A epopeia serena

Correia da Fonseca
Cinema é cinema, televisão é uma outra coisa, e quem se mete a avaliá-la não pode desprender-se do fenómeno social, e naturalmente que sociopolítico, que ela é talvez antes de tudo o mais. Nem será disparate excessivo dizer que, na verdade, televisão é o somatório das imagens que o televisor nos traz mais os olhos que as vêem e a cabeça que de um modo ou de outro as pensa. Por isso fiquei inquieto quando terminou o primeiro episódio de «Até Amanhã, Camaradas», transmitido num conjunto de três no serão de sexta-feira passada. Durante a quase uma hora inicial, víramos sucessivos contactos clandestinos de militantes que no Portugal do fascismo teciam a rede de resistência não apenas à opressão política mas também à miséria, à fome, à arrogância brutal de um patronato protegido pela polícia política. Não haviam sido cenas espectaculares, susceptíveis de se entenderem bem com o gosto de teleplateias permanentemente expostas ao bombardeamento de meladices de pataco entrelaçadas com estórias de «violência e acção». E eu receei que boa parte dos telespectadores se tivesse afastado, bocejando, por aquele não ser o género de televisão que lhes agrada, que vagamente os estimula e muito os embala. Para mais, aqueles homens tinham diálogos secos e duros, se bem que entre eles sempre se alongasse o entendimento de uma fraternidade contida, e também esse tom podia talvez vir corroborar no espírito de muitos alguns preconceitos falsos e tontos que nele têm sido injectados ao longo dos anos. Felizmente para mim, os episódios seguintes, quer os transmitidos na sexta-feira quer os de sábado, atenuaram em larga medida as minhas apreensões. Com razão ou sem ela, persuadi-me de que a intensificação da acção narrada, a flagrante e averiguada veracidade de tudo quanto nos era contado e a rigorosa qualidade de todos os factores componentes daquele trabalho, conquistariam se não a totalidade dos telespectadores pelo menos a maioria que ainda não está intoxicada pelo gosto da mediocridade.

Várias décadas depois

Na verdade, esta transposição para o audiovisual do livro de Manuel Tiago é a vários títulos notável, e um deles é a escrupulosa fidelidade ao texto original. Este não é pequeno mérito mas implicou algum risco. Quando o romance foi escrito e quando surgiram as suas primeiras edições, no espírito dos que o leram estava decerto bem presente a terrível realidade do País onde aquele punhado de homens e mulheres prosseguia um combate determinado, convicto, de uma quase inacreditável coragem. De então para cá, porém, decorreram décadas, nasceu e cresceu gente, mudou a face do quotidiano embora não tanto o cerne das coisas. Sobre a luta dos comunistas contra o fascismo talvez não tenham sido disparadas, apesar de tudo, muitas falsificações e calúnias (o respeito por essa luta é recorrentemente afirmado até por sectores que praticam agora um anticomunismo de escassos escrúpulos), mas é quotidiano o manto de silêncio sobre ela lançado, e muitas vezes o silêncio basta para diluir verdades fundamentais. Para um leitor de «Até Amanhã, Camaradas» em anos anteriores à década de 80 não seria preciso narrar o que havia sido a vida sob o fascismo: a memória desse tempo ainda estava bem viva. A um telespectador de 2005 é provável que esse contexto falte, pelo que muitas vezes seria preciso explicar-lhe para que tudo o que a série conta se completasse com o seu inteiro sentido. Seguindo a letra e o tom do livro com inteira fidelidade, o que aliás foi uma bonita opção, Luís Filipe Rocha e Joaquim Leitão expuseram-se ao risco de faltar ao espectador actual a percepção do contexto que no romance está muito mais implícito que explícito. Assim, e por exemplo, na série é dito que o povo passa fome, o que é naturalmente uma forte motivação para a luta, mas a fome não nos é mostrada: durante o fascismo, uma breve alusão ao facto já era bastante. Talvez a construção audiovisual em 2005 aconselhasse essa visualização, não sei. Sei que seria um desvio, um complemento em relação ao texto, e que Rocha/Leitão escolheram a fidelidade ao livro. Terão optado bem, embora com o risco de perderem o acompanhamento de alguns telespectadores.
De qualquer modo, o resto é que é importante, e o resto é a fusão da mestria e delicadeza com que nos é dada a epopeia serena que foi o momento mais alto da honra portuguesa no século XX. O resto é também a alegria de termos agora em imagem e com som um documento que já era precioso enquanto texto ficcional directamente enraizado na realidade vivida. O resto é também a certeza que dali se desprende de que aquela estória verdadeira, pela força das coisas, um dia será concluída; o futuro nos dirá como e em que termos.