A difícil limpeza
Ao que consta, representantes do governo espanhol reuniram-se há dias com dirigentes das diversas estações de TV, públicas e privadas, com vista ao estabelecimento de um acordo, espécie de «acordo de cavalheiros», visando limpar o chamado telelixo das programações. Não em qualquer horário, apenas nas horas em que supostamente têm maior acesso à televisão as crianças e os adolescentes, em princípio entre as 18 e as 23 horas.
É sabido, em Espanha como por cá, que as coisas não são bem assim: nem adolescentes e crianças deixam de olhar a TV depois das 11 da noite nem é certo que ao longo do dia as estações não transmitam telelixo em suficiente abundância mas, bem se sabe, nestas como noutras coisas no fazer de conta é que está o ganho. Além disso, porém, resta fixar o que é o telelixo que irá provavelmente ter horário próprio. Serão, como dirá o senhor prior, os momentos de TV que excitam a sensualidade e acendem o apetite da fornicação, assim incitando à violação do mandamento que recomenda a guarda da castidade? Ou serão, como dirão outros também cristãos e não apenas esses, os que contribuem embora a mais longo prazo para maior facilidade na violação do mandamento que nos ordena não matar? Nesta última hipótese, uma das primeiras e mais substanciais supressões teria de ser na área da programação dita infantil onde, como bem se sabe, a habituação a formas várias de violência visual e auditiva é ministrada às crianças de tenra idade. É certo que uma falange não dispicienda de especialistas, abundante mas ainda assim claramente minoritária, sustenta que a violência na TV até faz bem à saúde (mental, entenda-se), mas esse segmento de opinião não pode surpreender num mundo onde tudo se compra e vende, sendo que o pagamento nem sempre é feito em numerário ou equivalente. Aliás, há uma inegável tendência para sugerir, se não para afirmar frontalmente, que os preconizadores da mansidão, da fraternidade e da paz são lunáticos, quando não agentes subversivos infiltrados, e esta é sem dúvida mais uma dificuldade de peso quando porventura se tenta erradicar da TV, mesmo que apenas em certas horas, um telelixo que de facto não se sabe ao certo o que vem a ser.
A gula e outros pecados
Outra dificuldade enorme quando pelo menos alegadamente se pretende defender a saúde mental de crianças e jovens é a que resulta das catadupas de blocos publicitários que em Espanha como por cá nos são metidos pelos olhos dentro. Quanto a eles, suspeito que o senhor prior só se arripiará com as doses de erotismo que são o excipiente de boa parte dos «spots», mas receio que essa resposta de sensibilidade seja redutora. Aprendi que a luxúria é um pecado mortal e não vou agora discutir isso, mas bem me lembro que a gula também o é, e a vida ensinou-me que há vários tipos de gula, sendo que o que hoje está mais espalhado, de tal modo que raros lhe escapam, é a gula do consumismo, ainda há pouco denunciado como um enorme mal por um eminente bispo português. Ora, a publicidade em geral e a telepublicidade em especial vive disso, do incitamento ao consumismo, e sem isso morreria asfixiada a menos que ocorresse uma revolucionária mutação nas sociedades, a espanhola, a portuguesa e as demais. Por cá, como todos os dias vemos e mais intensamente veremos nos dias próximos com o Natal a aproximar-se, nem as crianças são poupadas, e a telepublicidade não só as usa como alvos indefesos como também agentes aliciadores ao participarem nos «spots». Se isto não é telelixo, e dos mais tóxicos, é difícil saber o que será.
Naturalmente que reunindo-se em qualquer país do mundo representantes do poder político e do poder televisivo com o proclamado objectivo de limparem a TV do que os garotos não devem ver, algum resultado irá ser atingido e tornado público, porque nem uns querem ser tomados como impotentes nem outros querem parecer péssimos cidadãos. Mas, no quadro das realidades hoje dominantes, nada será mais que uma virtuosa maquilhagem. As crianças e os jovens continuarão a aprender na TV que a brutalidade é o método eficaz, que as guerras são aventuras porreiras, que comprar é preciso e urgente, que os pais servem para dar dinheiro e pouco mais, que os velhos devem morrer depressa em vez de andar por aqui a chatear, que isso de cultura é coisa dos séculos passados e agora basta aprender o que for preciso para ganhar o nosso, que o mundo tal como está tem uns defeitos mas não há outro remédio e a prova disso é que os comunistas são gente tão ultrapassada que já nem aparecem na televisão, claro sinal de que não existem. E não se diga que tudo isto e algo mais não é dito expressamente na TV. Porque também a televisão, como a velha prosa escrita, tem entrelinhas.
