
- Nº 1617 (2004/11/25)
Entrevista com Samia Nasser, Assaf Adiv e Yacov Ben Efrat, membros do WAC
Os israelitas não querem assinar a paz
Temas
A situação de ocupação e guerra que se vive na Palestina afecta toda a população, incluindo as classes trabalhadoras. Para conhecer o modo como o conflito as afecta e saber quais as possíveis propostas de solução, falámos com Samia Nasser, Assaf Adiv e Yacov Ben Efrat, membros do Centro de Acompanhamento dos Trabalhadores de Israel e da Palestina (WAC, Worker’s Advice Center), que recentemente visitaram Madrid a convite do sindicato Comisiones Obreras.
O que é o WAC e em que princípios se baseia?
O WAC é um centro independente radicado em Israel cujo objectivo é minorar a situação particularmente difícil em que vivem os trabalhadores árabes em Israel, a que se dá um tratamento de segunda classe. Isto sucede especialmente desde os finais dos anos 90, quando ficaram sem nenhum tipo de protecção para fazer valer os seus direitos laborais. Outro dos objectivos é conseguir avançar para estruturas económicas mais justas em comparação com o actual modelo neoliberal. Por outro lado, como associação de trabalhadores estamos empenhados em fomentar a solidariedade e tentar dar solução a grandes problemas como a autodiscriminação, o desemprego e em geral a falta de defesa resultante da inexistência de sindicatos e de outras formas de defesa dos direitos dos trabalhadores árabes em Israel.
E qual é o trabalho da Acção Democrática?
É uma iniciativa política de esquerda dentro do Estado de Israel que inclui militantes árabes e israelitas numa plataforma democrática. Procura uma via de saída para o conflito baseada principalmente nos direitos de autodeterminação do povo palestiniano. Não encaramos o conflito como um problema local, mas sim como um problema generalizado que tem a ver com um cenário mundial em que devia consolidar-se a paz entre Israel e a Autoridade Palestiniana. Todavia, tendo uma correlação de forças favorável a Israel e aos EUA, considerámos que uma tal abordagem, neste momento, poderia agravar mais o problema em vez de o solucionar. Foi então que concluímos ser necessário elevar outras ideias à condição de programa político, que começou por ser muito minoritário e de oposição. O reconhecimento mútuo entre a OLP e Israel representou um acto histórico de transcendência mundial e nós quisemos aprofundar o significado desta relação. A estratégia de Israel, tanto em relação aos territórios como à consideração da falta de independência da Autoridade Palestiniana, fez-nos sentir que este não era o melhor caminho para chegar a uma solução e que, pelo contrário, pioraria as coisas. Num dado momento, pensámos que começar um processo de novo era muito mais difícil do que terminá-lo e isso levou à criação desta iniciativa.
Qual o ponto da situação relativamente aos direitos dos trabalhadores na Palestina e em Israel?
No âmbito de um conflito militar, numa situação extrema, a situação caracteriza-se pela falta de estabilidade, especialmente para os trabalhadores palestinianos em Gaza e na Cisjordânia. Comprovam-no as estatísticas sobre a violência na Palestina, que mostram um panorama terrível de pobreza.
Em Gaza, actualmente, cerca de 70% da população vive da caridade, sem qualquer possibilidade de ganhar a vida. A maioria das vias de comunicação que deveriam servir para as pessoas se deslocarem estão encerradas. Todos os materiais necessários para a produção industrial são controlados por Israel, o que paralisa a actividade de manufactura em Gaza e na Cisjordânia, cujas economias necessitam que os materiais armazenados em portos e aeroportos sejam distribuídos para manter a sua actividade produtiva. Isto significa que a situação de encerramento provocada pela construção do muro está a tornar impossível a vida dos palestinianos destes territórios.
No respeitante à minoria árabe em Israel (20%), o problema é diferente. Ela não tem de enfrentar o muro, nem as restrições de movimentos, postos de controlo, nem todas essas dificuldades que afectam os palestinianos, mas há outro tipo de problemas provocados pela separação de facto que o Estado judeu leva a cabo. Nesse sentido, as diferenças ostensivas entre as condições de vida nas zonas judias e nas árabes são tão notórias como entre o primeiro e o terceiro mundo. Na parte judia encontramos zonas industriais e empresariais florescentes, zonas residenciais com amplos jardins e bem equipadas social e culturalmente, centros de ensino não massificado, etc.. Enquanto isso, nas zonas árabes vê-se o oposto, ou seja, bairros densamente povoados com escassez de recursos e de centros sócio-culturais, para além de escolas que têm até 40 ou 50 estudantes por sala.
