a ideia de o Governo despachar uma unidade da GNR para um território estrangeiro soberano.
Ora, D. José Policarpo, melhor que ninguém, sabe que as palavras têm um sentido ético bem demarcado. «O pecado» - refere o Catecismo da Igreja Católica - «é um acto pessoal. Mas, além disso, nós temos responsabilidades nos pecados cometidos por outros, quando neles cooperamos. Tomando parte neles, directa ou voluntariamente; ordenando-os, aconselhando-os, aplaudindo-os ou aprovando-os; não os denunciando ou não os impedindo, quando a isso obrigados; protegendo os que praticam o mal... o pecado torna os homens cúmplices uns dos outros, faz reinar entre eles a concupiscência, a violência e a injustiça. Os pecados provocam situações sociais e instituições contrárias à bondade divina: as estruturas de pecado são a expressão e efeito dos pecados pessoais e induzem as suas vítimas a que, por sua vez, cometam o mal. Constituem, em sentido analógico, o pecado social.» (N.ºs 1868 e 1869).
Não sejamos, pois, ingénuos ao ponto de pensarmos que isto é novidade para os bispos portugueses. Todos eles estão a par da corrupção generalizada que mina as instituições da nossa sociedade. Todos eles (os bispos) conhecem os nomes daqueles que fazem fortuna à custa do sofrimento e da miséria dos outros e dos valores da ética social. Nada os impede, porém, de neles (nos pecados sociais) cooperarem activamente «ordenando-os, aconselhando-os, aplaudindo-os ou aprovando-os». Escutem-se, só, os silêncios da Conferência Episcopal Portuguesa quando se debatem e se fazem aprovar por maiorias manipuladas leis e regulamentos ignóbeis como os do código laboral, da imigração, das privatizações, da segurança social, da saúde, da defesa, dos institutos financeiros ou dos sistemas de subsídios e isenções de que a igreja é a principal beneficiária. Aí está a sede do pecado social.
«Evangelização e Culturas», Conselheiro do Papa, etc., etc., acerca dos negócios da Concordata!... Sobre a fase da chamada «reconstrução do Iraque», o presidente do episcopado afirmou não ter sido o assunto discutido em Fátima adiantando, contudo, que a ele, cardeal-patriarca, não repugna a ideia de o Governo despachar uma unidade da GNR para um território estrangeiro soberano.
Ora, D. José Policarpo, melhor que ninguém, sabe que as palavras têm um sentido ético bem demarcado. «O pecado» - refere o Catecismo da Igreja Católica - «é um acto pessoal. Mas, além disso, nós temos responsabilidades nos pecados cometidos por outros, quando neles cooperamos. Tomando parte neles, directa ou voluntariamente; ordenando-os, aconselhando-os, aplaudindo-os ou aprovando-os; não os denunciando ou não os impedindo, quando a isso obrigados; protegendo os que praticam o mal... o pecado torna os homens cúmplices uns dos outros, faz reinar entre eles a concupiscência, a violência e a injustiça. Os pecados provocam situações sociais e instituições contrárias à bondade divina: as estruturas de pecado são a expressão e efeito dos pecados pessoais e induzem as suas vítimas a que, por sua vez, cometam o mal. Constituem, em sentido analógico, o pecado social.» (N.ºs 1868 e 1869).
Não sejamos, pois, ingénuos ao ponto de pensarmos que isto é novidade para os bispos portugueses. Todos eles estão a par da corrupção generalizada que mina as instituições da nossa sociedade. Todos eles (os bispos) conhecem os nomes daqueles que fazem fortuna à custa do sofrimento e da miséria dos outros e dos valores da ética social. Nada os impede, porém, de neles (nos pecados sociais) cooperarem activamente «ordenando-os, aconselhando-os, aplaudindo-os ou aprovando-os». Escutem-se, só, os silêncios da Conferência Episcopal Portuguesa quando se debatem e se fazem aprovar por maiorias manipuladas leis e regulamentos ignóbeis como os do código laboral, da imigração, das privatizações, da segurança social, da saúde, da defesa, dos institutos financeiros ou dos sistemas de subsídios e isenções de que a igreja é a principal beneficiária. Aí está a sede do pecado social.