Lutas nas marinhas de sal

Sempre que agitamos um saleiro sobre um alimento e o polvilhamos com cristais de cloreto de sódio (sal), ou semeamos pedrinhas do mesmo condimento nas sardinhas para assar, raramente recordamos a mercadoria moeda que já foi, o símbolo ritual no baptismo ou a importância cultural que se projecta em múltiplos ditos populares.

A salicultura, em Portugal, cedo se destacou como actividade económica e o comércio de sal assumiu, desde a Idade Média, grande proeminência económica e política. Com cloreto de sódio se pagaram os navios fretados por D. João I para a conquista de Ceuta, e com igual produto se comprou o reconhecimento político-diplomático da Suécia e Holanda, no período da Restauração. O secular saber acumulado pelas gerações de marnotos portugueses despertara tais apetências internacionais que, em 1695, foi publicado um decreto proibindo, sob pena de morte, a emigração desses «especialistas do sal», impedindo-se assim a divulgação das suas técnicas e evitando-se indesejáveis concorrências.

Invariavelmente, pensamos no sal como elemento que aviva paladares, mas foi como elemento essencial na conservação de alimentos ou no curtimento de peles que sobreviveu ao longo da História. Contudo, a revolução industrial alterou-lhe o destino e, mantendo a sua presença na alimentação, o sal passou a animar, entre outras, a indústria da soda e a indústria electroquímica.

Vencido o sal pelas técnicas do frio, do vácuo ou pela adição de «saudáveis» substâncias químicas cancerígenas, a salicultura quase se tornou numa área da arqueologia industrial.

Num passado recente, em plena época da safra (Junho-Setembro), formigavam maltas de salineiros na redura do sal, e filas de carregadores transportavam-no para as eiras, aí se erguendo medas que povoavam a planura lagunar de alvas serras. Era uma faina dura, sob um Sol escaldante, executada por homens com pés retalhados pela desidratação, cegos pelo ricochete da luz nos cristais e com o estômago forrado de magra jorna. A titulo de exemplo, refira-se o de um industrial de Santa Iria de Azóia que, em 1937, obtinha lucros fabulosos, vendendo o moio de sal a 120$00 quando o pagava a 12$00, em cima do valado.

Entre 1943 e 1963, multiplicaram-se as lutas reivindicativas dos salineiros, clamando por aumento de salário, melhores condições de trabalho e pelo cumprimento das 8h00. Foi assim em: Setúbal, Moita, Alhos Vedros, Alverca, Alcochete, Figueira da Foz e Alcácer do Sal, ficando para a posteridade, como referência incontornável, a greve de um mês nas salinas de Alcochete. Cansados de reclamar e, indignados com as traficâncias do industrial Quintela & Cª com dirigentes da Casa do Povo, 700 salineiros resolveram recorrer à greve e abandonaram o trabalho no dia 29 de Julho de 1957, exigindo a anulação do contracto colectivo de trabalho já com 6 anos. Perante a unidade e determinação dos salineiros, a vila foi ocupada pela PIDE e GNR, sendo presos dezenas de grevistas.

As salinas foram fenecendo e hoje, em Aveiro, na Figueira da Foz, nas margens do Tejo ou do Sado, em Portimão, Tavira ou Castro Marim, os vastos acampamentos de salinas de que falava Raul Brandão, vão devolvendo à natureza os cômoros, muros, moitas e marachas que dividiam entre si os reservatórios de evaporação, tornando-os progressivamente anacrónicos, num sapal quadriculado, ermo e sem sabor.


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