É sabido, em Espanha como por cá, que as coisas não são bem assim: nem adolescentes e crianças deixam de olhar a TV depois das 11 da noite nem é certo que ao longo do dia as estações não transmitam telelixo em suficiente abundância mas, bem se sabe, nestas como noutras coisas no fazer de conta é que está o ganho. Além disso, porém, resta fixar o que é o telelixo que irá provavelmente ter horário próprio. Serão, como dirá o senhor prior, os momentos de TV que excitam a sensualidade e acendem o apetite da fornicação, assim incitando à violação do mandamento que recomenda a guarda da castidade? Ou serão, como dirão outros também cristãos e não apenas esses, os que contribuem embora a mais longo prazo para maior facilidade na violação do mandamento que nos ordena não matar? Nesta última hipótese, uma das primeiras e mais substanciais supressões teria de ser na área da programação dita infantil onde, como bem se sabe, a habituação a formas várias de violência visual e auditiva é ministrada às crianças de tenra idade. É certo que uma falange não dispicienda de especialistas, abundante mas ainda assim claramente minoritária, sustenta que a violência na TV até faz bem à saúde (mental, entenda-se), mas esse segmento de opinião não pode surpreender num mundo onde tudo se compra e vende, sendo que o pagamento nem sempre é feito em numerário ou equivalente. Aliás, há uma inegável tendência para sugerir, se não para afirmar frontalmente, que os preconizadores da mansidão, da fraternidade e da paz são lunáticos, quando não agentes subversivos infiltrados, e esta é sem dúvida mais uma dificuldade de peso quando porventura se tenta erradicar da TV, mesmo que apenas em certas horas, um telelixo que de facto não se sabe ao certo o que vem a ser.
A gula e outros pecados
Outra dificuldade enorme quando pelo menos alegadamente se pretende defender a saúde mental de crianças e jovens é a que resulta das catadupas de blocos publicitários que em Espanha como por cá nos são metidos pelos olhos dentro. Quanto a eles, suspeito que o senhor prior só se arripiará com as doses de erotismo que são o excipiente de boa parte dos «spots», mas receio que essa resposta de sensibilidade seja redutora. Aprendi que a luxúria é um pecado mortal e não vou agora discutir isso, mas bem me lembro que a gula também o é, e a vida ensinou-me que há vários tipos de gula, sendo que o que hoje está mais espalhado, de tal modo que raros lhe escapam, é a gula do consumismo, ainda há pouco denunciado como um enorme mal por um eminente bispo português. Ora, a publicidade em geral e a telepublicidade em especial vive disso, do incitamento ao consumismo, e sem isso morreria asfixiada a menos que ocorresse uma revolucionária mutação nas sociedades, a espanhola, a portuguesa e as demais. Por cá, como todos os dias vemos e mais intensamente veremos nos dias próximos com o Natal a aproximar-se, nem as crianças são poupadas, e a telepublicidade não só as usa como alvos indefesos como também agentes aliciadores ao participarem nos «spots». Se isto não é telelixo, e dos mais tóxicos, é difícil saber o que será.
Naturalmente que reunindo-se em qualquer país do mundo representantes do poder político e do poder televisivo com o proclamado objectivo de limparem a TV do que os garotos não devem ver, algum resultado irá ser atingido e tornado público, porque nem uns querem ser tomados como impotentes nem outros querem parecer péssimos cidadãos. Mas, no quadro das realidades hoje dominantes, nada será mais que uma virtuosa maquilhagem. As crianças e os jovens continuarão a aprender na TV que a brutalidade é o método eficaz, que as guerras são aventuras porreiras, que comprar é preciso e urgente, que os pais servem para dar dinheiro e pouco mais, que os velhos devem morrer depressa em vez de andar por aqui a chatear, que isso de cultura é coisa dos séculos passados e agora basta aprender o que for preciso para ganhar o nosso, que o mundo tal como está tem uns defeitos mas não há outro remédio e a prova disso é que os comunistas são gente tão ultrapassada que já nem aparecem na televisão, claro sinal de que não existem. E não se diga que tudo isto e algo mais não é dito expressamente na TV. Porque também a televisão, como a velha prosa escrita, tem entrelinhas.