Por um prato de lentilhas
Como diz a Bíblia, Esaú vendeu o seu direito de primogénito ao seu irmão Jacob, por um prato de lentilhas. Isto de ser primogénito era coisa importantíssima, que dava direitos especiais de herança e vantagens várias, naqueles tempos pré-cristãos, porque a história, se não me engano, é do Antigo Testamento.
Ao ouvir esta história, qualquer cidadão minimamente atento pensa: Mas este Esaú fez isto porquê? Primeira hipótese: O homem gostava mesmo muito de lentilhas. Segunda: Tinha uma fome tremenda. Terceira: Era um idiota chapado. É evidente que a terceira hipótese é a correcta, e, segundo a Bíblia, quem goza um bem material imediato, pode perder maiores benesses futuras nesta e nas outras vidas.
Admitamos que o Esaú tinha mesmo fome e gostava de lentilhas. Como as comeu? Aqui também há pelo menos duas possibilidades: a primeira: Depois de demolhadas durante umas seis horas, fez um refogado com azeite, cebola, cenoura e alho francês. Deitou-lhe toucinho, chouriço e umas tirinhas de carne de porco fresco. Esperou uns minutos para que os sabores se misturassem, e regou com água. Em seguida incorporou as lentilhas e deixou cozer em lume brando. Um pouco de alho, salsa e louro também ficaria bem.
Esta hipótese não é provável por duas razões. A saber: 1. Já naquela altura, isto do «porco» na comida não devia estar muito bem visto. 2. A Bíblia diz que Esaú «se vendeu por um prato de lentilhas», e não «que o deixaram cozinhar um prato de lentilhas».
A segunda possibilidade é que o prato tenha sido feito por alguém, seguindo a receita anterior, mas sem carne, só vegetais. Depois de bem estufadas, umas mãos de mulher terão desfeito num almofariz as lentilhas até ficarem em puré. (Isto hoje pode ser feito no «passe-vite» ou com a «varinha»). Esse puré vai ao lume para concentrar mais a pasta – cuidado que salta como o vulcão dos Capelinhos nos Açores, e queima! Essa pasta deita-se num prato, numa travessa, alisa-se com um garfo, rega-se com um fio de azeite, e até se podem espalhar umas sementes de sésamo. Fica lindo, e assim deve ter sido ter sido como Esaú o comeu. Ainda hoje, em todos os países mediterrânicos do Oriente Médio, se fazem estes purés com lentilhas, grão e feijão.
O que não se sabe e a Bíblia não diz, é porque é que estas lentilhas, uma leguminosa seca, de imensa variedade de cores, que parece uma ervilha seca espalmada, muito saborosa, porque é que, dizia, não se comem em Portugal. No entanto, mal se passa a fronteira, já aparece na Espanha em todas as casas e restaurantes, baratos ou caros, e todos os países mediterrânicos as comem. Fica a ignorância.
O outro lado
Mas a história bíblica tem o seu quê: sempre se vê do lado do tonto do Esaú. Mas se a virmos do lado do Jacob? Como era este sujeito? Pois parece que deveria ser, nos tempos de hoje, um tipo esperto, agressivo, bem falante, computador à trela e telemóvel última geração em riste, com uns Masters tirados (ou comprados) nos EUA. Eh pá, enfim, um empresário moderno! Para sermos mais claros inventemos um exemplo: um sujeito que na juventude foi de esquerdas, à brava, comuna convencido e lutador diário (não só aos Domingos) pela libertação dos trabalhadores. Um dia, depois de verificar que com a comunagem nunca chegaria a Ministro, nem sequer a Director-Geral de qualquer coisa, reparou como Marx, Engel e Lenine tinham imensos erros na sua teoria, vá, que aquilo estava tudo mal pensado.
Logicamente ofereceu-se ao patrão do partido que podia ganhar as próximas eleições. Fez a autocrítica (perdão, confessou-se) e foi aceite e promovido a Cardeal. Outros apóstolos que o seguiram ficaram-se por deputados ou presidentes de empresas estatais. Mais tarde, perderam as eleições, mas logo uma empresa dos (antes) malvados castelhanos o convidou para Presidente, tendo que deixar o seu lugar de conselheiro de um banqueiro muito da «Obra de Deus».
Agora vive feliz, este Jacob, preparando a entrada da sua querida companhia privada em posição de força numa grande empresa portuguesa: sei lá! É uma ideia tonta, mas, por exemplo na EDP. E, pensa ele: quem se poderá opor a que ele seja Presidente? Sim, quem?
