Uma obra-prima no deserto
Por volta da meia-noite da passada segunda-feira, a RTP transmitiu a última parte de «Gente Feliz com Lágrimas», que José Medeiros realizou no âmbito da RTP-Açores a partir do romance homónimo de João de Melo. Tenho como certo que «Gente Feliz com Lágrimas» é uma obra-prima; tudo ali é diferente e melhor, tudo é perturbantemente belo e sábio sem nunca incorrer nas categorias subalternas do bonito e do hábil. A inserção dos diferentes tempos não desliza para a território de mero estratagema do flashback e torna-se a própria respiração do processo narrativo. A beleza do muitas das imagens não está lá para enfeitar mas sim para participar activamente na narração: mesmo o que noutro contexto seriam «bilhetes postais» da paisagem açoriana assumem ali uma intervenção comovida. Bem posso escrever que «Gente feliz com Lágrimas» é, de uma ponta a outra, uma apoteose em permanente tom discreto. E que o paradoxo que se aloja nesta contradição interna dos termos é, afinal, uma fórmula adequada ao tom de uma grandeza rara que não fala alto, que opta pelo murmúrio e assim nos conduz ao limiar do arrebatamento sem que, contudo, nos permita transpô-lo. Precisamente porque optou por ser discreta, como quem adivinha que a grande arte não gesticula nem berra.
Estou, pois, convencido de que «Gente Feliz com Lágrimas» é uma obra-prima, e por isso me indigna que a RTP a tenha condenado a um regime de semiclandestinidade: os seus cinco episódios, se episódios se lhes pode chamar, foram transmitidos ao deus-dará, sem dia certo de transmissão, em horários que só tiveram como regularidade a circunstância de nunca coincidirem com o chamado «prime time» excepto no episódio inicial.
Num outro lugar escrevi que «Gente Feliz com Lágrimas» foi uma série assassinada, expressão que só parecerá excessiva a quem não se lembre de que um trabalho para a TV só adquire vida quando olhado pelos telespectadores. A breve mas tristíssima odisseia da obra de José Medeiros (e de toda a excelente equipa que com ele trabalhou) à procura de um tempo de antena com visibilidade aceitável é um capitulo dramático da crónica, que talvez alguém um dia escreva, dos tratos infames a que a estação pública de televisão está a ser submetida. Em apontamentos publicados aqui e além tenho deixado expressa a convicção de que a eliminação objectiva de que foi vitima «Gente Feliz com Lágrimas» ocorreu à revelia do actual Director de Programas, que julgo adivinhar esmagado por condicionalismos vários e irremovíveis. Nem por isso, contudo, o seu nome deixa de estar ligado a este caso, e lamento-o. Por cima dele, mais uma vez, julgo ver planar uma administração que se comporta não apenas como culturalmente analfabeta mas também como ceguinha aos fundamentalíssimos deveres de uma TV de serviço público. E, ainda mais acima, creio divisar as feições patibulares de alguém que chegou ali, precisamente ali, sem nada que o recomendasse mas com uma tarefa sinistra a executar por encomenda.
A escolha de Zola
Porque falei de obra-prima, não vá alguém pensar que «Gente Feliz com Lágrimas» é uma estória aborrecida contada de um modo fastidioso, só aplaudível pelos que são chamados de «pseudo-intelectuais» por uns sujeitos espertíssimos e muito pragmáticos que os topam à légua. 0 contrário é que é verdade: «Gente Feliz com Lágrimas» é uma estória simples da gente pobre e simples, narrada com um enorme talento que não exclui a simplicidade. Para reforço do que digo, direi que ê uma estória simples como a própria vida, porque a vida-de-verdade pouco ou nada tem com os enredos retorcidos de amoricos e ciúmes cruzados que são a estrutura da maioria das novelas que hipnotizam o tele-público e por isso vendem publicidade, enquanto arruinam o gosto de quem as vê e, a longo/médio prazo, a sua capacidade de entender a vida. Aliás, precisamente por ser agarrada à vida autêntica, «Gente Feliz com Lágrimas» é também o registo do quotidiano açoreano/português num certo tempo que talvez ainda não se tenha extinguido tanto quanto por vezes se supõe. Também por essa via tinha todas as condições para ser êxito junto de um público amplo enquanto, de caminho, seria uma boa recuperação de pelo menos fragmentos desse público para se constituir em audiência capaz de saborear, em matéria de TV, mais que um Nicolau Breyner e impingir-nos mais um concurso, agora no melhor horário dos dias úteis no canal principal da RTP.
Estou, pois, convencido de que «Gente Feliz com Lágrimas» é uma obra-prima, e por isso me indigna que a RTP a tenha condenado a um regime de semiclandestinidade: os seus cinco episódios, se episódios se lhes pode chamar, foram transmitidos ao deus-dará, sem dia certo de transmissão, em horários que só tiveram como regularidade a circunstância de nunca coincidirem com o chamado «prime time» excepto no episódio inicial.
Num outro lugar escrevi que «Gente Feliz com Lágrimas» foi uma série assassinada, expressão que só parecerá excessiva a quem não se lembre de que um trabalho para a TV só adquire vida quando olhado pelos telespectadores. A breve mas tristíssima odisseia da obra de José Medeiros (e de toda a excelente equipa que com ele trabalhou) à procura de um tempo de antena com visibilidade aceitável é um capitulo dramático da crónica, que talvez alguém um dia escreva, dos tratos infames a que a estação pública de televisão está a ser submetida. Em apontamentos publicados aqui e além tenho deixado expressa a convicção de que a eliminação objectiva de que foi vitima «Gente Feliz com Lágrimas» ocorreu à revelia do actual Director de Programas, que julgo adivinhar esmagado por condicionalismos vários e irremovíveis. Nem por isso, contudo, o seu nome deixa de estar ligado a este caso, e lamento-o. Por cima dele, mais uma vez, julgo ver planar uma administração que se comporta não apenas como culturalmente analfabeta mas também como ceguinha aos fundamentalíssimos deveres de uma TV de serviço público. E, ainda mais acima, creio divisar as feições patibulares de alguém que chegou ali, precisamente ali, sem nada que o recomendasse mas com uma tarefa sinistra a executar por encomenda.
A escolha de Zola
Porque falei de obra-prima, não vá alguém pensar que «Gente Feliz com Lágrimas» é uma estória aborrecida contada de um modo fastidioso, só aplaudível pelos que são chamados de «pseudo-intelectuais» por uns sujeitos espertíssimos e muito pragmáticos que os topam à légua. 0 contrário é que é verdade: «Gente Feliz com Lágrimas» é uma estória simples da gente pobre e simples, narrada com um enorme talento que não exclui a simplicidade. Para reforço do que digo, direi que ê uma estória simples como a própria vida, porque a vida-de-verdade pouco ou nada tem com os enredos retorcidos de amoricos e ciúmes cruzados que são a estrutura da maioria das novelas que hipnotizam o tele-público e por isso vendem publicidade, enquanto arruinam o gosto de quem as vê e, a longo/médio prazo, a sua capacidade de entender a vida. Aliás, precisamente por ser agarrada à vida autêntica, «Gente Feliz com Lágrimas» é também o registo do quotidiano açoreano/português num certo tempo que talvez ainda não se tenha extinguido tanto quanto por vezes se supõe. Também por essa via tinha todas as condições para ser êxito junto de um público amplo enquanto, de caminho, seria uma boa recuperação de pelo menos fragmentos desse público para se constituir em audiência capaz de saborear, em matéria de TV, mais que um Nicolau Breyner e impingir-nos mais um concurso, agora no melhor horário dos dias úteis no canal principal da RTP.