As eleições presidenciais ucranianas produziram uma decisão complexa

Ucrânia chegou às portas da incerteza

Manoel de Lencastre
No dia da terceira votação para o lugar de Presidente da República da Ucrânia (26.12.2004), foi interessante assistir ao desfile de carros com nacionais ucranianos que se dirigiam à respectiva embaixada onde a votação estava a ter lugar. Arvoravam pequenas bandeiras de côr laranja e quase todos pareciam seguros na convicção de que o candidato que assim se distinguia conseguiria a vitória. Para nós, portugueses, as coisas da Ucrânia continuam a ter o seu valor. Mas a chegada de tantos imigrantes que vieram refazer as suas vidas no nosso país e contribuir para melhorá-lo, criou condições adicionais para que esse valor, o do passado recente, se tenha alargado.
O mundo inteiro ganhou interesse nas eleições presidenciais ucranianas. Dois candidatos. Um, de feição mais conservadora, Viktor Yanukovitch representava alguns princípios recentemente descartados, mas é, talvez por isso, um homem ligado a negócios privados em grande escala. O outro, Viktor Yushchenko, propunha, claramente, a entrada do país na modernidade da União Europeia, a adesão a todas as organizações que assinalam o domínio do capitalismo na Europa actual, o abandono, ainda que pacífico, das tradicionais relações com o poderoso vizinho eslavo. O primeiro candidato apresentava-se como herdeiro da era pós-soviética em que a Ucrânia sofreu dificuldades compreensíveis para adaptar-se a condições novas e foi dirigida por homens de reputação muito contestada, Leonid Kravchuk e o presidente cessante, Leonid Kuchma.
Atraído pelo programa e pela personalidade de Viktor Yushchenko, muito povo, juventude, particularmente, começou a juntar-se, apesar das baixas temperaturas, no centro de Kiev junto aos edifícios onde as instituições governamentais funcionam. Todos vimos, então, o «élan» exibido por milhares de candidatos a cidadãos europeus, gente desejosa de ver no seu país um sistema politico-económico similar aos que funcionam nos países de democracia ocidental onde o capitalismo, acreditam, além de construir as cidades do amanhã, se ocupa, igualmente, assim supõem, da criação do homem novo. Parece que os actos eleitorais anteriormente levados a efeito tinham ficado feridos de grosseiras irregularidades no sentido de que o candidato do sistema fosse favorecido. Viktor Yushchenko, assim, teria sido prejudicado e dizia-se, até, que misteriosas fôrças ao serviço do 'antigamente' o teriam tentado enevenar, o que podia provar-se por alterações inesperadas na pele do rosto, uma situação certificada por certos médicos.
Os acampamentos, naquelas noites de Kiev tornaram-se, rapidamente, dignos da atenção de todos aqueles países aos quais a Ucrânia deseja associar-se. Observadores menos entusiásticos não hesitaram em referir aspectos pouco decorosos de que se revestiu o protesto pró-Yushchenko durante essas frias noites. E começaram a aparecer os inevitáveis emissários do imperialismo, muitos em representação das velhas épocas históricas em que os eslavos ucranianos foram implacavelmente oprimidos e dizimados.
Um desses emissários, Lech Walesa, figura que dispensa quaisquer comentários, chegou a Kiev com dois objectivos: o primeiro, o de contribuir para a luta tendente a subtrair a Ucrânia à amizade com a Rússia; o segundo, o de promover a aproximação com a Polónia cujo desejo de invadir o mercado ucraniano com produtos invendáveis noutros lugares é evidente. Depois, surgiram outros políticos polacos e lituanos, principalmente, com objectivos idênticos aos de Walesa. Este, já se apresentava como representante da União Europeia. Os seus chefes imediatos chamam-se George Bush, Durão Barroso, Xavier Solana. Evidentemente, como o passado se repete embora em condições diferentes, tanto a Polónia como a Lituânia voltaram à cena ucraniana. O desejo destes países nada tem de fraternal para com a velha nação dos grandes príncipes de Kiev. Fazem, apenas, o triste papel de testas de ponte do capitalismo. E é isso que nos entristece.

