Uma história americana

Correia da Fonseca
É sabido que a grande novela que nestes dias «passa» na televisão portuguesa é a da queda do governo Santana e dos subsequentes episódios. Também continua em exibição, embora a um ritmo mais lento, o Caso da Casa Pia, entretanto reforçado com uma outra estória que alguma vocação literária existente na polícia baptizou de Apito Dourado. Assim, quisesse eu submeter-me à regra segundo a qual o comentário de TV deve abordar programas da maior audiência, isto é, deve «estar» onde estão os olhos dos telepectadores, e alinharia umas frases acerca da situação política tal como ela nos surge nos ecrãs ou daqueles dois casos da área judicial. Acontece, porém, que não me sinto inclinado para qualquer dessas hipóteses. No que toca à decisão do PR e suas consequências, o meu fastio decorre sobretudo de não gostar muito de certos ajuntamentos e, neste caso, vendo que à satisfação popular pela partida do tandem Santana-Portas se junta a satisfação do grande empresariado, fico desconfiado, porventura mais propenso a reflectir do que a escrever. Quanto ao Processo Casa Pia e ao outro, o que ainda está em fase de arranque no Tribunal de Gondomar, parece-me que já muito foi dito e escrito, que ainda muito mais será escrito e dito, pelo que também me apetece pouco juntar a minha prosinha medíocre à opinião já tão abundantemente produzida, até de mais. Pelo que decidi ir em busca de assunto nos programas que, não sendo os mais vistos, são por vezes os mais interessantes, os que até dão ensejo a que se recordem dados esquecidos ou quase. E foi assim que dei de olhos com o telefilme que preencheu, um dia destes, o «Toda a Verdade» da SIC-Notícias: «Em memória de Frank Lee Smith». Lera algures que o que no telefilme nos era contado se havia passado na Florida, e a Florida é um Estado que me parece muito representativo do que são hoje os Estados Unidos em certos aspectos. Pelo que, à hora aprazada, lá estive eu sintonizado com a SIC-Notícias, com algum remorso por saber que iria assistir a um programa só acessível aos que recebem a TV por cabo, mas sabendo que também nesta área estamos perto de sofrer, por extensão, a já velha regra da direita quanto aos cuidados de saúde: se os queremos com qualidade, que os paguemos.

Quando um negro vale um outro

«Em memória» de Frank Smith porque ele já morreu, e morreu na prisão ao fim de cerca de quinze anos de cárcere. Segundo narrou um homem que o visitou já nos dias finais, morreu de cancro, sem tratamento adequado, sem que sequer alguém lhe trouxesse à cela o copo de água que Frank pedia. Não estava, porém, condenado a morrer assim pelo tribunal que o julgara, mas sim a ser executado na cadeira eléctrica pelo crime de violação e assassínio de uma menor. A vítima era negra, como Frank, e o que determinara a sentença havia sido, à falta de quaisquer provas, o reconhecimento de uma outra jovem negra. Aconteceu, contudo, que algum tempo depois a mesma jovem contou que para que fizesse o decisivo reconhecimento tinha sido muito pressionada pela família da vítima e sobretudo pela polícia. A defesa de Frank, que teve o mérito de nunca desistir de provar uma inocência que lhe parecia indubitável, chegou mesmo a descobrir o verdadeiro assassino, aliás um outro negro, e a provar a sua culpabilidade através de testes pelo ADN que, por seu lado, as autoridades tentaram impedir. Uma segunda subida do processo a tribunal tinha sido ineficaz porque a juíza recusara como bom o testemunho rectificativo da testemunha decisiva. Entretanto, o xerife local, para defesa obstinada da sua actuação anterior, chegara a forjar um terceiro reconhecimento que era uma falsificação. Mas nem mesmo o teste do ADN devolveu o inocente Frank Lee Smith à liberdade, e o cancro apenas poupou ao estado da Florida o trabalho de o electrocutar. Afinal, seria apenas mais um: é sabido que aquele estado gosta muito de electrocussões, sobretudo se o executado é negro. De resto, a reportagem atribuiu a uma das autoridades envolvidas um comentário lapidar: uma vez que se tratava de um crime entre negros, o que havia a fazer era agarrar um qualquer deles e condená-lo à morte em vez de se perder tempo, e decerto dinheiro, a apurar qual teria sido o assassino.
O telefilme não acrescentou ao relato do caso de Frank Lee Smith a observação de que aquele era um interessante exemplo da justiça norte-americana. Essa foi uma reflexão minha. Acrescentada à indignada amargura de saber que gente desta se acha no direito de mandar no mundo inteiro.