O QUE FAZ FALTA
«Nesses vinte e oito anos, tudo foi tentado para superar a crise, excepto... mudar de política»
De um momento para o outro, a estabilidade passou a ser a grande questão nacional e a condição indispensável para superar a grave crise que o País atravessa. Por estabilidade, entendem, todos os que sobre o tema se têm debruçado – desde a generalidade dos comentadores e analistas ao serviço da política de direita, até ao Presidente da República – a criação de condições parlamentares para que o futuro governo, seja ele rosa ou laranja, cumpra, sem obstruções nem bloqueios, o próximo mandato. Nisso residiria, ao que parece, o caminho para a retoma da confiança, do optimismo ou, como é uso dizer-se, da auto-estima dos portugueses, já que, também ao que parece, a dita auto-estima (que havíamos reconquistado, com o Euro/2004) e, com ela, a necessária estabilidade, perderam-se não se sabe quando, nem como, nem porquê – tendo-se revelado vãs todas as tentativas feitas para as reconquistar. Erguemos «a maior árvore do Natal da Europa»; «Durão Barroso é a personalidade do ano na política»; jorrámos «a maior cascata de fogo de artifício do mundo»; «Sócrates convidou professores de Harvard e do MIT para as Novas Fronteiras»; antes de Sócrates, «era comum ouvir alguns socialistas dizer que Louçã seria o secretário geral ideal para o PS»; fabricámos «o maior bolo-rei do mundo»; «Zita Seabra encabeça a lista do PSD em Coimbra»; «Paulo Portas convocou os militantes do CDS-PP por SMS»; as «detenções por álcool a mais subiram 36,8%»; a «Quinta das Celebridades» foi o que se viu – e nem assim a desejada auto-estima e a sonhada estabilidade foram reconquistadas.
O Presidente da República veio agora dizer-nos que o caminho para a estabilidade passa pelo cumprimento do «mandato de quatro anos, tempo indispensável para executar políticas consistentes e obter os consensos necessários».
Ora, qualquer cidadão medianamente informado está em condições de lembrar ao Presidente da República, com o devido respeito, que nada indica que o caminho passe por aí e tudo indica que não passa. A experiência mostra que, de 1976 até agora (ou seja desde o ano em que se iniciou a política de direita que tem vindo a ser levada à prática até aos dias de hoje) já tivemos de tudo em matéria de duração de governos: mandatos inteiros e mandatos quebrados; mandatos de quatro anos (terminando em crise grave); mandatos de seis e dez anos (com crise ainda maior e com o acrescento da fuga dos principais responsáveis) – e nada de estabilidade. Pelo que, é mister procurar noutro lado as causas da crise e da instabilidade.
A saída da crise e a reconquista da estabilidade também não parecem situar-se no «entendimento entre as principais forças políticas» constante no apelo lançado pelo Presidente da República. Partindo da ideia de que, ao falar em «principais forças políticas», o Presidente da República se refere, essencialmente, ao PS e ao PSD, também neste caso cumpre apelar à memória e relembrar que entendimentos desses não têm faltado ao longo dos últimos vinte e oito anos. Se não recorde-se: Governo PS sozinho de facto aliado à direita; governo PS/CDS; governo PS/PSD; governo PSD com maioria absoluta; governo PS/Queijo Limiano; governo PSD/CDS...
Perante isto, duas perguntas e outra tantas respostas se impõem: que outros entendimentos é possível engendrar entre as «principais forças políticas»?: nenhuns, já tudo foi tentado, está tudo esgotado; e: quais foram os resultados de todos os entendimentos concretizados?: crise, agravamento da crise, crise grave.
Assim sendo, também o «entendimento entre as principais forças políticas» não só não é solução mas, bem pelo contrário, constitui factor de agravamento da crise e da instabilidade.
Recapitulando: a grave crise que o País atravessa e a instabilidade reinante, não radicam no não cumprimento dos mandatos governamentais e muito menos têm a ver com a imaginária inexistência de «entendimento entre as principais forças políticas». Antes pelo contrário: os muitos e graves problemas que afligem a imensa maioria dos portugueses; o aumento da pobreza e o crescimento das grandes riquezas; o processo de destruição sistemática do aparelho produtivo nacional; o empobrecimento crescente do conteúdo democrático do regime; a venda ao desbarato de pedaços da soberania nacional colocando os destinos do País nas mãos dos grandes e poderosos da Europa e do mundo – constituem algumas das consequências de vinte e oito anos de mandato cumprido ao serviço da política de direita e de um entendimento pleno, em todas as questões essenciais, «entre as principais forças políticas», aliás, em permanente rota de colisão com a Constituição da República Portuguesa.