Perspectivas ucranianas

A ambição de uma possível entrada na União Europeia, até certo ponto justificada posto que outros países da antiga esfera socialista já foram aceites nesse círculo, está a dominar as condições em que Viktor Yushchenko tomará posse. Velhos interesses, principalmente nas regiões mais afastadas das actuais fronteiras ocidentais, prevalecem. Mas a Ucrânia, como qualquer outro país, não pode continuar a viver de modo mal definido. Ou regressa ao socialismo avançando com mais modernas e eficientes condições, o que nos parece, de momento, pouco pensável; ou envereda pelo capitalismo, abertamente, entra nas ruelas do mercado para sofrer e servir os velhos mestres polacos e lituanos, os porta-bandeira, os criados, de outros mais poderosos que espreitam a oportunidade de dominarem Kiev, a mãe de todas as cidades.
Entretanto, o que espera os ucranianos que aguardavam nas noites gélidas da capital a solução da grave crise política que se desenvolveu em Novembro e Dezembro? Sejamos claros: o que os espera é a perda de muito da soberania nacional; a cedência rápida da capacidade de defender a língua e a cultura nacionais perante a invasão de produtos pseudo-culturais e espectáculos de fundo negativo que os decadentes círculos ocidentais avançam; o eventual abandono da moeda nacional e, com isso, o nascer de uma estranha incapacidade para serem os verdadeiros senhores do orçamento nacional; o desmantelamento do sistema alfandegário e a perda de receitas originadas pelos direitos cobráveis a milhões de produtos supérfluos e desnecessários que os países desenvolvidos exportam para os de mais baixo desenvolvimento económico; a perda da autoridade nacional para avaliar e decidir uma política de taxas de câmbio; a perda da autoridade nacional que permita a aplicação de taxas de juros de modo a poder possuir-se uma política económica independente; a exploração do trabalho do povo, o alargamento da prostituição e da importação de bebidas alcoólicas, a criação de zonas de jogo, o aparecimento de uma mais sofisticada economia secundária, a fuga aos impostos, o desinteresse pelas prioridades nacionais, a desmoralização colectiva, mais privatizações, o assalto à economia por empresários fantasma - a perda de muitos outros valores. Mas à Ucrânia será exigido que adira à NATO e participe nas guerras dos impérios americano e europeu em troca das grandes 'vantagens' que lhe serão concedidas, tal como acima se indica.
O país de Vladimir, o Grande, entretanto, já conheceu melhores dias.

A voz da História

Ano de 750: Kiev emerge como cidade fortaleza e grande centro comercial; 1240: Invasão mongol; 1654: Protectorado russo; 1914-18: Invasão alemã; 1919-21: Invasão polaca, guerra civil russa; 1932-33: Colectivização da agricultura; 1943-44: Invasão nazi e ocupação do país; 1986: Desdastre nuclear em Chernobil; 1991: Desintegração da URSS e independência.
Kiev, a capital ucraniana, é o centro intelectual do país. É lá que se situam a Universidade e os Institutos de ensino técnico, entre outras instituições. Mas é, igualmente, um importante centro industrial. A chamada “mãe de todas as cidades”, foi a primeira capital russa. Mercado de escravos, tributária dos “kazares”, foi conquistada por Askold, um guerreiro 'viking' ao serviço de Riurik. O sucessor deste, Oleg (879-912), surgiu de Novgorod para estabelecer em Kiev a sua capital. Entretanto, no reino de Igor (912-945), o cristianismo começava a implantar-se na região. Olga, viúva e herdeira de Igor (945-957), foi baptisada em Constantinopla tomando o nome cristão de Helena. Mas o paganismo reimpôs-se, já no reino de Sviatoslav (964-972). O Estado de Kiev, bastante disperso, seria reunificado por Vladimir, o Grande (980-1015), um príncipe que desposaria a irmã de Basílio II, Ana Porfirogeneta, em nome da aliança com Bizâncio.
O apogeu da cidade de Kiev verificar-se-ía durante o reino de Yaroslav (1017 e 1019-1054) quando começaram a aparecer notáveis monumentos. Como próspero centro comercial começou a receber a visita de mercadores de vários países. As primeiras moedas russas começaram a ser cunhadas durante esse período. Mas invadida e ocupada em 1169 por Andrei Bogoliubski seria fortemente saqueada. Em Dezembro de 1240, novos invasores provenientes da Mongólia destrui-la-íam. Em 1361 aparecia o príncipe lituano, Olgierd, a ocupar-se das ruínas. Já sob a suzerania da Polónia, Kiev continuava exposta a constantes invasões e tornou-se cidade tributária dos tártaros da Crimeia. Pelo tratado de 1667 (Andrussovo) a Polónia afastava-se da cena regional dando a Kiev a posição de capital da "pequena Rússia", em 1775. A Universidade foi criada em 1834.
Após a Revolução das Revoluções dirigida por Lenin, em 1917, a Ucrânia passaria à categoria de segunda República mais importante da URSS. Mas o instrumento da sovietização do país só começaria a ganhar forma em fins de 1918 quando surgiu o Exército Vermelho ucraniano.

