A propósito de Poirot
Olho David Suchet na interpretação da figura de Hercule Poirot e não consigo libertar-me de algum fascínio perante aquele equilíbrio sempre aparentemente instável entre uns vestígios de caricatura, aliás presentes no perfil que Agatha Christie quis desenhar para o personagem que criou, e a discreta mas impressiva sugestão de sentimentos, ironias, comentários mudos que o trabalho do actor «passa» ao espectador atento. Confesso, porém, que o tal fascínio excede o âmbito da interpretação de Suchet e tem raízes não apenas nos livros de Agatha Christie, a quem até perdoo o anti-bolchevismo verdadeiramente primário que de resto era corrente e epidémico na Inglaterra dos anos 20/30, mas também no tom em que eles se inserem, como a seguir procurarei explicar. Como tanta outra gente que sabendo ler faz uso regular dessa capacidade, sou leitor da chamada literatura policial, sempre me tendo esforçado por escolher a de melhor qualidade. Sabe-se, porém, que qualquer invocação de qualidade, quer em matéria de literatura quer, por exemplo, na área da televisão, é susceptível de desencadear infindáveis objecções e consequentemente polémicas, pelo que talvez seja conveniente esclarecer que, quanto às minhas leituras de estórias policiescas, a qualidade que reconheço é a que coloca a inteligência e a razão como invisíveis personagens centrais, assim se afastando de uma opção possível e largamente praticada que confia à acção quase sempre tendencialmente brutal o protagonismo da narração. Por motivos que seria ocioso tentar esclarecer agora mas que talvez não seja difícil adivinhar, tenho como certo que o uso da razão, isto é, a abordagem inteligente das grandes ou pequenas questões que surgem no percurso dos homens, é bem mais recomendável que o abandono emocional às pulsões, às apetências, aos preconceitos, às crendices da mais diversa ordem. Estou mesmo convencido, e nisso acompanhado esplendidamente pela melhor gente de sucessivas gerações, que foi graças à emergência do racionalismo a partir do Renascimento que se tornou possível que nos séculos XIX e XX as sociedades do hemisfério Norte pudessem aceder a espectaculares avanços científicos/tecnológicos (que hoje são o orgulho e por vezes o negócio de muitos que noutro plano desdenham da razão e do racionalismo) e à compreensão do devir social e das suas leis de que Marx e o marxismo são momentos culminantes.
O irracional contra-ataca
Suspeitar-se-á, e talvez com razão, que isto de chegar à mediatização electrónica (como exemplo possível dos progressos científicos) e ao marxismo tendo-se começado a falar de Poirot é um exagero com laivos de destrambelho. A questão, porém, é que não é tanto assim. As estórias que Poirot protagoniza integram-se num abundante ramo da literatura policial que privilegia o uso da razão no caminho para o desenlace final, e foi esse o tom dominante no género até meados do século XX. A partir de certa altura, porém, a acção tomou o comando das narrativas e o uso das armas e dos músculos usurpou o lugar que Agatha Christie confiara às «celulazinhas cinzentas» de que Poirot gosta de se gabar. E o mais interessante é que esta substituição não terá nascido do acaso: a partir de dada altura , a «inteligentsia» europeia e não só, constituída esmagadoramente por personalidades emergentes das burguesias dominantes, desencadeou uma espécie de ofensiva geral contra a razão e o racionalismo, acusados de não poderem esgotar os caminhos do conhecimento do mundo e das gentes. Era sem dúvida verdade, mas eu suspeito de que o grande pecado do racionalismo foi outro: fornecer uma argumentação sólida, nítida e largamente transmitida, à denúncia das criminosas desigualdades sociais, «dar razão» ao impulso insurreccional das classes exploradas, implicar a condenação moral e social dos exploradores. A campanha contra a razão continua em curso com grande intensidade e muita variedade, nos mais variados sectores e lugares, passa pelo «boom» de bruxedos e similares e habita confortavelmente na ficção que a televisão nos impinge ao domicílio. É neste quadro que o meu apreço pelas estórias de Hercule Poirot se reforça. Num dos seus telefilmes recentemente transmitidos, situando-se a estória em torno da violação de um milenar túmulo egípcio e das lendas de maldições que lhe estavam associadas, Poirot proferiu uma frase chave: «- Eu acredito na força da superstição!». Os desatentos interpretaram-na como sendo uma espécie de vénia perante o irracional, mas o decurso do entrecho viria a esclarecer que era de facto uma denúncia do uso do irracional, da sua força, para péssimos fins. Senti-me tentado a dizer: «- Eu acredito que o funcionamento do Mercado resolve tudo!». Seria uma denúncia paralela.
O irracional contra-ataca
Suspeitar-se-á, e talvez com razão, que isto de chegar à mediatização electrónica (como exemplo possível dos progressos científicos) e ao marxismo tendo-se começado a falar de Poirot é um exagero com laivos de destrambelho. A questão, porém, é que não é tanto assim. As estórias que Poirot protagoniza integram-se num abundante ramo da literatura policial que privilegia o uso da razão no caminho para o desenlace final, e foi esse o tom dominante no género até meados do século XX. A partir de certa altura, porém, a acção tomou o comando das narrativas e o uso das armas e dos músculos usurpou o lugar que Agatha Christie confiara às «celulazinhas cinzentas» de que Poirot gosta de se gabar. E o mais interessante é que esta substituição não terá nascido do acaso: a partir de dada altura , a «inteligentsia» europeia e não só, constituída esmagadoramente por personalidades emergentes das burguesias dominantes, desencadeou uma espécie de ofensiva geral contra a razão e o racionalismo, acusados de não poderem esgotar os caminhos do conhecimento do mundo e das gentes. Era sem dúvida verdade, mas eu suspeito de que o grande pecado do racionalismo foi outro: fornecer uma argumentação sólida, nítida e largamente transmitida, à denúncia das criminosas desigualdades sociais, «dar razão» ao impulso insurreccional das classes exploradas, implicar a condenação moral e social dos exploradores. A campanha contra a razão continua em curso com grande intensidade e muita variedade, nos mais variados sectores e lugares, passa pelo «boom» de bruxedos e similares e habita confortavelmente na ficção que a televisão nos impinge ao domicílio. É neste quadro que o meu apreço pelas estórias de Hercule Poirot se reforça. Num dos seus telefilmes recentemente transmitidos, situando-se a estória em torno da violação de um milenar túmulo egípcio e das lendas de maldições que lhe estavam associadas, Poirot proferiu uma frase chave: «- Eu acredito na força da superstição!». Os desatentos interpretaram-na como sendo uma espécie de vénia perante o irracional, mas o decurso do entrecho viria a esclarecer que era de facto uma denúncia do uso do irracional, da sua força, para péssimos fins. Senti-me tentado a dizer: «- Eu acredito que o funcionamento do Mercado resolve tudo!». Seria uma denúncia paralela.