Tudo isto começou, lembro-vos, com um pequeníssimo investimento: um prato de lentilhas.
Dedicado a todos os arrivistas, trânsfuguistas e oportunistas, com o meu mais sincero e profundo desprezo.
Ao ouvir esta história, qualquer cidadão minimamente atento pensa: Mas este Esaú fez isto porquê? Primeira hipótese: O homem gostava mesmo muito de lentilhas. Segunda: Tinha uma fome tremenda. Terceira: Era um idiota chapado. É evidente que a terceira hipótese é a correcta, e, segundo a Bíblia, quem goza um bem material imediato, pode perder maiores benesses futuras nesta e nas outras vidas.
Admitamos que o Esaú tinha mesmo fome e gostava de lentilhas. Como as comeu? Aqui também há pelo menos duas possibilidades: a primeira: Depois de demolhadas durante umas seis horas, fez um refogado com azeite, cebola, cenoura e alho francês. Deitou-lhe toucinho, chouriço e umas tirinhas de carne de porco fresco. Esperou uns minutos para que os sabores se misturassem, e regou com água. Em seguida incorporou as lentilhas e deixou cozer em lume brando. Um pouco de alho, salsa e louro também ficaria bem.
Esta hipótese não é provável por duas razões. A saber: 1. Já naquela altura, isto do «porco» na comida não devia estar muito bem visto. 2. A Bíblia diz que Esaú «se vendeu por um prato de lentilhas», e não «que o deixaram cozinhar um prato de lentilhas».
A segunda possibilidade é que o prato tenha sido feito por alguém, seguindo a receita anterior, mas sem carne, só vegetais. Depois de bem estufadas, umas mãos de mulher terão desfeito num almofariz as lentilhas até ficarem em puré. (Isto hoje pode ser feito no «passe-vite» ou com a «varinha»). Esse puré vai ao lume para concentrar mais a pasta – cuidado que salta como o vulcão dos Capelinhos nos Açores, e queima! Essa pasta deita-se num prato, numa travessa, alisa-se com um garfo, rega-se com um fio de azeite, e até se podem espalhar umas sementes de sésamo. Fica lindo, e assim deve ter sido ter sido como Esaú o comeu. Ainda hoje, em todos os países mediterrânicos do Oriente Médio, se fazem estes purés com lentilhas, grão e feijão.
O que não se sabe e a Bíblia não diz, é porque é que estas lentilhas, uma leguminosa seca, de imensa variedade de cores, que parece uma ervilha seca espalmada, muito saborosa, porque é que, dizia, não se comem em Portugal. No entanto, mal se passa a fronteira, já aparece na Espanha em todas as casas e restaurantes, baratos ou caros, e todos os países mediterrânicos as comem. Fica a ignorância.
O outro lado
Mas a história bíblica tem o seu quê: sempre se vê do lado do tonto do Esaú. Mas se a virmos do lado do Jacob? Como era este sujeito? Pois parece que deveria ser, nos tempos de hoje, um tipo esperto, agressivo, bem falante, computador à trela e telemóvel última geração em riste, com uns Masters tirados (ou comprados) nos EUA. Eh pá, enfim, um empresário moderno! Para sermos mais claros inventemos um exemplo: um sujeito que na juventude foi de esquerdas, à brava, comuna convencido e lutador diário (não só aos Domingos) pela libertação dos trabalhadores. Um dia, depois de verificar que com a comunagem nunca chegaria a Ministro, nem sequer a Director-Geral de qualquer coisa, reparou como Marx, Engel e Lenine tinham imensos erros na sua teoria, vá, que aquilo estava tudo mal pensado.
Logicamente ofereceu-se ao patrão do partido que podia ganhar as próximas eleições. Fez a autocrítica (perdão, confessou-se) e foi aceite e promovido a Cardeal. Outros apóstolos que o seguiram ficaram-se por deputados ou presidentes de empresas estatais. Mais tarde, perderam as eleições, mas logo uma empresa dos (antes) malvados castelhanos o convidou para Presidente, tendo que deixar o seu lugar de conselheiro de um banqueiro muito da «Obra de Deus».
Agora vive feliz, este Jacob, preparando a entrada da sua querida companhia privada em posição de força numa grande empresa portuguesa: sei lá! É uma ideia tonta, mas, por exemplo na EDP. E, pensa ele: quem se poderá opor a que ele seja Presidente? Sim, quem?
Tudo isto começou, lembro-vos, com um pequeníssimo investimento: um prato de lentilhas.
Dedicado a todos os arrivistas, trânsfuguistas e oportunistas, com o meu mais sincero e profundo desprezo.