Com rigor, pode dizer-se que, nesses vinte e oito anos, tudo foi tentado para superar a crise, excepto... mudar de política. E está à vista de quem não queira fingir que não vê, que é isso que faz falta, que é na mudança de política que está a solução para a crise e para a instabilidade existentes.
É para isso, aliás, que importa alertar os eleitores: mais do que alimentar-lhes a ilusão de que «sempre têm revelado uma grande sabedoria nas suas escolhas» (facto que a realidade desmente exuberantemente) há que dizer-lhes e demonstrar-lhes que não estão condenados a sofrer eternamente as consequências da política de direita, que há soluções para vencer a crise, e que essas soluções passam, isso sim, por uma mudança de política séria e a sério. E que o primeiro passo para essa mudança consiste no reforço da votação e do número de deputados da CDU.
O Presidente da República veio agora dizer-nos que o caminho para a estabilidade passa pelo cumprimento do «mandato de quatro anos, tempo indispensável para executar políticas consistentes e obter os consensos necessários».
Ora, qualquer cidadão medianamente informado está em condições de lembrar ao Presidente da República, com o devido respeito, que nada indica que o caminho passe por aí e tudo indica que não passa. A experiência mostra que, de 1976 até agora (ou seja desde o ano em que se iniciou a política de direita que tem vindo a ser levada à prática até aos dias de hoje) já tivemos de tudo em matéria de duração de governos: mandatos inteiros e mandatos quebrados; mandatos de quatro anos (terminando em crise grave); mandatos de seis e dez anos (com crise ainda maior e com o acrescento da fuga dos principais responsáveis) – e nada de estabilidade. Pelo que, é mister procurar noutro lado as causas da crise e da instabilidade.
A saída da crise e a reconquista da estabilidade também não parecem situar-se no «entendimento entre as principais forças políticas» constante no apelo lançado pelo Presidente da República. Partindo da ideia de que, ao falar em «principais forças políticas», o Presidente da República se refere, essencialmente, ao PS e ao PSD, também neste caso cumpre apelar à memória e relembrar que entendimentos desses não têm faltado ao longo dos últimos vinte e oito anos. Se não recorde-se: Governo PS sozinho de facto aliado à direita; governo PS/CDS; governo PS/PSD; governo PSD com maioria absoluta; governo PS/Queijo Limiano; governo PSD/CDS...
Perante isto, duas perguntas e outra tantas respostas se impõem: que outros entendimentos é possível engendrar entre as «principais forças políticas»?: nenhuns, já tudo foi tentado, está tudo esgotado; e: quais foram os resultados de todos os entendimentos concretizados?: crise, agravamento da crise, crise grave.
Assim sendo, também o «entendimento entre as principais forças políticas» não só não é solução mas, bem pelo contrário, constitui factor de agravamento da crise e da instabilidade.
Recapitulando: a grave crise que o País atravessa e a instabilidade reinante, não radicam no não cumprimento dos mandatos governamentais e muito menos têm a ver com a imaginária inexistência de «entendimento entre as principais forças políticas». Antes pelo contrário: os muitos e graves problemas que afligem a imensa maioria dos portugueses; o aumento da pobreza e o crescimento das grandes riquezas; o processo de destruição sistemática do aparelho produtivo nacional; o empobrecimento crescente do conteúdo democrático do regime; a venda ao desbarato de pedaços da soberania nacional colocando os destinos do País nas mãos dos grandes e poderosos da Europa e do mundo – constituem algumas das consequências de vinte e oito anos de mandato cumprido ao serviço da política de direita e de um entendimento pleno, em todas as questões essenciais, «entre as principais forças políticas», aliás, em permanente rota de colisão com a Constituição da República Portuguesa.
Com rigor, pode dizer-se que, nesses vinte e oito anos, tudo foi tentado para superar a crise, excepto... mudar de política. E está à vista de quem não queira fingir que não vê, que é isso que faz falta, que é na mudança de política que está a solução para a crise e para a instabilidade existentes.
É para isso, aliás, que importa alertar os eleitores: mais do que alimentar-lhes a ilusão de que «sempre têm revelado uma grande sabedoria nas suas escolhas» (facto que a realidade desmente exuberantemente) há que dizer-lhes e demonstrar-lhes que não estão condenados a sofrer eternamente as consequências da política de direita, que há soluções para vencer a crise, e que essas soluções passam, isso sim, por uma mudança de política séria e a sério. E que o primeiro passo para essa mudança consiste no reforço da votação e do número de deputados da CDU.