Hitlerianos em Kiev

A 7 de Julho de 1941, o Soviete Supremo da Ucrânia e o Partido Comunista ucraniano apelavam ao povo para que se opuzesse à invasão nazi. Mais de 200.000 cidadãos, incluindo 30.000 comunistas, acorreram aos centros de alistamento no Exército Vermelho. Estudantes e jovens trabalhadores eram os mais entusiastas. Os alemães apresentavam-se para dominar a Ucrânia e a sua capital, particularmente, com oito divisões sob o comando de von Rundstedt. Aabrir caminho, os exércitos de tanques de Guderian e von Kleist.
A 10 de Agosto, dois exércitos soviéticos estavam irremediavelmente perdidos, apesar de terem oferecido resistência heróica diante de poderosas formações de “panzers”. Os hitlerianos, ao longo de todo o mês de Agosto, exerceram repetidas tentativas para chegar às vizinhanças de Kiev e entre 25 e 30 desse mês surgiam nas margens do Dnieper. O general Yeremenko, comandante da Frente de Bryansk, garantia a Moscovo que os “panzers” seriam destruidos. Mas não conseguiria impedir Guderian e von Kleist de ultrapassarem Kiev deixando-a à mercê do grosso das fôrças germânicas que se aproximavam.
No começo da operação de defesa da capital ucraniana, o Exército Vermelho posicionado na região dispunha de efectivos computados em 677.085 homens. Mas após a derrota, esse número baixara para 150.541, sómente.

Vatutin reconquista Kiev

O drama da guerra trouxera destruições inenarráveis à URSS. Mas a Alemanha nazi esgotou-se e gritou de dor perante o espectador supremo, o mundo, face a perdas terríveis nas frentes de Moscovo e de Stalinegrado. A guerra transformou-se. O imperialismo ía ser derrotado. A URSS surgiria perante o mundo como a potência que apoiaria o movimento de libertação nacional e ajudaria as nações no caminho da soberania económica.
Para a libertação de Kiev, o comandante da 1ª Frente Ucraniana, Nikolai Vatutin (1901-1944) apresentou-se de duas direcções. Mas as linhas defensivas nazis mantinham-se firmes. As más condições no terreno não favoreciam os movimentos do 3º Exército de Tanques (Guardas) do comando de Pavel Rybalko. Até que surgiu a palavra de ordem: «Libertem Kiev no 26º aniversário da Revolução de Outubro!». Na manhã de 3 de Novembro de 1943, os exércitos de Chernyakovsky (60º) e de Moskalenko (38º) assumiram a ofensiva e cercaram a capital ucraniana. A 4, com as condições do tempo a piorarem, o avanço tornava-se quase precário. Os grupos de tanques soviéticos, porém, mantinham a pressão sobre o inimigo, mesmo durante a noite. A 5, unidades de carros blindados (Rybalko) conseguiam cortar a estrada Kiev-Zitomir e ao cair da noite tropas do 38º exército apareciam nas vizinhanças de Kiev e começavam os combates de ruas. A resistência dos nazis terminaria às quatro horas do dia 6 de Novembro e Moscovo ouviria a saudação ao Exército Vermelho que uma intensa barragem de artilharia traduzia.
Durante os dois anos de ocupação por parte dos bárbaros nazis o povo ucraniano sofreu o assassínio de 195.000 pessoas e a cidade de Kiev foi barbaramente destruida. Mas a guerra, agora, era em sentido contrário e só terminaria em Berlim. Entretanto, o herói que comandou as operações de libertação da Ucrânia contra os hitlerianos, Nikolai Vatutin, seria assassinado em Março de 1944 quando se preparava para libertar Rovno, por fanáticos ucranianos anti-comunistas e anti-soviéticos ao serviço dos alemães.

Quem foi Vatutin?

O general Nikolai Vatutin (1901-1944) celebrizou-se por ter liderado os exércitos que recapturaram Stalinegrado, a Ucrânia e Kiev. Diplomado pela Academia Frunze em 1929 subiu na hierarquia do Exército Vermelho e tornou-se num dos principais conselheiros militares de Stalin, na “Stavka”. Em 1941, quando os nazis entravam na URSS, Vatutin ocupava a posição de Chefe Operacional às ordens do Estado-Maior. No ano seguinte, passava a comandante da Frente de Voronezh e em Novembro desse mesmo ano dirigia a famosa ofensiva sobre Stalinegrado em conjunto com exércitos comandados por Rokossovski e Yeremenko. Esta ofensiva, como não se ignora, conduziria à captura de von Paulus e à derrocada do 6º Exército nazi.
Na campanha de Kursk, Vatutuin foi o general que susteve o contra-ataque germânico liderado por Manstein. Depois, assumiria o avanço sobre Karkov, cidade que libertou. Em Janeiro de 1944 entrava em Kiev, mas em princípios de Março ucranianos ao serviço de Hitler emboscaram-no perto de Rodno e assassinaram-no.


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