Até que ponto depende a economia israelita dos trabalhadores árabes?
Não é correcto afirmar que a economia israelita depende dos trabalhadores palestinianos, mas a mão-de-obra é utilizada como mais um aspecto estratégico pelo governo israelita. Este aplica uma política segregacionista no que se refere aos tipos de actividade que os palestinianos de Israel podem desempenhar. Por exemplo, os sectores da energia, electricidade, transportes, portos, telecomunicações e indústria militar estão vedados aos árabes, que são igualmente discriminados dentro da administração, saúde, ensino e autarquias locais, onde a sua percentagem nos quadros é muito pequena.
Coincidindo com o início da Intifada nos anos 90 e as correspondentes acções de protesto e greves levadas a cabo, Israel começou a substituir trabalhadores palestinianos, especialmente no sector da construção, importando mão-de-obra barata de outros lugares. Com o tempo, isto chegou a criar um verdadeiro problema à sua estrutura económica e ao próprio Estado pelo ilógico que resulta importar tanta mão-de-obra. Actualmente, a situação está a mudar um pouco no sector da construção e esperamos que continue a mudar.
Qual é a situação das mulheres, do ponto de vista laboral?
A sociedade continua a pensar qualquer coisa do género “as mulheres são mulheres”. As que trabalham, fazem-no normalmente até se casarem, mas a ideia dominante é que devem ficar em casa. A sociedade está muito influenciada pela tradição e esta considerou a mulher como um elemento não produtivo da sociedade. Por outro lado, há que ter em conta as consequências do conflito, já que a indústria têxtil, que se instalou nas zonas árabes com o objectivo de conseguir uma mão-de-obra barata, acabou por se mudar para outros lugares onde, num cenário globalizado, as condições de custos tornam o investimento ainda mais rentável. Muitas mulheres acabaram assim por perder uma fonte de rendimento e a sua actividade laboral. O facto é que apenas 20% das mulheres árabes participam no contingente laboral; os restantes 80% não trabalham de forma assalariada, não tomam nenhuma iniciativa nesse sentido, nem se registam sequer como desempregadas.
Qual pensam que será a evolução política do conflito israelo-palestiniano?
Para avançar para a paz, o mais importante é fazê-lo através de um consenso e quando a esquerda israelita (1) estava em maioria não aproveitou nenhuma oportunidade para consolidar um avanço nesse sentido. De quem foi a culpa? Como numa espécie de relação entre brancos e negros, os árabes diziam que os culpados eram os israelitas e estes afirmavam o contrário.
É evidente que os israelitas foram os culpados porque nunca quiseram chegar a debater nem a assinar nenhum acordo definitivo e final; falamos de questões como a dos refugiados, dos colonatos ou de Jerusalém. Decide-se discutir onde não há nada para discutir porque não se deseja falar dos refugiados, nem do desmantelamento dos colonatos, nem da cidade velha de Jerusalém. Se Israel quisesse alcançar verdadeiramente a paz, saberia que actualmente não estão reunidas as condições para se chegar à paz na medida em que não se quer mencionar nenhum destes temas.
Do lado palestiniano, porque haveriam de assinar um acordo se as suas principais exigências não estão reconhecidas nem mencionadas como parte do problema? Os israelitas não estão dispostos a reconhecê-lo, logo, não fica nada para discutir. A primeira coisa que os palestinianos querem deixar claro aos israelitas é que devem aceitar o debate sobre os problemas fundamentais, reconhecendo a natureza dos mesmos.
