
- Nº 1610 (2004/10/7)
O método do vale-tudo
Opinião
Durante muito tempo, por efeito de exaustiva propagação mediática, foi voz corrente que os trabalhadores portugueses eram os mais absentistas da Europa. Era mentira. Mentira refinada, aliás. Na verdade, o que acontece é exactamente o contrário do que era dito: sabe-se agora, certeza certa, que os trabalhadores portugueses são os menos absentistas da Europa. No entanto, de acordo com os objectivos dos que a propagavam, a mentira fez caminho, chegou longe, instalou-se nas memórias, cumpriu o seu destino, ou seja, de tantas vezes repetida logrou transformar-se em verdade - como ensinava um célebre antepassado dos actuais propagandistas do grande capital. E provocou estragos – estragos que a reposição da verdade não anulará, nem pouco mais ou menos. Até porque, como sempre acontece nestas circunstâncias, a rectificação da mentira fica sempre muito aquém da sua propagação, não merecendo mais, regra geral, do que um breve e discreto registo – breve e discreto que baste para não se dar por ele.
Utilizada por analistas, comentadores e editorialistas encartados (desses que têm como tarefa maior apresentar a política de direita como coisa boa e moderna), brandida por primeiros ministros e ministros de sucessivos governos, arremessada por severos representantes de associações patronais - a mentira sobre a taxa de absentismo dos trabalhadores portugueses sustentou multidões de análises, comentários e editoriais; foi arma de arremesso contra os trabalhadores; foi argumento justificativo de políticas anti-laborais; foi explicação para a redução dos subsídios de doença; foi instrumento de desvalorização e menorização das lutas dos trabalhadores; foi parte integrante do acervo ideológico que apresenta o desemprego como condição indispensável para o desenvolvimento do País; que entende o trabalho, mesmo que precário – ou especialmente o precário - como uma benesse; que vê os baixos salários como uma condição absoluta de modernidade; que teoriza sobre a antiguidade do sindicalismo de classe e a sua necessidade de se adaptar às novas realidades – foi, enfim, tudo o que, quem a inventou e propagou, queria que fosse. Nem mais, nem menos.
Era mentira? Era. Paciência. Há mentiras que vêm por bem... o que explica e justifica o despudorado e desavergonhado vale-tudo que caracteriza os métodos utilizados pelos propagandistas da política de direita.
José Casanova