Por outro lado, no que se refere à esquerda israelita, esta optou por apoiar Bush na guerra do Iraque porque a derrota de Saddam Hussein e a construção de um novo regime é considerada como benéfica para Israel. Pelo mesmo motivo se desejava a derrota de Arafat e a criação de um novo regime na Palestina. Assim, gerou-se uma conivência entre a esquerda, o governo e os EUA que levou a que a esquerda israelita fosse a única do mundo a não promover nenhum protesto contra a guerra. Esta posição mostra até que ponto perdeu completamente o seu carácter. O resultado foi que Sharon e o Likud tenham a situação totalmente dominada e controlada, e que a esquerda tenha perdido os seus apoiantes e, como é natural, a confiança dos eleitores. Que deveremos esperar que façam os cidadãos israelitas? Em quem vão votar? Que podemos esperar da esquerda se esta entra num governo com Sharon para reprimir a Intifada, para continuar a ocupação dos territórios e chega ao ponto de o representante do Partido Trabalhista ser o ministro da Defesa e, consequentemente, aquele que implementa essa política de conquista dos territórios palestinianos? Quando Barak saiu do executivo, foi Sharon quem chegou a acordo com o Partido Trabalhista. A esquerda quis mostrar que o lado palestiniano não estabelecia diferenças entre a ela e a direita, e entendia que ambas tinham interesses estratégicos comuns. Assim, a esquerda construiu uma opção para se apresentar a si mesma: a prioridade nos interesses estratégicos de Israel, que estavam acima de qualquer decisão da sociedade. Não há uma alternativa política, todas as alternativas parecem estar com Sharon. Quando a esquerda entrou para este governo pôs toda a fé em Sharon e deu-lhe toda a legitimidade, o que o levou a ganhar as eleições. O erro da assinatura de um acordo de aliança com Sharon e com os seus métodos de guerra na Palestina representou o fim do Partido Trabalhista de Israel como uma verdadeira alternativa à direita.
O que é que pensam sobre iniciativas como a de Genebra?
A iniciativa de Genebra pode qualificar-se como algo parecido ao virtual porque não há uma base para que possa chegar a considerar-se real. Por um lado, Yossi Beilin não voltará a estar no governo de Israel e foi ele o responsável pela divisão do Partido Trabalhista. Por outro lado, o seu parceiro, Abed Rabbo, não tinha mandato da Autoridade Palestiniana. Por isso, temos duas personalidades que foram escolhidas numa grande campanha financiada por países como a Suíça, mas fora da realidade. Para chegar a algum lado, há que esperar que exista um amplo apoio social sobre qualquer iniciativa de acordo; o problema é a confiança: Quem vai acreditar neste contexto na parte israelita? E se os palestinianos dizem que querem construir a paz, quem vai acreditar que nisso? É uma situação difícil que nenhum dos interlocutores será capaz de superar. Torna-se necessária a presença de outras forças diferentes que possam fazer mudar as regras do jogo.
Que papel pode desempenhar a União Europeia na solução do conflito?
Dizemos que a Europa tem de desempenhar um papel, ainda que a Europa não pareça estar consciente da importância que tem a sua intervenção porque, se olharmos atentamente para o que se passa na Palestina agora e para o que está a acontecer no Iraque, em ambos os casos os EUA tratam de impor a sua vontade não apenas aos iraquianos e aos palestinianos, mas também no Médio oriente e em todo o mundo. Também quiseram impor a sua vontade na Europa com a pretensão de a dividir e de acabar com a «velha Europa» para construir uma nova. Que pode fazer a Europa ou o que é que pode começar a fazer? Em primeiro lugar, temos as grandes manifestações contra a guerra e em Espanha registou-se uma mudança política após a tragédia de 11 de Março. Há que descobrir uma forma de alterar o equilíbrio de forças existente. Se Bush for derrotado no Iraque, Sharon será derrotado em Israel. Desde logo, as coisas mudariam com uma Europa que favorecesse o multilateralismo graças à pressão dos europeus que desejam uma realidade diferente. No entanto, esta não é uma questão que dependa apenas do que as pessoas querem, mas depende também de decisões políticas, que devem ser tomadas pelos políticos que se movem por interesses e pelo poder.
Por isso, se nada mudar nas decisões políticas, nada mudará; pelo contrário, se nesta matéria se orientar a política para uma mudança real, tudo pode transformar-se.
Há razões para sermos optimistas?
Certamente! Nós não temos soluções, mas estamos certos de que começam a fazer-nos as perguntas certas, quer na sua revista quer noutros média. O princípio da mudança é conseguir que nos façam estas e outras perguntas. Devemos começar a trabalhar por essa mudança e nesse sentido estamos muito optimistas. Há um lugar para a esperança e muitas pessoas estão a colaborar em aspectos distintos e simultaneamente similares: lutando pelo meio ambiente, contra a pobreza, pela educação, etc., estão ao fim e ao cabo a trabalhar na mesma direcção. Pode ser que não estejamos de acordo em tudo, mas pelo menos começámos a fazer alguma coisa mexer.
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(*) Entrevista publicada em Pueblos e reproduzida por Rebelión. Tradução de Anabela Fino
1 - A designação «esquerda israelita» refere-se aos trabalhistas
Juan Pablo Crespo